13 abr, 2017
por redacao
64
4667

Ingestão de Ácidos Graxos Omega-3 X Omega-6

Ácidos graxos são utilizados por cada célula do corpo. São integrantes das membranas celulares e influenciam a função receptora das mesmas.

Introdução

Os ácidos graxos essenciais não podem ser sintetizados pelo corpo humano e precisam ser obtidos a partir de dietas. A ingestão de ácidos graxos essenciais presentes na nossa dieta é proveniente especialmente dos óleos vegetais, como óleo de soja e, em menor proporção de óleos de girassol, milho, canola, arroz e algodão. Existem muitas citações com dados de ingestão diária e, sempre nos deparamos com sugestões de relação entre os ácidos graxos Ômega 6 (ω-6) e Ômega 3 (ω-3). Vários estudos indicam problemas de doenças relacionadas ao excesso de ingestão de ácidos graxos da série Ômega 6 e é importante manter uma relação em níveis adequados e que possa colaborar para o nosso bem-estar. A deficiência da ingestão de ácidos graxos essenciais pode causar a redução do crescimento, problemas de cognição e acuidade visual em bebes, problemas reprodutivos e dermatites, entre outros.

Omega 6 x Omega 3 – Ácidos graxos essenciais

Os dois principais ácidos graxos essenciais presentes nos óleos vegetais são ácidos linoléico (C18:2 – LA) e linolênico (C18:3 – LNA), cujas estruturas podem ser visualizadas na Figura 1. A forma mais empregada para citação destes ácidos graxos é C18:2 (9,12) e C18:3 (9, 12, 15), onde temos 18 átomos de carbono, 2 ou 3 duplas ligações e as posições das duplas ligações nas estruturas dos ácidos graxos. O sistema “n” ou “ω” indica apenas a posição da primeira dupla ligação, com a contagem iniciando-se no carbono do grupo metil (CH3), localizado na extremidade oposta da carboxila. Neste sistema, LA é da série ω-6 e LNA da série ω-3.
Figura 1 – Estruturas dos ácidos graxos linoléico e linolênico.

No caso da posição das duplas ligações a contagem é a partir do grupo carboxila, ou seja, do lado oposto da nomenclatura “n” ou “ω”.

Aspectos evolucionários: balanço dos ácidos graxos ω-3 e ω-6

Avaliações de estudos na nutrição paleolítica e em populações dos dias modernos, mostraram que nossos ancestrais consumiam muito menos ácidos graxos saturados do que nos dias de hoje. Além disso a dieta continha pequena, mas quantidades semelhantes de ácidos graxos poli-insaturados (PUFA) ω-3 e ω-6.

O aumento do consumo dos ácidos graxos ω-6 nos últimos 100 anos é devido ao desenvolvimento da tecnologia na virada do século que marcou a modernização das indústrias de óleos vegetais e da agricultura moderna com ênfase nos alimentos à base de grãos para animais domésticos, cujos óleos são fontes de ácidos graxos ω-6.

Invenções de prensas contínuas, chamadas de expeller e sistemas de desodorização tornaram possível a produção industrial do óleo de algodão e outros óleos vegetais para uso doméstico. Extração com solvente de oleaginosas tiveram seu uso aumentado após a 2a Guerra Mundial, tornando a grande escala de produção de óleos vegetais mais eficiente e econômica.

Agricultura moderna com sua ênfase na produção diminuiu o conteúdo de ácidos graxos ω-3 em muitos alimentos como vegetais de folhas verdes, carnes bovinas e peixes. Modernas técnicas de aquiculturas produzem peixes contendo menos ácidos graxos ω-3 do que os peixes que crescem normalmente em oceanos, rios e lagos.

Ambas as series (ω-3 e ω-6) suportam funções de desenvolvimento e fisiológicas essenciais. Funcionam como substratos para a formação dos eicosanóides, moléculas sinalizadoras presentes nas células e que produzem as prostaglandinas (pg), tromboxanas (tx) e leucotrienos (lt), compostos reguladores das respostas imunes e de inflamação.

