21 mar, 2018
por Daniel Geraldes
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Perigos Físicos, Microbiológicos e Químicos – Fábrica de Ração.

Em nossa última conversa vimos que as Boas Práticas de Fabricação são procedimentos higiênicos, sanitários e operacionais aplicados em todo o fluxo de produção, desde a obtenção dos ingredientes e matérias-primas até a distribuição do produto final, com o objetivo de garantir a qualidade, conformidade e segurança dos produtos destinados à alimentação animal.

Antes de entrarmos no assunto de hoje, vamos relembrar um tema importante do mês passado que é o 5S e quem tem nos acompanhado no site tem visto que aos poucos estamos apresentando cada um deles.

A aplicação do 5S em uma fábrica ajuda a prevenir a contaminação da ração, e para o tipo de contaminação que vou apresentar neste post já iremos usar dois desses 5S:

SEIRI: Significa eliminar da área de trabalho tudo aquilo que não é necessário. Sempre são feitas manutenções emergenciais, na empresa ou limpeza em turnos quando a fábrica não está rodando.  A primeira tarefa da equipe de qualidade ao chegar à empresa é fazer uma varredura ou pente fino na área produtiva para averiguar se a equipa de manutenção ou limpeza não esqueceu algum corpo estranho nessa área ou dentro de equipamentos. Com essa pequena ação é possível prevenir contaminações físicas e químicas no produto, seja ela por um parafuso esquecida ou por produtos de limpeza na área produtiva.

SEITON: É o senso de organização, cada instrumento de trabalho precisa estar no seu lugar. Quando uma equipe está focada em alcançar um propósito, esse S é o imprescindível, cada um tem que estar atendo no seu setor ou campo de atuação. Quando os instrumentos de trabalho estão no seu devido lugar, conseguimos administrar itens que possuem pequenas partes para que não desapareçam e em uma eventual emergência saberemos exatamente onde procurar cada item.  Além de arrumar cada item em seu lugar, deve-se ainda documentar e dar ampla divulgação para que todos saibam onde fica cada um. E o mais importante, quando o item for usado ele deve voltar para o mesmo lugar.

Uma das formas de garantir que o produto não seja contaminado por agentes físicos, químicos e microbiológicos é ter uma boa equipe de qualidade dentro da empresa fiscalizando e orientando cada processo. Mas o que representa cada um desses riscos dentro de uma fábrica de ração e como evitar que nossa ração seja contaminada.

PERIGO FÍSICO

São considerados como perigos físicos corpos estranhos em níveis e dimensões inaceitáveis, podendo ser representados por objetos ou materiais estranhos capazes de causar repugnância ao consumidor, incluindo os que são antiestéticos e desagradáveis. As rações podem ser contaminadas por esses corpos em qualquer fase do seu processamento. Podem até mesmo sofrer sabotagem por funcionários ou consumidores. Devemos considerar que qualquer substância estranha pode ser um perigo à saúde, causando danos aos animais. Como exemplos de perigos físicos podemos elencar: fragmentos de objetos como madeira, metal e vidro, cabelo, papel de bala, plásticos, pragas, etc. Estes perigos podem ser controlados por intermédio de uma inspeção cuidadosa e técnicas de vigilância aplicadas pelo controle de qualidade da empresa. Entre os mais comuns nas empresas de ração podemos ter os seguintes:

– Metais: Metais ou até mesmo seus fragmentos podem contaminar os produtos por meio da matéria-prima, durante o desprendimento de partes de equipamentos ou utensílios, ou quando esquecidos após uma manutenção.

Em empresas onde o sistema de qualidade está bem implantado, o encarregado de manutenção que irá fazer o trabalho dentro da área produtiva precisa fazer um relatório sobre a manutenção que irá fazer, o que vai levar para dentro da área produtiva e o que ficará ou será retirado. Ao terminar a manutenção um funcionário do controle de qualidade acompanhará o encarregado fazendo uma varredura e conferência no local da manutenção.

Esta conferência garantirá que todos os equipamentos, peças e objetos que ele relatou no início da manutenção, estranhos à área, estão sendo retirados. Uma boa opção para resolver o descarte de metais é ter na empresa de 3 a 4 pontos de detectores de metal e imã para captar essas partículas metálicas.

– Pedras: Mais comumente encontradas em produtos de origem vegetal.  E comum receber pedras em cargas de milho e bandinhas de feijão. Temos um grande número de empresas que compram matéria prima que deveria estar classificada e peneirada o que evitaria que esses corpos estranhos chegassem até a área de processamento. Não muito como separar essas pedras, a melhor forma é comprar matéria prima já classificada. Em alguns casos peneiras rotativas conseguem separar essas pedras mas somente quando estão com tamanhos maiores que 10-12mm. Grande parte as pedras são desintegradas dentro dos moinhos de martelo acelerando o desgaste de martelos e telas. Podem ainda rasgar as telas durante o impacto, sendo necessário a sua troca de imediato.

– Madeira: Quando eu vejo um pedaço de madeira dentro de um saco de ração pet ou farelada, na minha concepção só existe uma forma dessa contaminação acontecer, SABOTAGEM. Porque em todo processo de fabricação essa madeira será triturada pelo moinho ou reduzida a pequenas partes na extrusora ou peletizadora. Essa madeira pode causar um possível travamento na extrusora ou na peletizadora e com isso atrasar a produção, mas nunca chegará intacto até o final do processo. De acordo coma as normas BPF, dentro de áreas produtivas é terminantemente proibido o uso de paletes ou qualquer outro aparato de madeira, justamente para evitar esse tipo de problema.

