11 maio, 2021
por Daniel Geraldes
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A suplementação mineral e vitamínica na produção de animais não ruminantes

A suplementação mineral e vitamínica na produção de animais não ruminantes: uma breve abordagem crítica.

Walter Motta Ferreira, Zootecnista, Esp., MSc., DSc., Professor Titular do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais.

De forma prática nas rações e alimentos completos para animais não-ruminantes, com ênfase em aves, suínos, equídeos, coelhos, animais de estimação, entre outros, é incluída a suplementação de minerais e vitaminas como pré-misturas vitamínicas, minerais, vitamínico-mineral (premixes) ou mesmo serem incluídos em núcleos formulados para atender com os ingredientes majoritários o cumprimento das exigências nutricionais planejadas para a espécie/grupo/categoria de interesse. Há uma linha conceitual que deve ser bem compreendida entre o significado de suplementação em contraste com a complementação.

Na suplementação se ignora, em tese, o que já é fornecido pelos ingredientes predominantes da ração ou alimento completo e assim, o suplemento utilizado acrescenta, por exemplo, os microelementos minerais e as vitaminas assim como rezam as necessidades dos animais. Na complementação, conforme sugere o próprio termo, se completam os nutrientes já fornecidos pelos ingredientes até atingir as necessidades dos animais. Enfim, uma estratégia ou outra deve, antes de tudo, ser ponderada por um técnico competente para a devida formulação. Porém, existem outras considerações que nem sempre estão na pauta das indicações de premixes ou núcleos e que merecem reflexão.

Nos últimos vinte anos as políticas legislativas, particularmente na União Europeia, ampliaram o rigor dos critérios de uso de minerais na alimentação animal, em vista da argumentação da redução da poluição ambiental. Entre os argumentos se incluía que substancial parte dos elementos traços ingeridos (microelementos minerais) pelas diversas espécies domésticas (até 99%) não é retido e aparece em fezes e urina. Com isto, parece haver pertinência na discussão que a emissão de oligoelementos aumenta a poluição, um problema que pode ser minimizado com a inclusão mais ajuizada de minerais na dieta dos animais.

Outros trabalhos apontaram para questões mais preocupantes observando que a suplementação mineral extra, especialmente com base em fontes inorgânicas de rações para animais não só não melhorou a produtividade, ou foi indiferente em dadas fases do processo produtivo, como também foi contraproducente em outras etapas do sistema de produção. Estes achados conduziram a mais pesquisas que tem evidenciado que a suplementação mineral e vitamínica, em certas circunstâncias, pode até ser suprimida em algumas fases do processo produtivo o que concorre a um incremento importante na lucratividade dos sistemas de produção considerando a diminuição dos custos das dietas.

Os alimentos e a água contêm praticamente todos os elementos minerais conhecidos, nutricionalmente desejáveis ou não, sob várias formas químicas, ou seja, em estado livre ou sob a forma de compostos orgânicos e inorgânicos, e em proporções muito variáveis. Pode-se considerar a máxima que “A alimentação mineral adquire uma maior importância à medida que submetemos os animais a uma maior pressão de produção.  A evolução das características genéticas, os sistemas de exploração cada vez mais intensivos e a utilização de dietas mais complexas, tornam necessário um maior conhecimento das necessidades nutricionais pelos animais para se obter uma produção ótima

Há que se considerar que a maioria dos estudos efetuados para basear boa parte das recomendações de inclusão mineral na dieta foram realizados há mais de 40 anos, logo, não consideraram a evolução na produção intensiva com animais mais produtivos.

Até alguns anos atrás, os microelementos minerais eram adicionados às dietas para controlar deficiências nutricionais, como anemia (ferro), paraqueratose (zinco) e bócio (iodo). No entanto, trabalhos publicados nos últimos anos têm provado fortemente que quantidades adicionais de certos minerais podem melhorar aspectos produtivos e outros parâmetros não zootécnicos, além de corrigir dos sintomas clássicos de deficiência. Em particular, a suplementação extra de zinco e selênio melhora o estado imunológico e resistência a doenças e à de cromo e manganês a qualidade da carcaça. De grande importância prática é a inclusão de níveis de cobre e zinco para reduzir problemas digestivos e melhorar o crescimento. Como resultado, muitos oligoelementos são agora incorporados na dieta para um propósito diferente do que somente evitar sintomas típicos de deficiência. Portanto, os níveis de uso na alimentação prática são maiores do que o estabelecido por instituições científicas.

