13 jun, 2017
por Daniel Geraldes
141
1954

Mortalidades animais no contexto da sustentabilidade da cadeia de carnes e dos animais de estimação

Mortalidades animais no contexto da sustentabilidade da

cadeia de carnes e dos animais de estimação.

Por: Claudio Bellaver[1]

  1. Introdução

Para abordar esse tema, complexo devido a existência de diversos grupos de interesse, é necessário definir claramente os conceitos básicos, pois na falta desses pressupostos, há confusão e distorções sobre o que desejam os diferentes elos de uma cadeia de consumo. Assim, o primeiro dos conceitos é o da cadeia de carnes onde devemos perceber a visão desde o produtor, passando pela indústria de transformação e industrias aliadas, bem como a necessidade do consumidor final, aquele que em última análise paga a conta e que deseja alimentos de qualidade. Na sequência, há que se rever o que estabelece a legislação existente nas atividades produtivas e de transformação. Há necessidade de diferenciação entre os animais de estimação, os quais têm exigências bastante diferentes dos animais de produção de carne e, portanto, devem ser considerados tais particularidades. Outro conceito é o da economia circular que envolve a inovação dentro das cadeias produtiva e de transformação. E, finalmente, o elo de produção relacionado com a sustentabilidade, a qual envolve os pilares:  social, ambiental e econômico. Cada pilar retrata um contexto em que a sustentabilidade é aplicada, ao mesmo tempo em que um pilar depende do outro para se sustentar. É preciso perceber que o aspecto social não é apenas sobre empregabilidade, mas envolve a criação de mecanismos que melhoram a qualidade de vida dos cidadãos em uma sociedade saudável. Portanto, envolve a saúde das pessoas.

  1. O elo da produção da cadeia de carnes

O agronegócio brasileiro é responsável por cerca de 23% do PIB nacional e sua força econômica apoia-se, entre outros fatores, na imagem bastante positiva que produtores e indústrias de carne (bovina, suína e de aves) conquistaram no mercado interno e externo. As projeções do agronegócio para o Brasil entre 2015 a 2025 estimam crescimentos de 23,3% para bovinos, 35,1% para suínos e 34,7% para frangos (média de 3,10% ao ano). Ou seja, há uma boa estimativa do crescimento do setor de carnes e com isso cresce toda a cadeia produtiva. O aumento da produção traz como consequência o aumento de mortalidades a nível de granjas, havendo necessidade urgente de criar soluções tecnológicas para a destinação dos cadáveres de animais mortos.

Tomando-se o rebanho anual de mais de 6,4 bilhões de aves, 212 milhões de cabeças bovinas e 38 milhões de cabeças suínos, resulta, conforme dados do IBGE, um abate em 2015 de 5,5 bilhões de frangos, 25 milhões de bovinos e 35 milhões de suínos é possível estimar as taxas de mortalidades animais nas propriedades rurais e as perdas decorrentes do abate (vísceras, penas, cerdas, sangue, ossos etc.). A mortalidade da produção a campo, referida pela Embrapa é de 1,2 milhões de toneladas/ano e está espalhada em um espaço geográfico nacional, com densidades de 48 a 561 kg/km². Portanto, é uma produção distribuída e de difícil manejo.

Entre as possibilidades de destinação dos cadáveres existentes estão a compostagem e a produção de biogás e/ou biodiesel. Para mortalidades de rotina e distribuídas é preferível o tratamento localizado nas propriedades rurais, sem risco de circulação de patógenos em vias públicas e zelando pela bioseguridade. Entretanto, soluções maiores devem considerar a visão de arranjo produtivo local, economia circular para tratar dos resíduos da cadeia de carnes, bem como a centralização do processamento em plantas dedicadas e especificas para essa finalidade, integrando tecnologias apropriadas e boas práticas de produção animal com a destinação dos resíduos para as rotas de fertilizantes ou energia.

