11 maio, 2021
por Daniel Geraldes
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Co-produtos da destilaria de milho na alimentação de suínos: o negócio que chegou para ficar

“Co-produtos da destilaria de milho na alimentação de suínos: o negócio que chegou para ficar”

MSc. Vinicius Ricardo Cambito de Paula
Zootecnista
Consultor Técnico Aves e Suínos da Biochem Brasil Nutrição Animal

Dentre as principais matérias primas utilizadas na produção de etanol, os cereais como trigo, sorgo, cevada e principalmente o milho são destacados, sendo o milho a principal matéria prima para essa finalidade em alguns países como os Estados Unidos. Mesmo o Brasil ocupando a terceira colocação no ranking mundial na produção de milho, o etanol é produzido comumente da cana de açúcar. Entretanto, investimentos bilionários e incentivos governamentais para aumentar a produção de etanol em território nacional, vêm alterando essa realidade. De acordo com a Agência Internacional de Energia (2019), o Brasil é o país em que há a maior projeção de crescimento na produção de etanol para os próximos cinco anos, entre os cinco maiores produtores de biocombustíveis no mundo.

O processo de produção de etanol a partir do milho envolve diferentes etapas. Desde a moagem, podendo ser via seca ou úmida, o fracionamento a que o milho é submetido, com possível separação da casca, e consequentemente, diminuição da porção fibrosa, a fermentação enzimática, destilação, e diferentes processamentos sobre a porção restante após a obtenção de etanol, podem gerar diferentes co-produtos de alta qualidade, que podem ser empregados em outras áreas, como na produção de biodiesel, aplicações industriais (produção de bioplástico), na saúde humana (alimentos nutracêuticos), e em especial na alimentação animal.

A depender do processamento que a usina adota para produção de etanol, uma ampla variedade de co-produtos pode ser gerada, como o farelo de glúten de milho, óleo bruto de milho, farelo de milho com solúveis, os condensados de destilaria com solúveis (CDS – condensed distillers with solubles), grãos úmidos de destilaria com solúveis (WDG – wet distillers grains), ou os grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS – dried distillers grains with solubles). Esse último, em especial, tem ganhado a atenção de nutricionistas de suínos devido sua interessante composição bromatológica, para ser empregado como ingrediente fonte de energia e proteína na matriz nutricional dos animais.

Devido o amido ser convertido em álcool no processo de fermentação, os nutrientes no co-produto DDGS produzido nesses processos são encontrados em maiores concentrações (quase três vezes maior), quando comparados ao grão de milho inteiro. A composição do DDGS pode variar de acordo com a fonte utilizada para produção de etanol, e com os processamentos supracitados a que o material é submetido. De forma geral, o DDGS pode conter aproximadamente 27% de proteína bruta, 9% de fibra em detergente ácido, 25% de fibra em detergente neutro e apresenta maior concentração de fósforo (0,57 a 0,85%) que os grãos convencionais, e que, geralmente, está mais biodisponível. Análises de mais de 4800 amostras de DDGS apresentaram valor médio de extrato etéreo de 12%, com variação de 9,4 a 15,7%. Além disso, o DDGS contém pouca quantidade de vitaminas (com exceção da colina) e 0,6 a 1,1% de lisina.

Embora seja um ingrediente promissor, algumas características do DDGS geram argumentações para seu uso contínuo e de forma efetiva como ingrediente nas rações de suínos. Como é o caso da variação química encontrada em diferentes fontes de DDGS, que ainda é considerada um gargalo para sua maior aceitação como ingrediente nas dietas dos animais. Isso pode ocorrer em decorrência da falta de esclarecimentos dos processamentos adotados para obtenção do DDGS nas usinas. Entretanto, diversos estudos mundo a fora vêm sendo conduzidos com o objetivo de determinar os valores nutricionais desses ingredientes, com seus respectivos coeficientes de digestibilidade, para uma formulação de ração mais precisa.