O aporte de minerais deve considerar os distintos fatores que vão influenciar sua absorção e, portanto, utilização no organismo.

Existem diversas circunstâncias que vão influir, ao nível intestinal, na eficiência com a qual um mineral é absorvido:

1 – Interações entre minerais:

a) Formação de precipitados insolúveis quando dois ou mais cátions competem pelo mesmo ânion. Este é o caso do ácido fítico, pois quando um sal solúvel é ionizado no intestino, o cátion pode ser sequestrado por ele, formando fitatos, que são sais estáveis e insolúveis, o que os torna não absorvíveis. Esta reação ocorre sobretudo com Ca, Zn e Fe. Por outro lado, pode ocorrer que quando a molécula ligante não esteja presente em excesso, a suplementação de um elemento pode aumentar a disponibilidade de outro ao reduzir-se suas possibilidades para formar complexos (p.ex., quando se adiciona Cu à dieta a concentrações relativamente altas como estimulante de crescimento, aumentando-se a disponibilidade de elementos traços como o Zn, diminuindo a incidência de paraqueratose). Também podemos citar o exemplo dos fitatos (hexafosfato de myo inositol) que ao ser analisado no laboratório é considerado como P total, mas os monogástricos não são capazes de romper esta molécula por não existir suficiente fitase no intestino, tornando o P não assimilável. Estes fenômenos de precipitação podem ocorrer também com fosfatos e oxalatos.

b) Competição entre cátions pela mesma proteína de transporte, para passar a parede intestinal. Um exemplo deste fenômeno ocorre entre o Fe e Cu, que são antagonistas, competindo pela transferrina (o Cu tem preferência de união, o que pode diminuir a absorção de Fe).

c) Os processos enzimáticos essenciais podem ser bloqueados pela troca de um cofator metálico por um metal inativo. Um exemplo é o que ocorre com uma das enzimas essenciais à síntese de porfirina (fração da hemoglobina) que é ativada pelo Zn mas inibida pelo chumbo (Pb).

d) Quando um metal que forma parte de uma metaloenzima é substituído por outro, a atividade enzimática pode bloquear, acelerar ou não variar. É o caso da carboxipeptidase (uma metaloenzima de Zn). Quando Zn é substituído pelo Co há uma diminuição de atividade enzimática.

e) Quando há um aporte excessivo de um metal, não somente há uma menor absorção intestinal sendo que também há uma reexcreção no lúmen intestinal do excesso de metal, o que pode acarretar excreção de outros metais durante o processo.

f) Mesmo que tenhamos considerado estas interações de forma isolada, geralmente se produzem simultânea ou consecutivamente mais de um processo.

2 – Interações Vitamina-Minerais: as vitaminas também podem interferir na absorção intestinal de minerais. Tal como o caso do aumento na absorção de Fe causado pela vitamina C, ou a necessidade de vitamina D para absorção do Ca através do intestino. Isto se complica mais se considerarmos as interações entre vitaminas (p.ex., um excesso de niacina pode deprimir a vitamina D e interferir, portanto, na assimilação e uso do Ca).

3 – Interações entre Minerais e Gorduras: estas interações podem influir na biodisponibilidade deste mineral no organismo. Um exemplo é a interrelação existente entre os microminerais e os ácidos graxos, formando sabões insolúveis no trato digestivo. Além disso, há interações entre a síntese de ácidos graxos essenciais e minerais.

4 – Interações Fibra-Minerais: diversos estudos têm demonstrado que a presença de fibra não digestível interfere e diminui a absorção de grande parte dos minerais. Estes estudos têm se concentrado sobretudo na diminuição da absorção de Ca, P, Mg e Zn.

5 – Interferência pH-Minerais: o pH intestinal tem grande influência sobre a absorção mineral já que, em geral, pHs alcalinos diminuem a absorção (exceto dos metais alcalinos) e os cátions tendem a formar precipitados insolúveis quando o pH é elevado.

6 – Estimação das Necessidades: a meta da investigação dos microminerais relativa à fisiologia da digestão é principalmente estabelecer dados de necessidade para os elementos individuais. Pelo fato da utilização de um elemento estar influenciada por muitos fatores, é útil traçar uma distinção básica entre necessidade líquida e bruta. A necessidade líquida resulta das perdas do corpo, principalmente com as fezes e urina, mas também com a transpiração cutânea e a partir dos produtos elaborados. A necessidade bruta inclui as quantidades dos elementos-traços os quais, tendo em conta o fator utilização, se deve ingerir com a dieta para cobrir a necessidade líquida. Para se cumprir com estes preceitos há basicamente três métodos para medir a utilização dos microminerais: os estudos de balanço, a relação dose-resposta e o método fatorial, cada um deles com suas limitações e ponderações de resultados apropriados.