Existem tecnologias prontamente disponíveis e os governos estaduais precisam, junto com as associações de produtores e empresas tecnológicas, fazer planos de negócio que viabilizem técnica e economicamente os empreendimentos, e não simplesmente solucionar pelo caminho mais curto e mais fácil, mas inadequado tecnicamente para o consumidor final. Esse elo final é o que paga todo o negócio, mas deseja qualidade e com isso estaremos assegurando o conceito: “qualidade do campo a mesa”.

Importante referir o trabalho conduzido e disponibilizado pela Embrapa no II Workshop – TEC-DAM, onde é mostrada a produção de toxinas nas farinhas produzidas com cadáveres em condições experimentais controladas. São moléculas consideravelmente prejudiciais se ingeridas em determinadas concentrações e existe aditividade que somam os efeitos das toxinas para prejudicar o desempenho animal. Além disso, existem as endotoxinas produzidas por bactérias Gram (-), não são destruídas pelo calor no processamento.   No topo disso, podemos calcular o Índice de Qualidade das farinhas, com base em dados analíticos.

A reciclagem de cadáveres e resíduos não farinháveis (lodos e resíduos de incubatório) tem sido por nós abordado em vários trabalhos de revistas especializadas, desde quando organizamos os “graxeiros” em 2002. Sempre posicionamos (ver item 4, histórico) que esses materiais não devem ser usados na fabricação de farinhas de animais e que existem vias alternativas de destinação melhor indicadas para tratamento desses resíduos.

  1. O elo da transformação na cadeia de carnes

Na transformação de animais vivos em carne, a indústria frigorifica tem apresentado altos níveis de competitividade internacional, contando com o apoio de industrias de apoio em equipamentos e serviços. Países desenvolvidos, com legislação rigorosa e exigente, confiam na qualidade e segurança da nossa produção de carnes, item que representa cerca de 20% da pauta da exportação brasileira do agronegócio. Portanto, as carnes comercializadas pelo Brasil são reconhecidas mundialmente pelas boas práticas de produção (no campo) e na fabricação (indústria); bem como, pelos baixos custos de produção. Os compradores internacionais mantêm missões de avaliação dos produtos cárneos nas empresas produtoras do Brasil, assim como varejistas e fabricantes brasileiros trabalham em parceria com o produtor animal para assegurar um produto final que atenda às necessidades da legislação e do consumidor.

A indústria aliada à produção de carnes tem subsetores de produção de farinhas animais e produção de rações para a alimentação animal, ambas altamente relacionadas com a qualidade da produção de carnes. Essas industrias aliadas tem relevância direta na condição sanitária dos rebanhos de produção. A dieta nutricional de bovinos, suínos e aves reflete-se na qualidade da carne e na mesa do consumidor. Assim como em outros países, os produtores brasileiros alimentam parte do rebanho bovino, e toda a produção de aves e suínos, com misturas básicas de milho, farelo de soja, minerais, vitaminas e outros micro ingredientes. No caso de aves e suínos, podem ser adicionadas também as farinhas e gorduras de origem animal, obtidas do processamento dos resíduos derivado do abate animal para produção de carcaças e carnes, sendo essas inspecionados antes do abate.

Uma vez que farinhas e rações impactam a qualidade da produção de carnes, torna-se mister entender a conceituação do termo carcaça pelo MAPA. Entende-se carcaça como sendo o animal abatido, formado das massas musculares e ossos, desprovido da cabeça, mocotós, cauda, couro, órgãos e vísceras torácicas e abdominais. Nos suínos a carcaça pode ou não incluir o couro, cabeça e pés. De acordo com a norma vigente, somente os resíduos não comestíveis desse abate são considerados seguros e recomendados para uso na produção de farinhas animais para uso na alimentação animal.

