26 fev, 2017
por Daniel Geraldes
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Capítulo 2 – O descompasso entre fabricantes de rações e aquicultores

CAPITULO 2 – O DESCOMPASSO ENTRE OS INTERESSES DOS FABRICANTES DE RAÇÕES E DOS AQÜICULTORES BRASILEIROS – Parte I

SERGIO ZIMMERMANN* e MÁRCIA ROSANGELA POSSEBON**

O aqüicultor brasileiro, sobretudo o piscicultor, fica surpreendido quando tem acesso a uma amostra de rações produzidas no exterior. Empresas que lideram o mercado nacional, produzem em países vizinhos (Chile, Peru, Equador) produtos com melhor qualidade obtendo resultados superiores aos nacionais. Nas feiras internacionais de aquicultura nos damos conta do quanto a indústria de rações no Brasil precisa evoluir e, desta forma, colaborar com a profissionalização dos cultivos de organismos aquáticos em nosso país.

Foi na primeira metade da década de 90 que as rações aquáticas surgiram no Brasil, onde as empresas utilizavam o tempo ocioso das linhas de extrusão direcionadas para o mercado “pet” (Cães e Gatos) para a fabricação de rações aquáticas. A experiência do primeiro autor nessa área havia sido no final da década de 80, em Södertälje, Suécia, com a empresa Ewos (atualmente Cargill) desenvolvendo uma linha de “extrusados flutuantes” para tilápias). Em 1995 os dois autores trabalharam juntos numa das maiores empresas do país, e criaram uma linha de rações para peixes que permanece, depois de 20 anos, como uma das líderes de mercado. Nestas duas décadas pouca coisa mudou em termos de formulações ou linhas de processo, nem a entrada de diversas multinacionais (que controlam quase 70% do mercado) alteraram esta situação.

Seguimos como um dos poucos países onde a indústria de rações não mantém unidades experimentais para testes de avaliação de seus produtos. Os poucos  demonstrativos de desempenho a campo são realizados em parceria com alguns produtores (em geral testes de pequeno porte). As iniciativas dos fabricantes de criar produtos de melhor qualidade acabam barradas pelos pequenos produtores interessados em preços baixos e condições de pagamento mais atraentes. Por outro lado, a rápida velocidade de crescimento da atividade gera uma situação de demanda muito superior à oferta, o que faz com que a indústria priorize volumes, em última instância, a máxima velocidade de processamento. Os produtores acabam considerando normal a inconsistência dos produtos, e reagem com uma baixa fidelização e parceria, não valorizam a qualidade e se estabelece uma relação de conveniência entre ambos, com produtos de baixas qualidade, eficiência e preço. Esta situação deve mudar nos próximos anos, não só com o maior equilíbrio entre a demanda e a oferta, mas sobretudo pela entrada de grandes empresas produtoras de tilápias que demandam produtos mais técnicos.

Qual a imagem da Indústria de Rações Aquáticas para os Aqüicultores?

A maior parte dos aqüicultores brasileiros são pequenos produtores pulverizados em todo o território nacional. Visualizam a indústria de rações aquáticas como grandes e poderosas corporações onde o diálogo acaba se limitando às negociações de preços, o que gera um rodízio de fornecedores de alimentos. Penso que a visão da maioria dos produtores brasileiros seja de que a indústria de rações faz tecnicamente o melhor possível, e que uma troca de fornecedor não traz grandes impactos técnico-econômicos ao seu negócio. A maioria simplesmente desconhece rações de boa qualidade e de alto desempenho. Algumas empresas, porém, já estão testando alimentos “Premium” e verificando as vantagens financeiras de se pagar mais por uma conversão alimentar melhor, porém ainda em volumes muito reduzidos. A tilapicultura, por exemplo, na última década cresceu de 10 a 20% ao ano, e a maioria das indústrias não teve a capacidade de acompanhar este crescimento, portanto, as grandes empresas de rações aquáticas devem se perguntar: “vale a pena negociar qualidade ou preço/volumes com pequenos produtores ou pequenos volumes com os poucos grandes produtores nacionais”?

