9 ago, 2019
por Daniel Geraldes
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“Alimento: Reinventar? Por quê? Como?”

“Alimento: Reinventar? Por quê? Como?”

Atualmente presenciamos várias situações e discussões de técnicos, tutores, cientistas, oportunistas, empresários e entre outros, referindo-se à alimentos ideais para PETs e para composição de dietas naturais e industriais.

Dentro desta premissa temos o papel de, por um lado, produzir alimentos e, de outro, escolher como cada espécie pode participar e contribuir na cadeia alimentar sustentável. Para isto, devemos reinventar todos os dias os alimentos e/ou seus processos industriais ou naturais de beneficiamento e conservação.

Reinventar, por quê?

Estima-se que a população global chegou a 7,7 bilhões em abril de 2019 e que atingirá 9,8 bilhões em 2050. Já as Nações Unidas estimam que a população humana chegue à 11,2 bilhões em 2100 (30% a mais do que na atualidade).

“Um relatório apresentado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e Programa Mundial de Alimentos (PMA) concluiu que cerca de 113 milhões de pessoas em 53 países tiveram insegurança alimentar aguda em 2018, na comparação com 124 milhões em 2017.”

A insegurança alimentar aguda ocorre quando a incapacidade de uma pessoa de consumir alimentos adequados coloca em perigo imediato sua vida ou seus meios de subsistência.

“O relatório mundial mostra claramente que, apesar de uma ligeira diminuição em 2018 do número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar aguda — a forma mais extrema de fome —, a cifra continua sendo muito elevada. Devemos atuar em grande escala, vinculando o desenvolvimento humanitário e paz para aumentar a resiliência das populações vulneráveis afetadas. Para salvar vidas, temos também que proteger os meios de subsistência”, disse o diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva.

Tenho uma opinião que, com certeza não é um consenso no nosso mercado, acredito que os animais de estimação não deveriam ter acesso aos alimentos que tragam competição direta com os seres humanos, enquanto for vigente esta disparidade alimentar no mundo. Para tanto, temos protocolos e métodos de avaliação dos alimentos que, se usados corretamente nas pesquisas e aplicados na indústria ou em dietas individualizadas, poderiam levar ao alimento ideal específico e sem competir com seres humanos.

Busquei um grande amigo, Professor do Departamento de Zootecnia na escola de veterinária da UFMG, Zootecnista, PhD, Walter Motta Ferreira, que com o objetivo de conceituar com mais clareza e sabedoria, nos cedeu trechos do trabalho “Metodologias Para Avaliação de Alimentos – Comparação entre Animais de Produção e de Estimação”.

”Os padrões ou normas de alimentação animal possuem dois componentes de fundamentação estratégica que devem ser estabelecidos simultaneamente e expressos nas mesmas unidades de medida: a informação correta do valor nutricional dos alimentos e as estimativas das exigências dos animais.

Segundo Vasconcellos (2004), dados mais precisos sobre as necessidades nutricionais de cães, gatos e outros animais de estimação nos diferentes estágios fisiológicos podem levar a um aumento no conhecimento acerca da nutrição destes animais, notadamente no que se refere a biodisponibilidade, às interações e ao papel dos diferentes nutrientes na prevenção de doenças, uma vez que para tais espécies um status nutricional que garanta uma vida saudável e longeva é parâmetro de referência de qualidade.

Para a nutrição animal, todos os nutrientes são importantes, mesmo que sejam exigidos em pequenas quantidades. Entretanto, o valor energético e o conteúdo de proteínas – principalmente o equilíbrio em relação aos aminoácidos essenciais – têm ganhando grande enfoque na avaliação dos alimentos, pois são os componentes mais importantes das dietas em termos quantitativos e na representação de custos (Bickel, 1988). É importante ressaltar que o valor nutricional da dieta é melhor determinado pelo seu conteúdo em nutrientes digestíveis, ou mesmo disponíveis, não se resumindo, simplesmente, na sua composição química.

A avaliação química e biológica é um dos aspectos mais importantes para a caracterização dos alimentos. As análises químicas fornecem informações básicas relacionadas aos conteúdos em princípios nutritivos e nutrientes.

Algumas tecnologias de vanguarda subsidiam sobremaneira estimativas mais acuradas nas caracterizações de composição química dos alimentos. Uma dessas tecnologias é o espectrômetro NIR (“Near Infrared Reflectance”) que é um equipamento de alta precisão que efetua análises de alimentos e outras amostras orgânicas (e algumas inorgânicas) através do princípio de emissão de radiação eletromagnética. A energia radiante do infravermelho (IV) é empregada para caracterizar substâncias orgânicas. O espectrômetro NIR se baseia na aplicação da matemática à química analítica (quimiometria). A técnica é uma integração da espectroscopia, estatística e computação de dados.