Nas propriedades rurais, cujos objetivos são a produção animal, as carcaças são obtidas apenas quando do abate para o consumo humano da propriedade. Há, porém, uma percentagem variável de mortalidades e essas mortalidades naturais no campo/propriedade rural não podem ser consideradas carcaças e sim cadáveres animais, conforme definido acima. Portanto, a destinação não é adequada para fabricação de farinhas animais. Por isso, tem causado grande preocupação o projeto de lei – PL 5851/2016, em tramitação na Câmara Legislativa Federal. Esse projeto visa disciplinar o aproveitamento de carcaças de animais de produção e resíduos animais no campo para fins não comestíveis, estabelecendo requisitos mínimos para a gestão desses resíduos. Os resíduos em questão, como estão no PL, abrangem animais mortos em condições usuais, ou seja, cadáveres, e também restos de parto, de cortes de cauda, de castração e de dentes.

O fato do PL em tramitação prever o uso de cadáveres animais para fabricação de farinhas animais e consequentemente uso na ração pode ocasionar sérios riscos à saúde dos animais e, por derivação, inadequação da imagem e riscos quando destinados ao consumo humano. A alimentação animal elaborada a partir de farinhas obtidas dessa forma, danifica a imagem construída ao longo de anos e tem forte impacto na qualidade nutricional das farinhas, gorduras e rações animais. Expõe com isso, uma má prática de produção animal, desnecessária frente à abundância de ingredientes vegetais para rações existentes no Brasil. O resultado disso é um produto cárneo inaceitável para os consumidores finais de qualquer mercado.

  1. O histórico das normas de produção de farinhas animais

No XII Congresso Brasil Rendering, realizado pelo Sincobesp em Abril/2013, reportamos que o assunto de processamento de subprodutos do abate não é novo e os primeiros trabalhos foram iniciados em 2002, com objetivos claros e explicitados na Memória do I Workshop para o setor, realizado pela Embrapa de Concórdia, os quais eram:

  • Reduzir o risco de transmissão de enfermidades que desabonam a qualidade sanitária dos subprodutos de origem animal;
  • Promover o consumo de subprodutos de origem animal pela indústria de rações;
  • Reduzir a contaminação ambiental causada pelo uso inadequado dos resíduos produzidos pela indústria animal;
  • Contribuir para o aumento da competitividade das empresas do setor pecuário, frigorífico e industrial na área de subprodutos de origem animal;
  • Colaborar com o desenvolvimento de conhecimentos técnico-científicos relativos ao setor de produção de subprodutos animais;
  • Promover a melhoria de processos na produção de subprodutos de origem animal, adotando as ferramentas de controle de qualidade, com enfoque na certificação desses ingredientes para rações;
  • Incentivar a produção de ingredientes de origem animal, com qualidade certificada por agente certificador independente e de credibilidade pública;
  • Realizar convênios com entidades estatais, não governamentais ou particulares para o cumprimento de seus objetivos;
  • Assessorar as instituições oficiais e particulares no estudo de problemas relacionados com a produção de subprodutos de origem animal;
  • Incentivar e colaborar na fiscalização oficial efetiva para a produção de subprodutos de origem animal; fazendo com que, os produtores de farinhas que não se adequarem às normas estipuladas pelo MAPA, sejam estimulados a promover as melhorias necessárias, ou fechados.

Motivado por esse encaminhamento oriundo do I Workshop da Embrapa de Concórdia, o MAPA decidiu normalizar a produção de farinhas e gorduras, antes um setor não aparente na cadeia de carnes. E a normalização do MAPA foi iniciada com a Instrução Normativa (IN) Nº 15, de 29/10/2003, englobando as etapas de coleta, recepção dos resíduos de animais, processamento, controle da qualidade, empacotamento, armazenamento, destinação e transporte. Nessa norma as empresas do setor são orientadas para a implementação de Boas Práticas de Fabricação (BPF), que são os procedimentos higiênico-sanitários e operacionais que devem ser executados em todo fluxo de produção, desde a obtenção dos resíduos de animais até a distribuição do produto final, com vistas a garantir farinhas e gorduras de origem animal, aptas para produção de alimentos para os animais. O  item  3.3.1.11, do Anexo I, da referida norma estabelecia a proibição de vários resíduos entre os quais os animais mortos e seus despojos, bem como dos animais abatidos em estabelecimentos  não autorizado por órgão oficial competente.

