14 jun, 2019
por Daniel Geraldes
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Bartolomeu Braz Pereira – Presidente APROSOJA

O mercado da sojicultura e as perspectivas para 2019

 A cultura que ocupa apenas 3.5% de todo o território nacional e é o principal produto brasileiro para exportação e movimenta anualmente mais de 70 bilhões de dólares.

Utilizada há mais de 5 mil anos na alimentação humana, sendo também a base de alimentação de rebanhos e aves, presente no óleo de cozinha, doces, sucos, na ração que alimenta os animais de estimação e em muitos outros produtos, como cosméticos, colchões, tintas e até pneus, o principal produto brasileiro para exportação, a soja, tem um importante papel na economia brasileira, movimentando mais de 70 bilhões de dólares por ano, gerando cerca de 15 milhões de empregos, tendo mais de 240 mil agricultores que vivem da sua produção.

O atual cenário para os produtores brasileiros é positivo, embora em meio às incertezas como em relação à guerra comercial entre Estados Unidos e China e a febre suína africana na China, com chances de impacto negativo nas compras de soja. Nos EUA, há soja a céu aberto, algo inédito, e por aqui as lavouras estão bem estabelecidas, porém, com algumas regiões já sentindo reflexos da falta de chuvas, como no Paraná.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apresentou em dezembro de 2018 o 3º Boletim de Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos, com informações sobre a expectativa de produção de soja. Na safra de 2018/19 devem ser colhidas por volta de 120 milhões de toneladas, que serão produzidas em 35,790 milhões de hectares. Uma produtividade média de 3.354 quilos por hectares (3,3 toneladas por hectare). A efeito de comparação, a produtividade média norte-americana, principal concorrente do país, está em 3.348 quilos por hectares.

Representando a cadeia produtiva da sojicultura, a APROSOJA – Associação Brasileira dos Produtores de Soja, criada no ano de 1990, tem atualmente associados em 16 estados, representando praticamente 100% da área plantada no país. Em parceria com outras entidades, a associação dá apoio técnico a deputados e senadores da frente parlamentar da agropecuária que defende o setor agrícola no Congresso Nacional. Com a união destes esforços, a pecuária brasileira enfrenta as principais demandas dos produtores como redução da burocracia e dos custos de produção, melhor infraestrutura e mais segurança jurídica para empreendedores e trabalhadores rurais. O presidente da entidade, Bartolomeu Braz Pereira, fala sobre o mercado, as projeções, expectativas para 2019 e destaca o Projeto Soja Brasil.

 

Revista Óleos & Gorduras – Quais são as principais dificuldades para quem trabalha com a cultura da soja, no Brasil?

Bartolomeu Braz Pereira – Temos a insegurança jurídica brasileira provocada pelo Ministério Público, Órgãos do Governo e Poder Judiciário que altera/extrapola as normas que deveriam ser aplicadas no meio urbano para o meio rural.

Outra grande dificuldade é o elevado custo da logística brasileira. O Brasil priorizou as regiões Sul e Sudeste, onde possuem os melhores canais logísticos, porém, atualmente as principais áreas produtoras estão nas regiões Centro-Oeste, no Norte e Nordeste (MATOPIBA – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde as grandes distâncias a serem percorridas para os portos de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul encarecem e elevam os custos de produção.

Tem também as diferenças tributárias entre os estados, devido à ausência de infraestrutura e de corredores logísticos, que ampliam a composição dos tributos nas mercadorias movimentadas.
 

Revista Óleos & Gorduras – Qual é a qualidade da soja produzida no Brasil?

Bartolomeu Braz Pereira – As condições climáticas e as variedades desenvolvidas pela Embrapa fizeram com que a soja brasileira despontasse em produtividade e produção. Porém, nos últimos anos este aumento de produção tem emitido um alerta para a redução dos teores de proteínas na soja. Desde então, a APROSOJA tem buscado no desenvolvimento científico e tecnológico soluções para resolver essa questão. Já sabemos que a fixação biológica de nitrogênio pode ser um dos fatores para a redução dos teores. Assim, temos levantado com os produtores as melhores formas de manejo agrícola, tal como, a inoculação das sementes com bactérias nitrificantes (melhorar a absorção de nitrogênio) e a utilização do micronutriente molibdênio que atua na sobrevivência dessas bactérias.
 

Revista Óleos & Gorduras – Sobre as pesquisas e estudos que são realizados para este setor, o que pode ser dito?

