16 dez, 2019
por Daniel Geraldes
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Biocombustíveis propulsionam a demanda enquanto proteínas são exportadas          

Por Kent Swisher
Vice-Presidente National Renderers Association

Os dois maiores eventos mundiais de 2018 foram o compromisso das duas Coreias de terminar formalmente a Guerra da Coreia e o encontro de cúpula entre o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o Líder Supremo da Coreia do Norte, Kim Jongun, o primeiro encontro entre líderes destes países. Em demonstração de unidade os atletas olímpicos das Coreias marcharam sob a mesma bandeira nas Olimpíadas de Inverno em Seul, Coreia dos Sul.  Em 2018 houve vários outros eventos dignos de nota. Em Cuba, Miguel Diaz-Canel Bermudez tomou posse como Presidente, pondo fim ao mandato de 59 anos de Fidel Castro. No Oriente Médio houve a primeira eleição para o parlamento no Iraque e o ISIS foi praticamente expulso da Síria. Em maio, milhões de pessoas assistiram pela televisão o casamento real do Príncipe Harry e Meghan Marple no castelo de Windsor.

Nos Estados Unidos a renda media doméstica atingiu um terceiro recorde consecutivo de alta  em 2018 e a taxa de desemprego atingiu 3,7%, o nível mais baixo em mais de 50 anos.  Na última primavera Trump emitiu inúmeras proclamações ajustando importações de aço  e alumínio para os Estados Unidos sob a seção 232 da Lei de Expansão do Comércio de 1962.  Estes ajustes incluíram impostos e quotas de importação, causando uma guerra comercial à medida que parceiros comerciais dos Estados Unidos reagiram com tarifas retaliatórias.  Em 6 de julho, a China impôs uma tarifa de 25% sobre a soja americana, levando a queda de preço de 20% e as farinhas de proteína de origem animal seguiram a queda.  Os produtos processados foram poupados de tarifas diretas até setembro quando a China promulgou uma tarifa retaliatória de 5% sobre farinhas de proteína animal dos Estados Unidos.

Em agosto de 2017, começaram as renegociações do Acordo de Livre Comércio da América do Norte. A associação Nacional de Processadores representou os interesses da indústria de processamento, testemunhando perante um painel da Comissão de Comércio Internacional , respondendo a notas do Registro Federal, realizando encontros pessoais com o escritório de Representação do  Comércio dos Estados Unidos e dando apoio às coalizões de agricultura em Washington, D.C.  A mensagem chave foi “não prejudicar” o comércio atual.  Em  30 de novembro de 2018, um novo acordo comercial, o Acordo Estados Unidos-México- Canadá foi assinado pelos líderes e deve ser ratificado pela legislatura de cada país. O acordo entraria em vigor em 2020.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) calculou que o crescimento econômico mundial em 2018 seria o mesmo de 2017, 3,7%. Uma desaceleração no fim de 2018, ao lado das guerras comerciais, levou o F MI a prever um declínio do crescimento global chegando a 3,5% em 2019.

Desenvolvimentos Domésticos
Mais Gordura, Menos Proteína

Em 2018 o abate de gado nos Estados Unidos foi de 33 milhões de cabeças, 2,5% mais que em 2017, mostrando uma forte recuperação do ciclo de gado que começou em 2016 e foi o maior abate desde 2011.  O peso vivo médio anual aumentou de 611,9 kg em 2017 para 612,3 kg em 2018. As indústrias de suínos e aves continuaram acrescer também, com o abate de 124,4 milhões de cabeças de suínos, 2,6% mais que em 2017.  O peso vivo médio anual no abate cresceu ligeiramente de 127,9 kg em 2017 para 128,3 kg no ano passado. A produção de frangos e aves maduras aumentou 1,2% em 2018, com o total de quase 9,16 bilhões de aves abatidas e o peso vivo aumentou de 2,81 para 2,83 kg, continuando a tendência crescente de abate de aves mais pesadas.  O abate de perus diminuiu 2% de 241,7 milhões de aves em 2017 para 236,9 milhões no ano passado, ainda que o peso vivo médio anual por ave tenha aumentado de 14 kg em 2017 para cerca de 14,1 kg em 2018.