– Pragas: Além de serem consideradas como perigos biológicos, transmitindo microrganismos patogênicos aos alimentos, podem se encaixar também nos perigos físicos. Principalmente quando há a formação de bolor em rações e essas se unem formando um bloco de ração contaminada. Esse tipo de contaminação é considerado físico e microbiológico. O grande causador desse tipo de contaminação é a ração que não conseguiu baixar a atividade de água a um patamar seguro ou que não foi resfriada adequadamente. Consideramos também perigo físico quando abrimos o saco de ração e encontramos carunchos dentro da ração.

 

PERIGO MICROBIOLÓGICO

A Salmonella sp. atualmente é o maior perigo microbiológico para as fábricas de ração. As principais fontes de contaminação são os ingredientes, tanto de origem animal (farinhas de ossos, carne e vísceras) quanto vegetal (milho, soja, sorgo, farelo de arroz, farelo de algodão). Além destes, outros fatores também têm sido considerados de risco como presença de pó nas dependências da fábrica decorrente do descarregamento ou pré-limpeza de ingredientes ou processos como a moagem, vetores e más condições de higiene.

Aqui abrimos um parêntese para mais um dos 5S’s – SEISO que é o senso de limpeza e organização do ambiente de trabalho. É extremamente complicado deixar uma fábrica impecável sem pó, principalmente na área de descarregamento, mas no interior dentro da área produtiva contamos com inúmeras opções de métodos para a redução de pó, como filtro manga, sistema de captação de pó no ambiente, prática de limpeza recorrente da área produtiva. E ainda sim o controle de qualidade costuma trabalhar com compras de matéria prima com uma antecedência, pois vez ou outra é necessário fazer uma análise microbiológica das matérias-primas para ver se o fornecedor está entregando o produto de acordo com o que foi comprando.

Vamos pegar por exemplo o problema que a BRF  está passando por  fraudar laudos de Salmonella de produtos que estão sendo exportados.

Condições de fabricação que favoreçam altos índices de umidade e temperatura nas unidades de produção também estão associadas ao aumento da contaminação da ração. Tratamentos térmicos, como a peletização e extrusão, são alternativas utilizadas no controle deste problema. Lembrando que fornecedores responsáveis, principalmente por produtos de origem animal, fazem o tratamento da matéria-prima com anti-Salmonella. Exija os laudos e faça uma análise no produto que esteja rodando em algum cliente dessa empresa.

PERIGO QUÍMICO

A contaminação química pode ocorrer desde a plantação da matéria-prima até na hora do processamento da ração. São vários níveis de contaminação e muitos deles são estudos com mais afinco quando se trata de alimentação humana, mas mesmo com muito estudo e fiscalização muito  do chega aos nossos pratos já foi contaminado no começo da cadeia.

As principais formas de contaminação são:

Resíduos de Pesticida: O uso de agrotóxicos no processo de produção agrícola e a consequente contaminação dos alimentos têm sido alvo de constante preocupação no âmbito da saúde pública. A presença de resíduos e contaminantes em produtos animais como carne, leite e ovos, pode ocorrer como consequência da aplicação direta de praguicida no animal ou quando eles ingerem alimentos (pastagens, forragens e rações) que os contenham.

Resíduos Veterinários: Mais conhecidos como promotores de crescimento. Nos últimos três anos todas as empresas estão sofrendo visitas periódicas e acompanhamento do ministério da agricultura (MAPA) e dos clientes para que seja abolido o promotor de crescimento, pois, ele fica acumulado nos músculos dos animais e é repassado ao ser humano. Empresa como Mc Donald’s e Burguer King vem auxiliando nessa batalha desclassificando potenciais fornecedores de carne que insistem em utilizar promotores de crescimento.

Esses perigos químicos são mais visados, pois afetam diretamente a saúde do consumidor que somos nós. Porém outras formas são bem comuns dentro de fábricas como, por exemplo, a dosagem incorreta dos micros ingredientes.

Todas as vezes que um funcionário realiza uma imprecisa ela pode afetar diretamente o animal que irá consumir a ração causando a sua morte por intoxicação ou aumentar o tempo de abate. Na área de Pet Food é mais raro ouvir algum relato, mas pequenas fábricas que fazem minerais para bovinos costumam ter problemas com a intoxicação causada por ureia na bovinocultura, o que pode acarretar a morte de um animal ou de todo o rebanho que consumiu a ração.

Voltando na questão da Contaminação por Salmonella, os tratamentos químicos suprimem, eliminam ou previnem a contaminação por Salmonella sp. Os aditivos eliminadores de Salmonella sp. atualmente disponíveis no mercado brasileiro são produtos a base de formaldeído ou mistura de ácidos orgânicos, como ácido fórmico e ácido propiônico. Animais que estão contaminados com formaldeídos presentam redução no peso, diminuem o consumo de alimentos e água em um curto espaço de tempo.

Dentro de uma fábrica de ração essas seriam as principais formas de contaminação. Conseguimos prevenir a maioria delas selecionando bons equipamentos e fornecedores de matéria-prima. Um pouco mais que fazemos dentro de nossas empresas pode resultar em clientes fieis e retorno financeiro.

E sempre bom lembrar que a normativa que regulamenta o BPF foi sancionada em 2007 e as empresas tiveram quase dois anos para se adequarem. Sempre que possível procure saber se a ração que seu animal consome está dentro das normas BPF e sempre que tiver alguma surpresa desagradável entre em contato direto com a empresa que a fabricou. Empresas sérias resolverão o seu problema em um curto espaço de tempo sem questionamentos.

Por: Rafael Resende Silva – Engenheiro de Alimentos
Skype: eng.rafaelrs

 

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