Na atualização de normas do MAPA houve forte pressão de grupo de interesse e a IN 15/2003 foi revogada em favor da atual IN 34, de 28/5/2008. Também nessa norma, os resíduos animais devem ser oriundos de estabelecimentos devidamente autorizados pelos órgãos oficiais competentes. No artigo 46 há proibições de uso de alguns resíduos, não mencionando animais mortos e seus despojos.  Porém, o estabelecimento processador deve adotar medidas preventivas e corretivas para evitar a presença de materiais impróprios, os quais devem ser segregados, acondicionados e destinados adequadamente pelo estabelecimento processador. A adequação de destinação por força dos programas de autocontroles que exigem Procedimentos Padrão de Higiene Operacional (PPHO), BPF, Procedimentos Sanitários Operacionais (PSO) e Princípios de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) para garantir a qualidade dos produtos finais.

Entendemos que pela atual IN 34/2008 é incompatível a garantia da qualidade de farinhas e gorduras, sem segregação pela qualidade dos materiais na entrada do processo de produção. Isso relaciona-se a danos devidos a presença de peróxidos, aminas biogênicas e contaminação por toxinas anti nutricionais; sem entrar no mérito da imagem do setor de processamento de farinhas junto aos demais elos das cadeias produtivas e no setor pet food.  Aqui cabe o jargão lixo na entrada, lixo na saída”. Lamentavelmente estamos agora diante de uma decisão normativa em que se pretende legislar federalmente no uso de mortalidades animais em farinhas e gorduras para uso em rações animais. A proposta de projeto de lei (PL) em tramitação na Câmara Legislativa Federal visa disciplinar o aproveitamento de carcaças de animais de produção e resíduos animais no campo para fins não comestíveis, estabelecendo requisitos mínimos para a gestão desses resíduos. Os resíduos em questão, como estão no PL, abrangem animais mortos em condições usuais, ou seja, cadáveres, e também restos de parto, de cortes de cauda, de castração e de dentes.

  1. O elo do consumo na cadeia de carnes

As carnes no Brasil estão sob rigoroso sistema de inspeção federal (DIPOA/MAPA) e tem sistemas estaduais (SIE) e municipais (SIM) de apoio a inspeção. Portanto, se preservadas condições técnicas para a indústria aliada processar com qualidade, o consumidor ficará garantido da oferta de produtos saudáveis. No momento em que houver descontrole de normas que assegurem qualidade, teremos então quebras de paradigmas estabelecidos há décadas, em favor de interesses de parte da cadeia produtiva e de transformação.

Um ponto que tem sido pouco abordado pelo setor de produção e transformação é o desejo do consumidor. Ou seja, a imagem de qualidade que o consumidor exige para a compra de seus alimentos. Esse consumidor de carnes ou proprietário de animal de estimação desconhece muito da abordagem que aqui fazemos e confusões entre os elos da cadeia podem surgir.