Dados de produção e consumo de produtos processados da indústria de processamento eram historicamente reportados no relatório do Departamento de Censo dos Estados Unidos M311K – Gorduras e Óleos: Produção, Consumo e Estoques. Este relatório foi suspenso em julho de 2011 devido a cortes do governo; entretanto, em maio de 2015, os estatísticos do Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas  (National Agricultural Statistics Service -NASS) emitiu os resultados de sua primeira pesquisa sobre a produção de produtos processados.  Em 2016, NASS publicou seu  primeiros dados sobre todo o ano desde 2016 até 2018 na tabela 2 do NASS –Óleos e Gorduras : Trituração, Produção e Consumo de Oleaginosas e Resumo Anual de Estoques que é liberado em março. Os dados de 2013-2015 na tabela 2 são derivados usando os dados mensais do NASS como base para a produção histórica por meio da relação entre dados de produtos processados e abate.

A produção de graxa amarela em 2016 é um dado do NASS , mas antes de 2016 era calculada entre os números de produção no relatório de  2010 chamado  Um Perfil  da Indústria de Processamento dos Estados Unidos do Informa Economics e o consumo de óleo de cozinha reportado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) . Infelizmente, a publicação do NASS não inclui consumo, assim dados sobre o uso de gorduras animais na produção de biodiesel/combustível renovável na tabela 2 é compilado do Relatório Mensal de Produção de Biodiesel da Agência de Informações sobre Energia (EIA). Outros dados sobre consumo foram derivados pela subtração de estimativas de produção de estimativas de exportação e uso de biocombustíveis.

Em 2018, a produção de produtos processados foi 10,2 milhões de toneladas métricas, 2% menos que em 2017. Isto contrasta com o aumento de abate de gado, suínos e aves.  A diminuição desta produção poderia ser parcialmente explicada por outros usos da matéria prima, como alimentos frescos para pets, miudezas comestíveis, ao lado da diminuição de abate de perus.

O total de gorduras animais produzidas no ano passado foi 5,7 milhões de toneladas métricas, um pouco mais do que em 2017, e a produção de sebo aumentou 3% em relação ao ano anterior chegando a quase 2,7 milhões de toneladas métricas. O aumento foi baseado pelo crescimento da produção de sebo comestível e técnico – sebo técnico  aumentou 8.6% em comparação com 2017 e o sebo comestível aumentou 9% no mesmo período.  A produção de sebo não comestível caiu menos de um décimo de 1% para mais de 1,6 milhões de toneladas métricas em 2018. Ainda que o abate de suínos tenha aumentado em 2018, a produção de graxa branca diminui 1,8% para 737.000 toneladas métricas, banha diminuiu 5,6% para 149.400 toneladas métricas e graxa branca de escolha caiu menos de 1% para 587.400 toneladas métricas de 2017.  A produção de graxa amarela/óleo de cozinha usado foi mais de 990.000 toneladas métricas, 8,5% mais do que em 2017. Outras graxas diminuíram 22%  com 285.300 toneladas métricas em 2018.

A produção de proteína animal  em  2018 foi  4,5 milhões de toneladas métricas, 5,5% menos que em 2017, com a produção de farinha de carne e ossos de 2,6 milhões de toneladas métricas,  uma diminuição de 4,8%, farinha de subprodutos de aves diminuiu 4,9% com pouco mais de 1,3 milhões de toneladas métricas e a produção de farinha de penas teve uma diminuição significativa de 11% com 464,300 toneladas métricas.

Ainda que importações de produtos processados não sejam  incomuns devido ao comércio intra América do Norte ao lado da importação de farinha de ovinos para a produção de alimentos para pets, recentes aumentos de gorduras e graxas animais são devidos à demanda por biodiesel e diesel renovável nos Estados Unidos. Em 2018, 238.700 milhões de toneladas métricas de gorduras foram importadas, aumento de quase 43% em relação a 2017.

Nos últimos cinco anos as importações de gorduras animais e óleo de cozinha usado cresceram 133%.  Importações de farinha de proteína animal atingiram 108.900 toneladas métricas em 2018, 30% a mais do que em 2017 e quase 50% a mais do que nos últimos 5 anos.  Mais de 70% da farinha de proteína animal importada foi farinha de ovinos da Austrália e da Nova Zelândia, usada como alimento para pets nos Estados Unidos.  Além disto, 13% das importações foram de países da União Europeia, 8% do Canadá e 4% do Brasil.  Os Estados Unidos também importara, 420.000 toneladas métricas de farinha de penas em 2018, 35% menos que em 2017.