Bartolomeu Braz Pereira – A pesquisa agrícola sempre foi essencial e caminhou na vanguarda do desenvolvimento agropecuário brasileiro. Porém, nos últimos anos tem falhado em responder algumas problemáticas enfrentadas pelos sojicultores, dentre elas, novas fontes e práticas de adubação e correção do solo; manejo alternativo de doenças associado com o controle biológico; novas variedades genéticas de domínio público; material convencional (sem biotecnologia); sucessão de culturas; produção de sementes; entre outras.

A principal empresa pública brasileira do setor agrícola, a Embrapa, precisa voltar a atender e aplicar os recursos financeiros nas necessidades dos produtores.
 

Revista Óleos & Gorduras – Como é trabalhada a questão da sustentabilidade na produção da soja?

Bartolomeu Braz Pereira – A sustentabilidade da soja é trabalhada em três eixos: ambiental, social e econômica.

A sustentabilidade ambiental é alcançada pela regularização ambiental através dos dispositivos apresentados no Código Florestal Brasileiro (APP – Área de Preservação Ambiental e RL – Reserva Legal). Esses dois institutos de preservação fazem do sojicultor brasileiro o maior protetor ambiental. Para cultivar os 35 milhões de hectares de soja, os produtores precisam preservar em diferentes escalas (de acordo com o bioma) pouco mais de 22 milhões de hectares de mata nativa. Por exemplo, no bioma Cerrado, para plantar 17 hectares de soja o produtor precisa preservar aproximadamente 6 hectares de vegetação nativa. No bioma Amazônico, para plantar 1 hectare de soja o produtor precisa preservar na média 4,5 hectares de vegetação nativa. Dessa forma, o novo Código Florestal, na prática, proibiu a expansão da agropecuária no bioma amazônico já que é antieconômico comprar novas áreas, converter 20% do solo para a atividade econômica e manter o restante preservado. Assim, ninguém em sã consciência faria tamanho investimento.

A sustentabilidade ambiental também é obtida com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático – ZARC (instrumento de política agrícola para a gestão de riscos na agricultura. O estudo tem o objetivo de minimizar os riscos relacionados aos fenômenos climáticos adversos e permite a cada município identificar a melhor época de plantio das culturas nos diferentes tipos de solo e ciclos de cultivares.). Há outras normas voltadas à sustentabilidade ambiental, tais como, o uso da água (outorgas); o uso de pesticidas e o manejo integrado de pragas (por exemplo, o uso do controle biológico), entre outras normas e metodologias para a redução dos impactos ambientais que a atividade econômica possa ocasionar.

Já a sustentabilidade social é obtida através da promoção de cursos e materiais técnicos sobre a saúde e segurança no trabalho, da adequação de construções rurais, da melhoria da qualidade de vida dos funcionários e da promoção do desenvolvimento regional onde os polos produtores estão instalados com soja.

Associada à sustentabilidade social temos a sustentabilidade econômica que é alcançada pela manutenção do homem no meio rural, do desenvolvimento econômico da região/município produtor, do incremento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) observado nas regiões. Segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, nos poucos mais de dois mil municípios brasileiros que possuem a soja como principal atividade econômica, a taxa de crescimento foi superior aos demais.
 

Revista Óleos & Gorduras – O que é o Projeto Soja Brasil.

Bartolomeu Braz Pereira – O Projeto Soja Brasil é a maior expedição por lavouras de soja do país e nesta safra (2018/2019) chega à sua 7ª edição. O projeto tem a realização da APROSOJA Brasil e do Canal Rural. A coordenação técnica é realizada pela Embrapa Soja. O apoio institucional é do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). A consultoria é de Safras & Mercado e Somar Meteorologia. O patrocínio é de Ihara e Mitsubishi Motors.

O projeto presta consultoria avançada ao produtor brasileiro que tem acesso a dicas e novas técnicas para obter mais produtividade. Além disso, o Projeto Soja Brasil também investe em capacitação através da carreta do Canal Rural, que viaja pelos polos produtores levando conhecimento e promovendo a troca de experiências entre os agricultores locais.
 

Revista Óleos & Gorduras – Sobre a taxação do agronegócio para sanar contas dos estados, como a APROSOJA se posiciona?

Bartolomeu Braz Pereira – A Aprosoja é totalmente contrária a qualquer sobretaxa imposta aos produtores, que já contam com grandes riscos – que não podem ser controlados, tais como: variações ambientais climáticas, a luminosidade (fotoperíodo diário), umidade relativa, índices pluviométricos, condições anemométricas (ventos), dentre outras intempéries.

Além disso, a soja enquanto commodity, possui sua precificação de acordo com as bolsas de valores e com a oferta e demanda do consumo mundial, valores não definidos pelo produtor.