Rotas Metabólicas – Omega 3 e Omega 6

Óleos vegetais são as principais fontes dos ácidos graxos essenciais, principalmente os ácidos linoléico (LA) e linolênico (LNA). Após a ingestão destas fontes, inicia-se uma série de etapas de elongação e dessaturação, com sistemas enzimáticos que atuam de forma paralela nas duas rotas metabólicas, que competem pelas mesmas enzimas.

As duas classes de enzimas são as elongases, capaz de introduzir 2 átomos de carbono no ácido graxo e as dessaturases, responsáveis pela introdução de uma dupla ligação. As formas mais ativas das séries  ω-3 e ω-6 são os ácidos graxos polinsaturados de cadeia longa, conhecidos com LC-PUFA (long chain polunsaturated fatty acids) contendo 20 a 22 átomos de carbono, principalmente os ácidos araquidônico (AA, C20:4 ω-6) e eicosapentaenóico (EPA, C20:5 ω-3) e docosahexaenóico (DHA, C22:6 ω-3).

Os humanos possuem a capacidade de converter ácido linoléico (LA) em ácido araquidônico (AA) e ácido linolênico em ácidos eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóixo (DHA), através das enzimas elongases e dessaturares, porém estas conversões são limitadas devido a redução das atividades enzimáticas, fatores estes relacionados a idade, estresse, ingestão de álcool, hipertensão e diabetes, entre outros. Esta taxa conversão é citada como sendo de no máximo 10%, ou seja, necessitamos de alta ingestão de fontes de LA e LNA para que possamos ter efetivamente a presença de AA e EPA/DHA, substratos para a formação dos eicosanóides. Na figura 2 podemos verificar a rota metabólica completa das duas séries, ω-3 e ω-6, a partir da ingestão de óleos vegetais contendo ácidos graxos essenciais.

 

Figura 2 – Rota metabólica dos ácidos graxos linoléico e linolênico.

As duas séries de ácidos graxos competem pelo mesmo sistema enzimático (elongases e dessaturases) que possuem preferência de atuação na série ω-3, mas o alto nível de ingestão dos ácidos graxos ω-6 interfere diretamente na capacidade de elongação e dessaturação das enzimas na série ω-3.

Podemos visualizar na Figura 2 que temos uma etapa de insaturação seguida de uma etapa de elongação, até o final das séries. Por este motivo recomenda-se a ingestão de fontes especialmente de origem animal, que contenham na sua fração lipídica, principalmente os ácidos graxos EPA e DHA pois, além de serem precursores de compostos de ação anti-inflamatória, não precisam ser submetidos ao sistema enzimático.

Dois ácidos graxos de alta relevância em ambas as séries são os ácidos arquidônico (AA) e eicosapentaenóico (EPA) e os mesmos competem diretamente pela mesma enzima. Portanto, em alguns casos, quando temos a necessidade da presença dos ácidos AA e DHA, devemos evitar fontes de óleos de peixe ou algas contendo altos teores de EPA e sim escolher fontes com maiores teores de DHA. É importante que, apesar de existirem muitos estudos científicos com humanos em várias etapas da vida, a relação EPA / DHA e as concentrações dos mesmos podem sofrer variações de acordo com o público alvo. Além disso, tratando-se de fontes marinhas, podem haver contaminações de metais pesados, o que pode provocar sérios danos à saúde do paciente, por isso que essa ingestão deve ser sempre realizada com acompanhamento médico.

O balanço na dieta, ou seja, tentar reduzir a relação ω-6 / ω-3 para níveis próximos de 5/1 é uma maneira de equilibrar a formação dos vários compostos com ações inflamatórias no nosso corpo. Ingestão de fontes de óleos vegetais usuais como soja, milho e girassol aumentam ainda mais o nível dos ácidos graxos ω-6. Óleos de linhaça e chia, contendo altos teores de ácido linolênico (ω-3) podem contribuir para uma redução da relação, embora tenhamos o mesmo problema de baixa atividade das enzimas presentes no nosso organismo.