Outro fator de importância a ser considerado sobre a composição química do DDGS, além do balanço de aminoacidos, é a quantidade de fibra encontrada no co-produto, que pode limitar seu uso em dietas de suínos em determinadas fases, como por exemplo para leitões. Uma vez que a porção fibrosa dos alimentos pode apresentar menor digestibilidade em relação as demais, o coeficiente de digestibilidade de várias frações dos alimentos é dependente da proporção e composição da fibra, o que influencia a ingestão de ração e o balanço energético do animal, uma vez que a capacidade digestiva dessa fração por animais mais jovens é menor. Diversos estudos avaliando o uso de DDGS como ingrediente nas dietas de leitões, relatam que a  inclusão do co-produto na fase de creche, nos níveis de 15 a 25%, não comprometem o desempenho dos animais, comparado à animais que consomem dieta a base de milho e farelo de soja. Para animais mais velhos como em fases de crescimento e terminação, ou em outras categorias, como porcas, alguns estudos mostram que esses níveis de inclusão podem chegar a 40%, sem prejuízos ao desempenho.

De qualquer forma, algumas estratégias têm sido utilizadas para melhorar a eficiência do animal em aproveitar nutrientes desses co-produtos, dentre elas, a utilização de enzimas exógenas tem apresentado alguns resultados interessantes na melhora da digestibilidade e no desempenho. Um estudo avaliando a inclusão de 30% de DDGS em dietas para leitões, com adição de um complexo enzimático de carboidrases (beta-glucanase, alfa-galactosidade, galactomanase e xilanase), constatou melhora no ganho de peso dos animais quando comparados a um grupo controle que consumiu a mesma dieta sem adição das enzimas. Do mesmo modo, a digestibilidade da proteína bruta e o ganho de peso de suínos em fase de crescimento e terminação, alimentados com dietas contendo 15% de DDGS com adição de enzimas beta-manases, foi superior em relação a animais de um grupo controle. Entretanto, o uso desses aditivos depende de uma compreensão mais abrangente da diversidade e concentração dos componentes químicos de ingredientes de origem vegetal em relação à atividade enzimática e microbiota gastrointestinal.

O aumento do conteúdo e a composição das fibras em dietas fornecidas para suínos em terminação, também pode levar a um aumento no preenchimento e na massa intestinal, podendo causar alterações no rendimento e outras características de carcaça. Um estudo avaliando níveis crescentes (0 a 45%) de DDGS de milho em dietas de suínos nas fases de crescimento e terminação até o abate, constatou diminuição linear na espessura de toucinho, aumento de ácidos graxos insaturados, sem alteração na área de olho de lombo, com o aumento dos níveis de DDGS nas dietas. Concomitantemente, pesquisadores avaliando a inclusão de 20% de DDGS de milho alta proteína em dietas de suínos também em fase de crescimento e terminação, não observaram alterações nas características de carcaça, com exceção da diminuição na profundidade de lombo quando o co-produto foi adicionado.

Visando contribuir para o entendimento da utilização desses co-produtos em dietas de suínos em fases de crescimento e terminação, um estudo a nível de pós-graduação vem sendo conduzido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, pertecente à Universidade de São Paulo, em que objetiva-se determinar a composição química e o valor nutricional de co-produtos da destilaria de milho produzidos no Brasil, e compara-los com co-produtos semelhantes produzidos nos Estados Unidos, onde a produção e utilização desses ingredientes é mais bem estabelecida. Além disso, o estudo também avalia o uso de aditivos melhoradores de digestibilidade em dietas com DDG para suínos, sobre parâmetros de desempenho, digestibilidade e parâmetros de carcaça. Pesquisas nessa área têm grande relevância, haja vista o potencial do ingrediente em questão, a necessidade de maior compreensão sobre o co-produto, para geração de informações consistentes para formulações de rações mais adequadas.

Tendo em vista as interessantes características que os co-produtos da destilaria de milho possuem, o aumento da disponibilidade esperado para os próximos anos, bem como o preço competitivo desses ingredientes, a utilização de co-produtos da destilaria de milho como ingredientes em rações de suínos no Brasil promissora. Por fim, para uma maior eficiência no uso desses ingredientes, algumas premissas básicas devem ser estabelecidas, como a metodização durante o processo de produção de etanol, de forma a gerar um co-produto mais padronizado, a determinação constante da composição química para atualização da matriz nutricional para os formuladores, a avaliação de fatores antinutricionais, a inclusão de aditivos, como melhoradores de digestibilidade, para formular rações balanceadas, o respeito aos limites de inclusão pré-estabelecidos em estudos, e a viabilidade econômica quando os mesmos são incluídos nas dietas.

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA INGREDIENTES & NUTRIENTES NUTRIÇÃO ANIMAL.
PROIBIDO A REPORDUÇÃO TOTAL OU PARCIAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO.

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