3 jun, 2020
por Daniel Geraldes
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Custo de oportunidade de farinha de carne e osso & fosfatos

A farinha de carne e osso (FCO) possui em sua composição uma série de nutrientes essenciais para a alimentação animal. Dentre esses nutrientes, o valor da proteína sempre foi interpretado como o mais decisivo para o balizamento do custo de oportunidade[1] das FCO, mas seria a proteína seu principal nutriente? Haveria outro nutriente importante para o cálculo de seu custo de oportunidade?

Para responder a essa pergunta, há que se entender como o custo de oportunidade da farinha de carne e osso é calculado, e para isso, conhecer seu conteúdo nutricional e eventuais substitutivos é pré-requisito indispensável.

Os principais nutrientes da Farinha de Carne e Osso (FCO) podem ser vistos na Tabela 01 [1]:

Nutriente FCO 38% FCO 41% FCO 45%
Proteína 38% 41% 45%
Gordura 11% 11% 13%
Energia Metab. Aves 1.873kcal/kg 1.937kcal/kg 2.445kcal/kg
Fósforo disponível 7,9% 6,8% 4,9%
Cálcio 11,2% 10,1% 9,6%

Tabela 01 – macronutrientes médios das FCOS brasileiras, onde: FCO: Farinha de Carne e Osso, com 38%, 41% e 45% de proteína respectivamente

Vejamos agora alguns ingredientes que podem substituir parcialmente as FCOs em dietas de aves e suínos no Brasil na Tabela 02 [1]:

Nutriente FS 45% Milho Óleo de soja FBC FMC
Proteína 45% 8,3%
Gordura 1,7% 3,6% 99%
Energia Metab. Aves 2.256kcal/kg 3.381kcal/kg 8.790kcal/kg
Fósforo disponível 0,18% 0,08% 18,5% 21,2%
Cálcio 0,24% 0,03% 24,5% 18,6%

Tabela 02 – macronutrientes médios dos principais substitutivos das FCOs, onde: FS 45% = Farelo de Soja com 45% de proteína; FBC = fosfato bicálcico; FMC = fosfato monocálcico

Ao estudarmos as tabelas acima, percebemos que dentre todos os ingredientes usualmente disponíveis para formulação de rações no Brasil, as farinhas de carne e osso são os únicos que fornecem quantidades consideráveis de todos os macronutrientes necessários ao desenvolvimento animal. Farelo de Soja 45% e milho são “pobres” em minerais. Milho é rico em energia, mas carece de teores mais elevados de proteína. Óleo de soja possui apenas energia. Fosfato Bicálcico (FBC) e Fosfato Monocálcico (FMC) possuem apenas minerais, sendo isentos de proteína e energia.

Dentre os macronutrientes, destaca-se o fósforo[2] como um dos nutrientes economicamente mais sensíveis para a definição da sua fonte na ração animal. O fósforo só pode ser obtido de fonte inorgânica (FBC / FMC) ou orgânica (FCO). Esse é o único nutriente que, para ter sua fonte orgânica substituída (FCO), há que se utilizar uma fonte inorgânica (FBC / FMC), como já dito, isenta de valor energético e proteico.

Essa substituição resulta diretamente em:

– redução da concentração energética da dieta, que só poderá ser recuperada ao se utilizar fontes mais ricas em proteinas e/ou energia, ou seja, ao trocar FCO por FBC ou FMC em dietas “isonutricionais” (mesma quantidade de energia/proteína/minerais), há que se aumentar a inclusão de farelo de soja (fonte de proteína) e/ou de óleo de soja (energia), o que por “falta de espaço”, resulta normalmente em menor inclusão de milho;

– aumento da participação de insumos importados, posto que o Brasil é importador líquido de FBC e FMC desde 2008 (Gráfico 01 [2]) – o que sabemos não ocorrer com milho, óleo de soja e FS 45%;

– uso mais intenso de uma fonte finita de extração mineral, o fosfato de rocha, que possui reservas concentradas em poucos países (Gráfico 02 [3]). O fosfato de rocha é a matéria-prima dos FBC ou FMC, que em última instância, acaba por reduzir a sustentabilidade das atividades humanas a longo prazo, posto que não há substituto para esse nutriente nem na nutrição animal, tampouco na adubação de lavouras.

Fosfatos de rocha (ou fosforitas) se caracterizam por serem de origem sedimentar, resultado de processos geológicos de sedimentação que ocorreram por longos períodos (geralmente 15 milhões de anos), ocorridos principalmente desde o período Permiano (há 300 milhões de anos) até o final do Mioceno (há 5 milhões de anos) [4]. Acredita-se que as reservas conhecidas de fosfato de rocha, se mantido o consumo atual, poderão atender as necessidades humanas durante os próximos 200 a 300 anos, o que é menos que “um piscar de olhos” em termos geológicos.

