11 jan, 2018
por Daniel Geraldes
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Alternativas tentam frear R$ 7 bi em comida que são jogados no lixo

Supermercados e tecnologias tem papel de mudança no cenário do desperdício.

Um faturamento inteiro das lojas Pão de Açúcar. Ou mais do que o Mc Donald’s registrou em receita líquida no Brasil em todo 2016. Esse é o montante – R$ 7,1 bilhões – que os supermercados brasileiros perderam com alimentos aptos ao consumo, mas que foram jogados fora por danos, aparência ou validade. Quase tudo foi para o lixo.

A “quebra operacional”, jargão do varejo para o desperdício, abocanha, ano após ano, uma fatia de 2% do faturamento bruto do setor, que em 2016 atingiu R$ 338,7 bilhões, segundo dados compilados pela Associação Brasileira dos Supermercados (Abras, São Paulo/SP). No ranking por segmento, o FLV (frutas, legumes e verduras) lidera, mas a perda é alta também itens de padaria, comida pronta e carnes em geral.

O indicador dá a dimensão do tamanho do problema, mas é só uma parte dele. O desperdício ainda permeia todos os elos da cadeia produtiva e faz com que até 30% do que é plantado jamais chegue à boca do consumidor brasileiro, segundo a FAO Brasil.

Do ponto de vista financeiro, o varejo tem motivos de sobra para se preocupar: o desperdício representou 28,6% das perdas totais em 2016, superando os furtos externos e internos (18,2% e 8,3%, respectivamente), os erros de inventário (14,8%) e administrativos (8,9%) e a devolução de produtos ao fornecedor (7,9%). “É algo que os supermercados olham com muita atenção”, afirma o superintendente da Abras, Marcio Milan.

O contra-ataque do setor teve início há cerca de três anos, mas com resultados ainda tímidos diante da urgência que o tema exige. Em geral, as ações baseiam-se na promoção de itens com prazo de validade próximo de expirar. Mais recentemente, alimentos que fogem do padrão comercial – tamanho, cor e consistência – começaram a ser testados em algumas lojas.

Lançado em novembro pelo Carrefour, a maior varejista alimentar do País, o programa “Únicos” oferece cerca de 10 legumes e frutas que não atendem a ficha técnica com descontos a partir de 30%. Implementado em caráter experimental em três lojas da capital paulista, o programa, por ora, só é exequível uma vez por semana.

Segundo o diretor de Sustentabilidade do Carrefour no Brasil, Paulo Pianez, a expansão do programa está condicionada não só à aceitação do consumidor mas, principalmente, à disponibilidade desses produtos. Isso porque durante anos, o produtor rural foi orientado a não entregar alimentos sem as características determinadas pelo varejo. A imposição rígida dessa cartilha faz com que parte representativa das verduras e legumes nem saia no campo. “O produtor sabe que não tem valor para o varejo e já descarta o alimento, apesar de ser perfeito sob o aspecto nutricional. Isso acabou contribuindo para o desperdício. Agora temos de (re)orientá-lo”, admite.

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Transformar laranjas manchadas em suco e legumes batidos em sopa, vender bananas por unidade, reembalar dentes de alho soltos pelo manuseio e outras coisas do gênero são medidas também em curso, mas um grande desafio contra o desperdício continua sendo convencer o consumidor a se encantar pelo alimento “feio”.

“Esses produtos enfrentam uma barreira cultural grande”, diz Daniela Leite, advogada que se tornou ativista contra o desperdício e lançou em dezembro um aplicativo para doação de alimentos. A tecnologia conecta doadores – restaurantes, empórios, bares e pequenos mercados – e receptores pode ajudar a mudar o quadro do desperdício no País.

Chamado “Comida Invisível”, o aplicativo funciona por geolocalização, mostrando quem está doando o quê nas redondezas – e o “match” é feito, razão pela qual o aplicativo é chamado extraoficialmente de “Tinder dos alimentos”.

“Nós não fazemos a coleta. Atuamos para facilitar as transações”, diz Daniela Leite, sócia-fundadora e idealizadora do Comida Invisível, junto com Sérgio Ignacio.

Pelo celular, as entidades beneficiadas podem saber o volume exato do que está sendo doado, a validade e até características do produto. Duas caixas de tomates, por exemplo, podem vir com a informação adicional “no ponto para molho” ou “para fazer amanhã”.

“O Comida Invisível ajudará não apenas a diminuir o desperdício, mas a pensar mais nele – o que efetivamente faz mudar”, diz a chef Roberta Sudbrack, uma das entusiastas do app.

Pesquisa realizada a pedido de sua ONG, o Comida Invisível, mostra que pouco mais de 40% dos entrevistados associa o feio a algo estragado ou impróprio para venda. Ao mesmo tempo, 78% mostram disposição a mudar hábitos e curiosidade em entender para onde vai o encalhe do supermercado.

Fonte: Valor Econômico

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