Qual a imagem dos Aqüicultores para a Indústria de Rações Aquáticas?

Comparada às demais atividades zootécnicas, apesar das elevadas taxas de crescimento, a aquicultura brasileira ainda pode ser considerada uma atividade pequena, equivalendo a 10% da suinocultura e 2% da avicultura nacionais. É uma atividade predominantemente conduzida por pequenos produtores espalhados por todo o território nacional, um desafio de capacidade logística às empresas de ração. Quando comparada às rações “pet”, apesar das margens de lucro bem menores, os volumes das rações aquáticas são muito maiores, e essa compensação acaba se tornando ainda mais atraente devido aos mais baixos custos de embalagem, logística e promoção (o marketing é bem mais simplificado e barato). Ainda assim, praticamente nenhum fabricante de rações “pet” priorizou os alimentos aquáticos no Brasil, talvez pela crescente demanda de um mercado de pequenas unidades de produtores desinformados que priorizam preços baixos e não discutem muito a qualidade e os prazos de entrega dos produtos.

A própria estrutura administrativa da maioria das empresas de alimentos induz à venda errática de alimentos de baixa qualidade e elevado volume, pois vendedores, distribuidores, representantes, e pessoal de campo acabam ganhando comissões por tonelagem e não por margens de venda. Isso ocorre porque as comissões por tonelagem são mais fáceis de calcular/cobrar/pagar, estão nos pedidos e recibos. No fundo isso é um dos principais fatores que influenciam esse descompasso entre indústria e produtores.

Na Parte II deste artigo sobre os interesses dos fabricantes de rações (capacidade de produção e prazos de entrega) e dos aqüicultores brasileiros (qualidade e preço do produto), trataremos  da variabilidade de ingredientes, questões de processamento ( grau de moagem, condicionamento, secagem, etc.) e de logística, bem como das dificuldades dos produtores de aditivos em profissionalizar rações aquáticas no Brasil.

* Sergio Zimmermann

(sergio@sergiozimmermann.com e sergio@plugin.com.br) é Engenheiro Agrônomo e Mestre em Zootecnia e Aquicultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Foi professor em diversas universidades no Brasil e na Noruega (UMB) e há 30 anos é consultor em nutrição e cultivos de peixes e camarões em mais de 20 países nas Américas, Escandinávia, África e Ásia. Tem mais de 150 trabalhos/palestras publicados/apresentados em periódicos/eventos científicos. Atualmente é sócio das empresas VegaFish (Suécia), Florida Aquaculture Investment Group (EUA), Biofloc Storvik (Noruega e México) e presta suporte técnico através de sua empresa Zimmermann Aqua Solutions localizada em Sunndalsøra, Noruega. https://www.linkedin.com/in/sergiozimmermann

 

** Marcia Rosangela Possebon

(possebonmarciarosangela@gmail.com) é Engenheira Química (PUC/RS), com especialização na área Qualidade e Alimentos (PUC/RS e UFRGS) e 30 anos de experiência em análises de matérias primas e produtos acabados, gestão de produção e custos, liderança e “chão de fábrica “, com trabalhos de projeto, aquisição de equipamentos e montagem de fábricas, acompanhamento e melhoria de processos e manutenção. Consultora em produção de Rações Fareladas (Premix, alimentos completos e concentrados), Peletizadas (alimentos completos e concentrados), Laminadas e Extrusados. Participação de equipe de implementação de BBF (Boas Práticas de fabricação) e APPCC (Análise de Perigos em pontos Críticos de Controle), análise de custos e melhoria. Diversos cursos no Brasil e Exterior nas áreas de Qualidade, Gestão, BPF e APPCC na Indústria de Alimentos, Operações e Produção.  http://br.linkedin.com/pt/marcia.possebon

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