Até o momento nenhum sistema é capaz de prever o valor energético verdadeiro de uma dieta ou alimento, e subseqüentemente sua efetiva contribuição para o desempenho animal. Os valores energéticos disponíveis em tabelas ou previstos por equações de predição, utilizando-se ou não de procedimentos analíticos prévios se constituem em parâmetros razoáveis para as indústrias de rações, que exigem métodos rápidos, baratos e precisos para determinar o valor nutricional das rações e alimentos, enquanto os ensaios in vivo são mais acurados e se prestam mais aos interesses científicos. Entretanto, é crucial compreender que os valores encontrados em tabelas, mormente publicações que assumem padrões entendidos como internacionais foram confeccionadas a partir de resultados experimentais, muitas vezes desenvolvidos em condições de meio e de animais totalmente divergentes daquelas em que o alimento estará sendo usado nas dietas. Ainda assim, alimentos designados sob uma mesma denominação podem possuir composições químicas diferentes. Os dados de tabelas devem ser manipulados com muito cuidado e senso de observação crítica do nutricionista, pois, invariavelmente podem não se prestar para representar com fidelidade o parâmetro em foco.

Importantes variações também são observadas na condução dos experimentos de avaliação nutritiva dos alimentos, podendo levar a diferenças significativas nos resultados do real valor nutritivo dos alimentos, mas que, na grande maioria das vezes, são ignoradas por técnicos e pesquisadores quando tomados como referência para formulação de dietas ou em comparações nos momentos de discussão em novas publicações.

A digestibilidade e a disponibilidade podem definir razoavelmente o valor potencial da proteína dos alimentos (Fuller & Wang, 1990) e mesmo que os dois termos estejam relacionados e tenham significados diferentes, é freqüente achar estudos onde são utilizados como sinônimos, o que, de acordo com Batterham (1992), é explicado pela crença de que se um nutriente é digerido, está na forma disponível para ser usado. Sibbald (1987) esclareceu perfeitamente a relação entre os dois termos ao assinalar que a absorção dos nutrientes no trato digestivo é pré-requisito para a sua utilização, mas não demonstra que esteja disponível. Alguns aminoácidos presentes, por exemplo, nas proteínas danificadas pelo calor podem ser absorvidos e excretados na urina, o que, em consequência, indicaria que não se encontraram disponíveis para serem utilizados no metabolismo animal. O mesmo autor considerou, por outro lado, que a utilização de um nutriente que foi absorvido no trato é evidência da sua disponibilidade, porém, a sua excreção não prova a perda da mesma.

Rérat (1990) definiu a digestibilidade como uma medida do desaparecimento da proteína e dos aminoácidos durante sua passagem pelo sistema digestivo, e não sob a ideia de absorção, como tem sido adotada por muitos investigadores. No entanto, estas fontes de nitrogênio podem ser destruídas ou modificadas por microorganismos entéricos e serem metabolizadas pelas células da mucosa gastrointestinal. A absorção refere-se aos intercâmbios que acontecem entre o sangue e o lume digestivo, os quais são medidos de maneira simultânea pela diferença entre as concentrações dos nutrientes no sangue portal e arterial e o fluxo de sangue na veia porta (Rérat, 1990). Já a disponibilidade metabólica pode ser definida, segundo Batterham (1992), como a proporção daquele aminoácido limitante da dieta que foi digerido, absorvido e utilizado para a síntese de proteína.

As diferenças conceituais entre estes termos se traduzem na necessidade de não só analisar algumas das metodologias e técnicas existentes para a aferição correta do desaparecimento, absorção e disponibilidade da proteína e dos aminoácidos, como também na exigência em se conhecer as características das associações entre a digestibilidade e a disponibilidade metabólica destes nutrientes”.

As avaliações IN VIVO e IN VITRO são também propostas deste modelo de investigação que busca alimentos e dietas mais direcionadas e sustentáveis. Estes, são métodos mais onerosos e demorados, portanto, não são práticas que vivemos com frequência nas fábricas de ração pois as mudanças de ingredientes e de concentrações dos nutrientes, ainda que da mesma matéria prima, são comuns neste setor.

Tendo em vista tudo que lhe foi apresentado, devemos ter em mente que os processos e os alimentos devem ser a base de investigações regulares, tanto na indústria quanto no setor científico-acadêmico, para reinventarmos os alimentos e seus nutrientes de forma equilibrada, com o intuito de atender um futuro da nossa cadeia alimentar com responsabilidade e sustentabilidade necessária.

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