Indiretamente, a substituição de fonte orgânica de fósforo por fonte inorgânica implica em “efeitos secundários”:

– FCOs são produzidas por diversas unidades de reciclagem animal espalhadas pelo território nacional, muitas vezes, próximas ao local de consumo, já os fosfatos, podem ter sido transportados por longas distâncias, e muitas vezes, envolvendo transporte internacional, implicando em maior consumo de derivados de petróleo, e como consequência, maiores emissões de equivalente de CO2;

– perda de palatabilidade da ração para algumas espécies: as FCOs apresentam odor e sabor agradável à maioria dos animais, já os fosfatos minerais, possuem sabor ácido, e textura arenosa;

– aumento da pulverulência da ração: os fosfatos são, intrinsicamente, pulverulentos, o que não ocorre com as FCOs, que apresentam teores consideráveis de gorduras (acima de 9%);

– aumento do gradiente de densidade entre os ingredientes da ração: os FBC e FMC apresentam densidades específicas de 2,31g/cm3 [5] e 2,22g/cm3 [6] respectivamente, frente a densidades de 0,9 a 0,7 de grãos, gorduras e FCOs – esse grande gradiente de densidade implica em aumento de risco de segregação (desmistura) dos seus ingredientes;

– FCOs apresentam quantidades interessantes de microminerais [7] (p. ex.: 4,6g/kg de potássio, 2,2g/kg de magnésio, 615mg/kg de ferro, 114mg/kg de zinco, 26mg/kg de manganês, 21mg/kg de cobre), que deveriam ser considerados por nutricionistas em formulações a custo mínimo;
Apesar desses fatos, há dois fatores-chave que o nutricionista leva em consideração na escolha entre as fontes de fósforo orgânica e inorgânica:

* Mercado consumidor; e
* Custo de oportunidade.

Há mercados que impedem o uso de proteínas animais e/ou de ruminantes em rações animais, seja por questões religiosas ou outras questões sem fundamento técnico ou sanitário, embasados muitas vezes na “percepção do consumidor”. Quando essa restrição se impõe, o nutricionista não tem outra opção que não realizar a substituição da FCO por fosfatos.

Quando estudamos o custo de oportunidade, a viabilidade econômica quanto ao uso de FCO pode mudar conforme o valor dos ingredientes. Quão mais caro estiverem o farelo de soja e/ou o óleo de soja e/ou fosfatos frente ao milho, mais valorizado será o custo de oportunidade da FCO. Quanto ao milho, a função é inversa, quando o custo do milho estiver valorizado frente aos demais ingredientes (FS, óleo de soja e fosfatos), mais desvalorizado será o custo de oportunidade da FCO.

Apesar dessa correlação existir, há um fator que costuma ser o mais decisivo: o custo dos fosfatos. Matéria-prima com cotação em dólar, costuma responder muito rapidamente a flutuações cambiais. Vejamos no Gráfico 03 [8] o valor do fosfato de rocha nos últimos 15 anos:

O fosfato de rocha, sendo a matéria-prima base para o FBC e FMC, influencia diretamente o valor de mercado desses produtos. O aumento de preço observado em meados de 2008 ocorreu devido a uma “tempestade perfeita”, onde um aumento na demanda de fertilizantes para a plantação de grãos destinados à produção de biocombustíveis, associado a um aumento na tarifa de exportação Chinesa (maior fabricante mundial de fosfatos) e a um aumento no valor do barril de petróleo, resultou nesse “pico” de preço [9]. Variação semelhante de preços foi observada em meados de 1975 [10], com preços médios atualizados subindo de patamares históricos que variavam entre 70 e 50 US$/ton, atingindo valores 225US$/ton.

Todavia, observa-se queda de 64% nos valores médios no fosfato do Marrocos a partir de 2012. É interessante notar, que essa queda de valores dos fosfatos de rocha, coincide com um aumento de consumo no mercado mundial de fosfatos nas últimas décadas, indicando que a capacidade de mineração mundial vem, constantemente, suplantando o aumento da demanda observada [11].

Apesar desse aumento na produção, um interessante artigo [3] agrupou diversas publicações a respeito do pico de produção de fosfato de rocha. De acordo com esses autores, o pico deverá se dar entre 2025 e 2084, e as reservas hoje conhecidas deverão estar esgotadas entre 2200 e 2300. As estimativas agrupadas [3] podem ser vistas no Gráfico 04.

Estimativas do pico e do tempo de produção das jazidas conhecidas de fosfato de rocha

Esses mesmos autores acreditam que após atingir o “pico de extração”, haverá aumento de preço do fósforo. A depender do aumento de preço que irá ocorrer, será viabilizado o uso de novas tecnologias para a recuperação desse nutriente presente em outras fontes, que atualmente deixamos de reciclar, conforme pode ser visto no gráfico abaixo. Em última instância, a dependência por fosfato de rocha será sensivelmente reduzida [3]. Isso poderá não ocorrer caso fatores imponderáveis se imponham, como religiões, desejos de consumidores, legislações locais e afins, impedindo ou reduzindo o uso de algumas dessas fontes recicláveis, conforme pode ser visto no Gráfico 05 [3].