A Demanda por Gorduras Continua Crescendo, Proteínas Diminuem

Conforme mencionado anteriormente neste artigo, NASS não inclui consumo doméstico em seu levantamento mensal assim os dados da tabela 2 são derivados somando produção com importação e subtraindo dados de biodiesel e diesel renovável conforme relato do Global Trade Atlas.

A despeito do consume doméstico de produtos processados ter sido estável nos últimos 5 anos, com aumento médio de 1%, o consumo em 2018 foi 1,3% menor em 2018 , chegando a quase 8,5 milhões de toneladas métricas.  No ano passado, o total de gorduras animais usadas na produção de biodiesel/diesel renovável foi 1,4 milhões de toneladas métricas, 19% a mais que em 2017; entretanto, duas “outras” categorias não estavam disponíveis em 2017.

Se o uso de gorduras animais for ajustado para aquelas duas outras categorias, que respondem por cerca de 100.200 toneladas métricas, o aumento foi de 10,5% em relação a 2017.  Ao mesmo tempo, outros usos domésticos de gorduras animais e óleo de cozinha usado aumentaram 1,6% em 2018, atingindo cerca de 2,2,milhões de toneladas métricas.  Nos últimos 5 anos, o uso doméstico de gorduras e graxas animais aumentou 8%.

A demanda crescente por gorduras animais e óleo de cozinha usado para diesel e diesel renovável é propulsionada pela Norma para Combustíveis de Baixo Teor de Carbono da Califórnia . Sob esta norma estes produtos são preferidos devido a seus escores baixos de intensidade de carbono (IC) em comparação a outras matérias primas. Óleo de cozinha usado tem os menores escores de IC , seguido por óleo de milho , gorduras animais e finalmente óleos vegetais.  Para atingir os mandatos do Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia para IC a produção de biodiesel deve aumentar 150% e a produção de diesel renovável, 230% até 2030.

O consumo doméstico de proteína animal foi uma história diferente em 2018.  O uso de farinha foi menos de 3,5 milhões de toneladas métricas, quase 9% menos que em 2017. Nos últimos 5 anos o consumo doméstico diminuiu 8% e a produção continuou praticamente igual. Conforme relatado no ano passado, a queda de consumo doméstico foi devida principalmente à tendência de dieta totalmente vegetariana da indústria de frangos de corte. Calcula-se que entre 25 e 30% das operações com frangos de corte nos Estados Unidos usem agora dietas totalmente vegetariana, assim o cenário oferta/demanda de farinhas de proteína nos Estados Unidos está criticamente desbalanceado e mostra necessidade do crescimento de novos mercados para farinhas de proteína animal.

O total de produtos processados exportados em 2018 foi de quase 1,9 milhões de toneladas métricas, 10% a mais que em 2017  e 16% a mais que nos últimos 5 anos.  Destes, 1 milhão de toneladas métricas foram farinhas de proteína e 834.000 toneladas métricas , gorduras. Este crescimento de exportações foi devido a um aumento dramático de farinhas de proteína ainda que acompanhado por diminuição na exportação de gorduras.  Nos últimos 5 anos, exportações de farinha de proteína cresceram 36% e as de gordura diminuíram 3%.

Perspectiva Parece Boa – para Gorduras  

A medida que o ciclo de gado se recupera e a produção de aves e suínos continua a crescer haverá uma maior oferta de produtos processados no mercado. De acordo com  o relatório  Projeções para Agricultura para 2028 do USDA, a previsão é de crescimento de 10% da produção de carne e aves e 15% da produção de suínos nos próximos 10 anos. Usando estas previsões, a produção de proteína e gordura animal pode ser estimada (gráfico 1). Nos próximos 10 anos  é projetado um aumento de 937.000 toneladas métricas de farinhas de proteína animal e de 902.00 toneladas métricas de gordura animal .

A demanda doméstica por farinhas de proteína animal continuará a ser influenciada pela tendência a dietas totalmente vegetarianas. Se isto não mudar, a demanda doméstica por farinhas de proteína animal e gorduras para rações de animais ou se estabilizará ou continuará a declinar, assim a necessidade de novos mercados para farinhas de proteína animal será critica.

Conforme afirmação anterior, a demanda por gorduras animais e óleo de cozinha usado pela indústria de biodiesel e de diesel renovável deve crescer nos próximos anos. Por exemplo, Diamond Green Diesel quase dobrou a produção em 2018 em sua planta de diesel renovável em Louisiana de 150 milhões de galões para 275 milhões de galões, com planos de expansão para atingir 550 milhões de galões, aumentando sua necessidade de matéria prima para mais de 2 milhões de toneladas métricas. Assim, a projeção de 10 anos com aumento de produção de gorduras de animais será compensada pelo aumento da demanda dos setores de diesel renovável e biodiesel. Este aumento projetado da produção de farinhas de proteína animal deve ser compensado pela expansão dos mercados existentes e a busca de novos mercados  para estes produtos.