Para eliminar o conflito de entendimento conceitual do que significa “qualidade” os produtores, necessitam medir objetivamente a qualidade das suas ofertas. Isto é, a conformidade entre a qualidade anunciada comparada com a qualidade obtida, de forma a garantir as especificações e tolerâncias. Para o consumidor final ou cliente, a qualidade refere-se ao grau em que o produto adquirido satisfaz as suas necessidades e pelas quais comprou determinado produto ou serviço, sendo isso apreciado subjetivamente e diferindo no tempo, quanto essa realização. Mas, o que fazer quando o próprio consumidor desconhece o que é qualidade?  Devem existir variáveis e parâmetros que asseguram a qualidade de farinhas e gorduras animais e, por isso, é necessário normalizar a produção e transformação através de um órgão oficial regulador. Seja da forma que se garantam as especificações e atributos requeridos ou, pela conceituação de consumidores que são os clientes e demandantes. Se ambos, produtores e consumidores chegarem ao entendimento conceitual e, que isso não interfira nos elos seguintes da cadeia de carnes; então, o atendimento da norma será apenas proforma, porque a qualidade pretendida estará sendo igual a oferecida e, portanto, com alta de conformidade. Se isso não for facilmente evidenciável, é preciso então atender especificações tecnológicas; ou seja, não basta anunciar qualidade, é preciso ter conformidade segundo a norma oficial e certificar por organização independente e especializada.

Esse elo final da cadeia de carnes, o do consumidor é o que paga todo o negócio, mas deseja qualidade, que se atendida estaremos assegurando o conceito: “qualidade do campo a mesa” e a saudabilidade das rações para os animais de produção e de estimação. Portanto, o consumidor deve ser ouvido e os institutos de pesquisa oficiais devem esclarecê-los sobre essa situação da cadeia de carnes.

  1. Os animais de estimação

Animais de estimação ou, do inglês os chamados “pet” são alimentados muito diferentemente dos animais de produção (e.g. aves, suínos). Todos animais requerem uma alimentação equilibrada nutricionalmente para a função do objetivo principal, o qual pode ser a produtividade nos ganhos de peso, produção leiteira ou, de ovos. Mas, no caso dos pets, a alimentação deveria se aproximar o quanto possível das dietas naturais, que evitem os excessos de peso e de gordura. Esses animais podem ter a sorte de encontrar uma boa adoção e serem muito bem tratados em todos os aspectos de criação e alimentação; mas, se forem animais comuns, sem raça definida ou, oriundos de abrigos de animais e sem donos, podem não ter boas histórias de alimentação. Em adição ao desejo dos seus proprietários, o grupo pet fica sujeito ao critério de decisão das empresas que produzem os alimentos. Boas companhias produzem bons alimentos e se preocupam com a saudabilidade desse pet, como sendo parte integrante de uma família.

Por isso, o mercado pet ganhou destaque e é muito significativo no Brasil onde há uma população de 132 milhões, de um total de 1,56 bilhões de cabeças da estatística mundial. Dessa população nacional, 52 milhões são de cães e 22 milhões de gatos, o que faz o Brasil ser o 4º. país na população mundial de pets. O faturamento do setor pet foi de 18 bilhões em 2015, com crescimento anual de 7,6%, o que mostra a importância do setor no agronegócio brasileiro. Mas, há complexidades nas rações pet e são relacionadas com causas de variação como espécies, raças, porte e idade do animal, entre outros fatores. As rações podem conter ingredientes puros (e.g. vitaminas, minerais, aminoácidos), cereais, subprodutos de origem industrial (e.g. farelos, farinhas animais, óleos), suplementos (pró/prebióticos, enzimas), aditivos (conservantes, antioxidantes, flavorizantes) para assegurar que seja a melhor e mais equilibrada nutrição.