Recomendação global para ingestão de EPA e DHA

Existem várias recomendações de ingestão de ácidos graxos ω-6 e ω-3, a nível global e em cada país. No caso específico do EPA e DHA, a recomendação de ingestão diária é uma maneira de se reduzir a proporção relativa entre ω-6 e ω-3, uma vez que se contarmos apenas com a ingestão de fontes de ácido linolênico (LNA) não conseguiremos atingir proporções desejáveis de aproximadamente 5/1 (ω-6/ω-3) e consequentemente termos produção equilibrada de compostos de origens inflamatórias e anti-inflamatórias. A Tabela 1 mostras algumas recomendações globais de ingestão diária.

Tabela 1 – Recomendações globais de ingestão diária de EPA e DHA.

Organização População Alvo Recomendação
WHO População adulta geral LC-PUFA ω-3: 1-2% da energia ingerida /dia
FAO 0 – 6 meses

6 – 24 meses

2 – 4 anos

4 – 6 anos

6 – 10 anos

Grávidas / Lactantes

DHA: 0,1-0,18 % energia

DHA: 10-12 mg/kg peso corpóreo

EPA + DHA: 100-150 mg

EPA + DHA: 150-200 mg

EPA + DHA: 200 – 250 mg

EPA + DHA – 300 mg (mínimo 200 mg/dia)

ISSFAL População adulta geral para saúde cardiovascular

Grávidas / Lactantes

Mínimo 500 mg/dia de EPA + DHA

DHA: 200 mg/dia

WAPM Grávidas / Lactantes

Bebês quando amamentação não é possível

200 mg/dia

0,2-0,5% do total da gordura ingerida

World Health Organization (WHO) = Organização Mundial de Saúde (OMS)

Food and Agriculture Organization of the United States – (FAO) – Organização de Alimentos e Agricultura dos Estados Unidos.

International Society for the Study of Fatty Acid and Lipids (ISSFAL) – Sociedade Internacional para Estudo dos Ácidos Graxos e Lipídios

World Association of Perinatal Medicine (WAPM) – Associação Mundial de Medicina Perinatal

Conclusões

– A ingestão de ácidos graxos essenciais (AGE) é fundamental para a nossa dieta, principalmente na forma de ácidos linoleico (LA) e linolênico (LNA), originados dos óleos vegetais.

– A deficiência dos ácidos graxos essenciais pode causar redução no crescimento, problemas reprodutivos, dermatites, etc.

– Dietas balanceadas também devem ser atendidas quando falamos da ingestão de AGE, na forma de fontes de ω-6 / ω-3. Dietas ocidentais possuem relação acima de 20/1 entre ω-6 e ω-3, o que pode levar, a partir do ácido araquidônico (AA, C20:4 – ω-6), à formação de eicosanoides precursores de compostos responsáveis por processos inflamatórios e de supressão das funções imunoprotetoras, relacionadas à resistência contra as enfermidades.

– Ingestão em excesso de fontes de ácidos graxos da série ω-3 pode causar, por exemplo, o aumento do processo hemorrágico em cirurgias, feridas ou partos, aumento da velocidade do dano oxidativo aos tecidos, o que pode levar a um envelhecimento precoce e acelerado. Recomendações da relação entre ω-6 / ω-3 citam valores ideais ao redor de 5/1.

– A ação das enzimas responsáveis pelas etapas de elongação e dessaturação é limitada por vários fatores citados como idade, ingestão de álcool, estresse, entre outros, o que faz com que no máximo 10% dos ácidos graxos essenciais, principalmente da série ω-3, na forma de LNA possa chegar aos ácidos graxos como maiores atividades biológicas, EPA e DHA. Com isso torna-se necessária e fundamental a ingestão e complementação de fontes de EPA e DHA, para que possamos ter uma maior formação de eicosanoides precursores de compostos de origem anti-inflamatória.

– Não devemos utilizar cápsulas contendo EPA e DHA sem o acompanhamento médico, pois o excesso de consumo pode provocar muitos problemas de saúde e com graves consequências.

Colunistas

  • Graxaria
  • Óleos e Gorduras
  • Pet Food
  • Aqua Feed
  • Animal Feed
  • Espuma
Aguarde...

Cadastre-se

Aguarde...

Esqueci minha senha

Aguarde...
Translate »