Condições do Mercado Internacional – Proteína Encontra Lugar nas Exportações

A demanda mundial por farinhas de proteína continuou a crescer dramaticamente em 2018, originada dos setores de rações para pecuária, rações aquáticas e alimentos para pets.  De acordo com a Pesquisa Global sobre Rações da Alltech/2019 , a produção mundial de rações atingiu um novo recorde em 2018 com um aumento de 3%, atingindo mais de 1,1 bilhão de toneladas métricas   O maior produtor de rações no mundo é China, seguida por Estados e Brasil.  China é também o maior importador de ingredientes para rações do mundo. Em 2018, China produziu 187,9 milhões de toneladas métricas de rações, 0,5% a mais que em 2017.

O total das exportações de farinhas de carne e ossos/de aves/porcina aumentou 4,9% em 2018 em comparação com o ano anterior. Nos últimos 5 anos as exportações desta categoria aumentaram 60% e estão chegando a 1 milhão de toneladas métricas. A expansão global de rações de aves, aquáticas e para pets lideraram o pico da demanda.  À medida que a produção de farinha de peixes diminui, as farinhas de proteína de animais terrestres se tornam essenciais para dietas que exigem proteína animal. Indonésia foi o maior importador de farinhas de proteína animal dos Estados Unidos em 2018, com 347.000 toneladas métricas, um declino de 5% em relação a 2017. China importou 199.000 toneladas métricas de farinhas de proteína de animais não ruminantes em 2018, 21 % a mais que em 2017 e 265% a mais que nos últimos 5 anos.  A exportação de farinhas de ração de não ruminantes para o México caiu 13% em comparação a 2017, com 112.400 toneladas métricas.

Recuperação de Exportações de Gordura

O total de exportações de gordura foi  834.100 toneladas métricas em 2018, 13% a mais que em 2017. As exportações de todas as gorduras processadas atingiu um recorde de baixa com 697.000 toneladas métricas em 2015, mas desde então vem se recuperando principalmente devido à demanda por biodiesel e diesel renovável no exterior. Em 2018, as exportações de óleo de cozinha usado para a Europa para uso em biocombustível foram de 169.000 toneladas métricas, 15% de aumento nos últimos 5 anos.

Mais ainda, as exportações de graxa amarela para Singapura para produção de combustível renovável em 2018 atingiram 70.000 toneladas métricas, em comparação a 8.000 toneladas métricas em 2017. Finalmente, as exportações de sebo para Singapura, ainda que menores, foram mais 88.000 toneladas métricas. Exportações de sebo não comestível para mercados tradicionais cresceram em 2018.  México, o maior importador, aumentou quase 8% no ano passado, atingindo 135.000 toneladas métricas. Exportações de sebo para mercados tradicionais para produção de sabonetes como Marrocos, Turquia e Nigéria cresceram respectivamente 13, 56 e 39%.

Perspectivas

A produção americana de produtos processados continuará a crescer com o aumento da  produção pecuária (gráfico 1). Nos próximos 10 anos, mais de 937.00 toneladas métricas de farinhas de proteína animal e 902.000 toneladas métricas de gorduras animais devem ser agregadas à cadeia de suprimento.

Conforme mencionado anteriormente, a demanda global por gordura como matéria prima de biodiesel e diesel renovável continuará crescer e compensar o suprimento agregado. Entretanto, será necessária demanda internacional adicional para consumir o aumento de oferta de farinhas de proteína animal devido à tendência de dieta totalmente vegetariana para aves.

Mais ainda, o mercado mundial de farinha de proteína está inundado por uma super oferta de farinha de soja, com os estoques de passagem e as relações de estoque para uso atingindo altas recorde.  Além disto, a guerra comercial com a China reduziu os preços de farinhas de proteína americana e distorceu o mercado mundial. A chave para as farinhas de proteína animal será trabalhar para encontrar um nicho de mercado que precise destes produtos, como as indústrias de aquicultura e alimentos para pets.

Fonte: PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – ED. JUL/AGO 2019. PROIBIDO PUBLICAÇÃO TOTAL OU PARCIAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO.

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