Há diferentes possibilidades para alimentar o animal pet com uma dieta saudável. A mais comum é a alimentação com ração seca completa e equilibrada, contendo todos os nutrientes e em geral essas dietas levam em sua composição farinhas de carne, de ossos moídos, de vísceras, cereais e suplementos minerais, vitamínicos, entre outros. É necessário aqui diferenciar farinha de carne de farinha de subprodutos. Existe a mesma possibilidade dessa dieta ser enlatada, contendo maior teor de umidade. Outras opções comerciais são para misturar a fração comercial parcialmente equilibrada com alimentos frescos, com alimentos refrigerados e alimentos crus congelados; ou ainda, uma dieta seca pelo congelamento. A adição de alimentos frescos a uma dieta comercial visa melhorar a qualidade geral da dieta pet. As dietas caseiras podem ser ofertadas separadamente cruas ou cozidas. Porém, o importante é salientar que se os ingredientes que compõem as dietas não tiverem qualidade de origem certificada/rastreada e que sejam isentos de toxinas e fatores antinutricionais ou alergênicos, de pouco adiantará buscar a melhoria na formulação técnica da dieta via aditivos de formulação ou técnicos. Então, sobressai a necessidade de qualidade de origem nos ingredientes de formulação e todo usuário (dono de pet) deve buscar no rótulo o que está lhe sendo ofertado na dieta e se há garantia de qualidade certificada.

Assim como nós humanos, que “somos o que nós comemos”, os proprietários dos animais de estimação querem proporcionar uma alimentação saudável para que esses tenham perspectiva de longa vida. Sabem que uma boa dieta poupará a conta no consultório veterinário. Campanhas de rações anunciando composição de ingredientes especiais (e.g. cereais especificados, partes cárneas e vísceras originadas de espécies identificadas) nas dietas e recomendações de uso, podem eventualmente reduzir problemas na alimentação pet. Entretanto, o maior e mais importante cuidado de fabricação e distribuição da ração é que a dieta possa ser oferecida fresca (com pouco tempo de prateleira) ao consumidor final, o pet.

Foi reportado recentemente em evento nos EUA, que as dietas para animais de estimação devem ser “isentas de Salmonela” (i.e. tolerância zero), visto que as rações são vendidas no mesmo supermercado de alimentos onde, no carinho de compras, as embalagens de ração animal entram em contato com alimentos humanos. E o ponto da regulamentação do FDA não é o risco real existente (que é decrescente), mas a percepção de risco. Isso é resultado da crescente importância desse setor pet e com ele, o avanço da cultura da segurança dos alimentos. Essa cultura trará a necessidade de integração de esforços para os fornecedores de ingredientes, transportadores, fabricantes de ração, supermercados e consumidores. Em adição a questão de salmonela, devido a maior percepção de aroma por cães, as dietas devem ter além da qualidade nutricional implícita, maior consistência no odor, aroma e cor.

Clinicamente os benefícios proporcionados por uma alimentação nutricionalmente equilibrada e saudável incluem: redução ou eliminação de alergias causados por ingredientes (nem sempre diagnosticadas); redução da inflamação das articulações e renais; tratos digestivos mais fortes e saudáveis; dentes mais limpos e saudáveis; diminuição das infecções das orelhas e da boca; fezes menores e mais firmes e um animal de estimação mais feliz, mais saudável. Portanto, uma dieta de qualidade é o elo que pode afetar positivamente a saúde, a energia e as perspectivas sobre a vida do animal de estimação, tanto no curto e longo prazo.

  1. Economia Circular e Inovação

A Economia Circular é um conceito aplicável à cadeia de carnes e envolve Ciência Tecnologia e Inovação (C&T&I), a qual é uma via alternativa e segura para melhorias em competividade de uma cadeia produtiva e de transformação. O conceito propõe que o valor dos recursos que produzimos seja mantido em circulação através de cadeias produtivas integradas. O destino final de um material residual deixa de ser uma questão de gerenciamento de resíduos, mas parte do processo de design de produtos e sistemas. A ideia é eliminar o próprio conceito de resíduos e enxergar cada material dentro de um fluxo cíclico, possibilitando a trajetória dele ‘de berço a berço’ – de produto a produto, preservando e transmitindo seu valor. Dessa forma, o crescimento econômico se dissocia do consumo crescente de novos recursos, possibilitando o aproveitamento integrado dos resíduos dos processos produtivos. Para que isso aconteça são necessários programas de apoio governamental, os quais devem servir de base de lançamento da inovação e empreendedorismo, utilizando ferramentas inovadoras, como por exemplo: design thinking e open innovation.