Com relação as vitaminas, todas têm funções muito específicas no corpo e devem ser contidas na alimentação diária para evitar deficiências. Não há alimentos mágicos que contenham todas as vitaminas, apenas a combinação certa de grupos alimentares faz com que se atenda às necessidades de todas as funções essenciais para a vida. Ter uma boa dieta é indispensável para o desenvolvimento das nossas habilidades físicas e mentais; além disso, a deficiência de vitaminas pode nos levar a contrair doenças graves que poderíamos corrigir com uma dieta equilibrada.

As vitaminas são substâncias indispensáveis na nutrição dos seres vivos; não fornecem energia, mas sem elas o corpo não poderia aproveitar os elementos estruturais e energéticos fornecidos através dos alimentos. A maioria das vitaminas tradicionais, tais como A, E, K, B1, B6 e B12, riboflavina, ácido fólico, ácido pantotênico e biotina satisfazem cada um desses requisitos. Por sua vez, as vitaminas C e D, a niacina e a colina são consideradas vitaminas somente em contextos bem definidos. Por exemplo, a vitamina C (ácido ascórbico) é metabolicamente sintetizada pela maioria das espécies a partir da glicose na via do ácido glicurônico.

Somente poucas espécies como os seres humanos, as cobaias, alguns peixes etc., por falta da enzima L-gulonolactona oxidase não sintetizam o ácido ascórbico, requerendo, portanto, esta vitamina na sua dieta. A vitamina D, por sua vez, é realmente vitamina em condições de ausência de luz solar; pois as radiações ultravioletas da luz solar permitem a biossíntese de vitamina D a partir dos precursores. A niacina é metabolicamente sintetizada a partir do aminoácido essencial triptófano. Contudo, a eficiência desta conversão é tão baixa que a maioria das espécies (especialmente o gato, os peixes, pato e marreco) necessitam de niacina dietética quando os teores de triptófano recebidos são simplesmente aqueles das misturas dietéticas comuns. A colina, que é metabolicamente gerada pela aminação e subsequente metilação da serina não é biossintetizada em quantidades suficientes para satisfazer as exigências do rápido crescimento de aves domésticas jovens. Neste caso, a colina é assumida como uma vitamina.

A determinação das necessidades vitamínicas e minerais foi inicialmente baseada em estudos corrigindo-se os sintomas de deficiência. As necessidades identificadas, rotineiramente, são muito baixas para prevenir sintomas de deficiências. A inclusão de altas margens de segurança na adoção sem critério de premixes de vitaminas e minerais, deve sempre ter em mente que doses muito elevadas podem ser tóxicas. Em muitos casos, há um desconhecimento real das necessidades de uma determinada vitamina ou mineral para uma função particular.

Em vista do exposto, há que se considerar, adicionalmente, para o caso brasileiro, onde representamos um dos mais pujantes e competitivos países na produção de proteína animal de todo o mundo, o volume que utilizamos dos recursos e insumos de suporte desta atividade. O SINDIRAÇÕES indica que houve crescimento de 5,2% no primeiro semestre do ano de 2020 na produção de rações, comparando-se com o mesmo período de 2019, podendo consolidar um recorde de 81 milhões de toneladas mesmo ano do início da preocupante pandemia de COVID-19 que assolou a humanidade.

Nesta direção, pode-se inferir que as milhares de toneladas relativas que representam os suplementos e complementos deve-se ter em conta o que poderia representar a falta de critério no uso desses produtos e seu impacto em nossos recursos naturais, em especial a água e o solo. A responsabilidade neste contexto tanto compete a instâncias dos Poderes Legislativo e Executivo, mas, sobretudo, a fabricantes de produtos e aos criadores de animais. A comunidade científica e os demais atores comprometidos com desenvolvimento científico e tecnológico devem estar atentos ao surgimento de novas técnicas analíticas que facilitam a dosagem desses nutrientes, a adoção de novas metodologias e estratégias de estudos das necessidades nutricionais para que se suporte com maior segurança e confiabilidade a inclusão nas rações e alimentos completos para os animais não-ruminantes.

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA INGREDIENTES & NUTRIENTES NUTRIÇÃO ANIMAL.
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