Cabe ressaltar que as fontes minerais fosfatadas são utilizadas, principalmente, como insumos para a produção de grãos (82% da produção mundial) [3], tendo seu consumo concentrado em 2 ou 3 meses do ano, durante a preparação da lavoura. Na nutrição animal (5% da produção mundial) [3], o uso de FBC e FMC se dá de forma constante, ao logo de todo o ano. É importante ter a certeza que tanto a nutrição animal como a produção de grãos têm seus custos impactados diretamente pelo custo das fontes fosfatadas.

Pode-se imaginar as FCOs sendo utilizadas como fontes de fósforo na adubação de lavouras. Apesar de ser tecnicamente possível, essas fontes orgânicas são ricas em gorduras e proteínas biodisponíveis e estáveis aos animais. Ao serem aplicadas na adubação, essas proteínas e gorduras serão degradadas por bactérias presentes no solo e apenas uma parte de seu valor nutricional será utilizado pela planta, ou seja, haveria uma perda de eficiência no sistema de reciclagem de nutrientes.

Porém, em caso de queda abrupta do câmbio (real valorizado), a possibilidade de substituição das FCOs em dietas por FBC / FMC é real e caso ocorra, isso se dará de forma rápida: o impacto junto à nutrição animal costuma responder quase tão rápido quanto à flutuação cambial, ou seja, uma queda abrupta no preço do FBC / FMC pode resultar em rápida substituição da FCO, caso o valor da FCO não se reduza na mesma velocidade. Já um aumento do câmbio (real desvalorizado) resulta em rápida substituição das fontes inorgânicas pela FCO.

Conclusões

Há tempos, o setor de reciclagem animal costuma entender o preço da farinha de carne e osso percebendo o farelo de soja como “grande balizador”. Porém, esse “campo de visão” deve ser ampliado, incluindo na equação de custo de oportunidade os preços do fosfato bicálcico e do fosfato monocálcico, o que permitirá um entendimento mais adequado do preço de oportunidade da farinha de carne e osso utilizada na nutrição animal.

Bibliografia

[1] H. S. Rostagno, L. F. T. Albino, J. L. Donzele, P. C. Gomes, R. F. Oliveira, D. C. Lopes, A. S. Ferreira e S. L. T. Barreto, Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos – Composição de alimentos e exigências nutricionais, Viçosa: UFV – DZO, 2005.
[2] ABRA, a partir de dados obtidos junto ao MDIC, Não publicado, Brasília, 2020.
[3] D. Cordell e S. White, “Life’s Bottleneck: Sustaining theWorld’s Phosphorus for a Food Secure Future,” The Annual Review of Environment and Resources, vol. 39, pp. 161-188, 2014.
[4] G. H. Espenshade e C. W. Spencer, Geology of Phosphate Depositis of Northern Peninsular, Washington: U.S. Atomic Energy Comission, 1963.
[5] Wikipedia, “Dicalcium Phosphate,” [Online]. Available: https://en.wikipedia.org/wiki/Dicalcium_phosphate. [Acesso em 28 maio 2020].
[6] Wikipedia, “Monocalcium phosphate,” [Online]. Available: https://en.wikipedia.org/wiki/Monocalcium_phosphate. [Acesso em 28 maio 2020].
[7] Feedipedia – Animal feed resources information system, “Meat and bone meal,” 15 julho 2013. [Online]. Available: https://www.feedipedia.org/node/222. [Acesso em 27 maio 2020].
[8] Index Mundi, “Rock Phosphate Monthly Price – US Dollars per metric ton,” Abril 2020. [Online]. Available: https://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=rock-phosphate&months=180. [Acesso em 27 Maio 2020].
[9] W. Y. Huang, W. D. McBride e U. Vasavada, “Recent Volatility in U.S. Fertilizer Prices,” USDA, Marco de 2009.
[10] A. McKay, Y. Miezitis, K. Porritt, A. Britt, D. Champion, S. Cadman, R. Towner, D. Summerfield, A. Whitaker, D. Huston, S. Jaireth, M. Sexton, A. Schofield, D. Hoatson, A. Senior e L. Carson, “Australia’s Identified Mineral Resources,” Geoscience Australia, Camberra, 2013.
[11] Michigan News Update, “Feed Phosphates Market: Drivers, Restraints, Opportunities, and Challenges,” 24 outubro 2019. [Online]. Available: http://news.michigannewsupdates.com/story/236576/feed-phosphates-market-drivers-restraints-opportunities-and-challenges.html. [Acesso em 28 maio 2020].
[12] W. L. Marques, Análise de Custos, Cianorte, PR, 2017.
[13] M. A. Lopes, “A centelha vital,” Correio Brasiliense, pp. https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/1577242/artigo-a-centelha-vital, 11 janeiro 2014.

 

[1] O custo de oportunidade representa o valor associado a melhor alternativa não escolhida. Ao se tomar determinada escolha, deixa-se de lado as demais possibilidades, pois são excludentes, (escolher uma é recusar outras) [12]

[2] O fósforo é um componente vital da parede celular, DNA, RNA e ATP, transportando energia para todos os tecidos. Nas plantas, o fósforo é essencial para o crescimento celular e ao desenvolvimento de frutos e sementes. Portanto, não há substituto conhecido ao fósforo para o suporte à vida [13].

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