No agronegócio, algumas inovações em processos têm dado certo (sistema cooperativo, terceirização, redução de sal e açúcar nos alimentos, agricultura orgânica sem agrotóxicos nos alimentos, promoção internacional da qualidade de produtos finais, etc.). Mas, faltam muitas inovações em infraestrutura e equipamentos que levem a melhorias da qualidade de todos os segmentos da cadeia de carnes.  Especificamente, no subsetor de resíduo do abate entendemos que há muito a se evoluir e as possibilidades de inovação são variadas, sendo que a adoção de novos conceitos estará sempre condicionada a: a) melhoria energética dos processos; b) ênfase na qualidade e seguridade do produto final; c) agregação de valor ao convencional em processamento de resíduos do abate e de casas de carne, d) viabilidade de utilização do produto pelo setor de rações animais de produção e na aquicultura, dentro dos programas de formulação de rações de custo mínimo.

Nesse sentido, algumas possibilidades de inovação com resíduos do abate, são: a produção de proteína funcional de penas para uso cosmético e alimentar; o termo processo para polímeros na fabricação de plásticos; a produção de Syngas e sua utilização em células combustíveis; a produção de diversos hidrolisados proteicos; as separações e secagem com processos biofísicos avançados (nano membranas, líquidos supercríticos, etc.); a digestão continua de subprodutos via úmida a baixa temperatura e a compostagem de resíduos orgânicos da cadeia de carnes.

Se algum material de má qualidade para produção de farinhas estiver entre os materiais recebíveis (lodos de flotador, resíduos de incubatórios, mortalidades de granja, resíduos não farinháveis por já terem “passado”), há alternativas confiáveis para serem colocadas em prática. São tecnologias apropriadas para agregação de valor a esses resíduos desqualificados para produção de farinhas. Entre as possibilidades estão a compostagem acelerada e a produção industrial de biogás ou de biodiesel.

7.1. Compostagem de resíduos orgânicos

Primeiro, é necessário definir que existem vários procedimentos para executar a compostagem, sobressaindo em eficácia, a compostagem acelerada (CA). Essa tecnologia é diferenciada de outras existentes no mercado, as quais em geral são conduzidas sem observância dos parâmetros tecnológicos químicos, físicos e biológicos da boa prática da compostagem. A CA é um processo provavelmente mais próximo de uma solução imediata dos resíduos desqualificados para produção de farinhas, em que o material a ser compostado entra para um bioreator com o propósito de produzir um composto orgânico com características de fertilizante e de condicionador de solo, de bom valor comercial.

As condições do processo de compostagem envolve a sua natureza aeróbia e biológica em que a taxa de estabilização da matéria orgânica é dependente de condições como relação de carbono e nitrogênio (C:N), da umidade, da temperatura, do oxigênio e do pH do meio; sendo dependente de fatores físicos como, tamanho das partículas, densidade do material e da compactação dos materiais. É possível a automatização completa de oxigenação, temperatura e umidade e onde as emissões de gases são controladas (i.e., sem produção de metano, redução de oxido nitroso comuns em compostagem com leiras), não havendo odores desagradáveis (o sistema permite o uso de biofiltro) e nem insetos e vetores. Certamente essa é uma visão sustentável, ambientalmente correta, agregadora de valor aos resíduos orgânicos em geral, geradora de empregos e contribui com a melhoria da qualidade das farinhas, por exclusão de resíduos inadequados (matérias primas em vias de deterioração, lodos frigoríficos, resíduos de incubatório, mortalidades de plataforma, resíduos de restaurantes industriais dos frigoríficos) e consequente destinação para a compostagem acelerada. As condições do processo de CA permitem automatização da oxigenação, temperatura e umidade e onde as emissões de gases são controladas, não havendo produção de chorume, odores desagradáveis (possibilidade do uso de biofiltro) e nem insetos e vetores (sistema fechado).