Sabemos que as contas dos estados foram provocadas por gastos públicos aquém do que poderia arrecadar. E colocar esta “conta” para os produtores pagarem é injusto. O meio rural ainda possui imensos problemas como logística precária, infraestrutura de armazenagem, muitos municípios carecem de cuidados básicos como saúde, saneamento e outras necessidades que deveriam ser fornecidas pelo poder público.

Entendemos que os governos devem adotar medidas para reduzir seus gastos públicos, tais como, as chamadas despesas discricionárias (aluguéis de imóveis, serviços terceirizados, entre outros). Do mesmo modo que não concordamos há uns três anos quando o Governo Federal tentou “recriar” a CPMF para aumentar a arrecadação, não aceitaremos a “criação” de qualquer taxa que onere ainda mais o setor produtivo. Essa dívida foi provocada pelo mau uso dos recursos públicos. Por que devemos taxar o meio rural?
 

Revista Óleos & Gorduras – Sobre a exportação e importação da soja, como o Brasil está posicionado?

Bartolomeu Braz Pereira – O Brasil é o maior exportador de soja em grãos do mundo, seguido dos EUA e Argentina. Na safra 2017/18 fomos o segundo maior produtor de grão, ficando atrás dos EUA, nessa safra 2018/19 devemos ultrapassá-los.

Na produção de óleo de soja o Brasil ocupa a terceira posição. A China é o maior produtor, seguida dos EUA e a Argentina fica em 4º lugar. Na exportação do óleo de soja, o maior exportador é a Argentina, em 2º o Brasil e 3º o EUA.

No farelo de soja o Brasil é o 3º maior produtor. Novamente a China aparece como a maior produtora de farelo, seguida dos EUA, a Argentina fica com a 4ª produção. Já a exportação do farelo a Argentina está em 1º lugar, seguida do Brasil e em 3º os EUA.
 

Revista Óleos & Gorduras – Quais são os principais mercados externos para a soja brasileira?

Bartolomeu Braz Pereira – O principal mercado comprador da soja em grãos nacional é a China, que industrializa a soja, ocupando o 1º lugar no ranking de produtor de óleo e farelo de soja. A soja brasileira processada na China alimenta sua produção de proteína animal.
 

Revista Óleos & Gorduras – Quais as projeções para o setor de soja em 2019?

Bartolomeu Braz Pereira – A guerra comercial entre EUA e China deve continuar favorecendo a exportação da soja brasileira, porém a pergunta que fazemos é: este aumento será até quando?

 

Revista Óleos & Gorduras – Quais os desafios para 2019?

Bartolomeu Braz Pereira – Dentre tantos que precisamos superar, menciono quatro deles:

Redução dos custos de produção, seja pela diminuição dos tributos, seja pela oferta de mais produtos (players) na cadeia da soja

Criação de uma norma geral de licenciamento ambiental, com regras, procedimentos e definições claras sobre as atividades econômicas que devem ser licenciadas.

Novo marco legal para a pesquisa, o registro, a comercialização e o uso dos pesticidas no Brasil. A legislação atual não previu as alterações e transformações ocorrida no sistema legal destes produtos nos outros países.

Tabelamento do frete – exclusão de qualquer tabela mínima de frete que deve ser adotada para o transporte de cargas.
 

Revista Óleos & Gorduras – Quais serão as frentes trabalhadas pela Aprosoja em 2019?

Bartolomeu Braz Pereira – São várias as frentes, dentre elas focaremos nas questões de logística e infraestrutura; tributação; direito de propriedade ambiental; trabalhista; defesa sanitária; biotecnologia e melhoramento genético.

Revista Óleos & Gorduras – Qual é a expectativa da Aprosoja em relação ao Governo Bolsonaro e os reflexos para o agronegócio e para a cultura da soja?

Bartolomeu Braz Pereira – Acreditamos que o novo Governo deve reduzir os gastos públicos, investir na infraestrutura, ampliar os parceiros comerciais do Brasil, investir nas relações bilaterais, deixar o ambiente de negócio mais transparente e dar um maior protagonismo ao Brasil perante o mundo.


LEGENDA

(crédito: Laura de Paula) “A Aprosoja é totalmente contrária a qualquer sobretaxa imposta aos produtores. Não aceitaremos a “criação” de qualquer taxa que onere ainda mais o setor produtivo”, Bartolomeu Braz Pereira.

Por: Lia Freire
Entrevista Exclusiva da Revista Óleos & Gorduras – Edição Jan/Fev 2019

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