O apelo para outras tecnologias como produção, como o biogás e o biodiesel estão relacionados com o estudo do arranjo produtivo local, onde os resíduos da cadeia de carnes e de outras cadeias produtivas precisam ser considerados. Em todos os casos, sabe-se que para os negócios pararem de pé, precisam ter viabilidade. Por outro lado, sabe-se que em todo o mundo, a melhoria do ambiente depende e precisa ser estimulada por legislações que facilitem e estimulem o setor produtivo criando novos negócios. No Brasil, o maior exemplo é o subsidio à produção de biodiesel com óleos vegetais comestíveis. E, se eventualmente persistem objetivos não solucionados, esses precisam ser analisados com visão proativa e transformá-los em metas para a solução. Não se deve perder o foco do fortalecimento do setor como um todo e que há diferentes interfaces e visões para o desenvolvimento sustentado. Isso direciona todos para o compromisso de continuar trabalhando pelo crescimento e melhorias do setor de farinhas animais.

As recomendações de OIE e OMS para mitigações de risco de cadáveres precisam ser adequadas aos conceitos de processamento de farinhas e de gorduras que se exige no Brasil; i.e., “qualidade na produção de farinhas e gorduras” conforme normas existentes. Então, não deveria ser preconizada a gestão de mortalidades e resíduos não farinháveis através da fabricação de farinhas animais, pois existem alternativas adequadas para destinação de cadáveres de rotina de granjas e fazendas via compostagem, biodiesel, biogás. Tampouco os cálculos de produção de gases de efeito estufa (GEE) e equivalentes de CO2 são adequados, sem que se considerem todos os fatores envolvidos. Entre os fatores a considerar, o primeiro é que a Compostagem Acelerada (CA) é feita com rapidez (7 dias em termofilia) comparada a 6 meses ou mais em leiras. Portanto, a CA é tecnicamente melhor, do que outras compostagens convencionais em leiras ou leitos. Segundo, na mitigação de GEE é preciso considerar toda a cadeia produtiva do fertilizante produzido na CA e que irá ao final produzir O2 nos vegetais compensando, em parte a produção de CO2 na fase termofilica (mínima). Na produção de farinhas, deve ser considerada a produção de CO2 da digestão animal, bem como o consumo de diesel no transporte de matérias primas para chegar a fábrica de farinhas. É preciso levar em conta que a CA pode ser feita na propriedade rural e assim, sem necessidade de transporte. É um assunto complexo e que não pode ser visto apenas dentro da unidade de fabricação do insumo, seja farinha ou fertilizante. Ambos insumos têm prós e contras no aspecto de emissões de gases;

  1. Conclusões

Todos os setores e subsetores da cadeia de carnes devem ter zelo por tudo aquilo que representa a qualidade da produção e transformação de produtos animais em carne e dos resíduos, para uso em dietas animais de produção e estimação;

Devem ser utilizadas matérias primas de qualidade na origem para melhoria da qualidade da produção de farinhas e gorduras animais, com exclusão de cadáveres e resíduos não farinháveis e destinação desses para tratamentos diferenciados (e.g. compostagem acelerada, biogás, biodiesel), que não sejam incorporados diretamente na cadeia de carnes;

A sustentabilidade da cadeia de carnes é dada pelo conceito correto do balanceamento do econômico, do social e do ambiental; sendo necessário uma visão de inovação tecnológica e inovação aberta, para ampliar o escopo da economia circular.

 

  1. Literatura Consultada

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Bellaver, C. 2011. Confrontando as Digestões Úmida e Seca na Fabricação de Farinhas Animais Graxaria Brasileira. Ed. 24. Nov/Dez. pp 48-49

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[1] MVet., Ph.D., bellaver@qualyfoco.com.br  Qualyfoco Consultoria Ltda. e Pro Embrapa.

 

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