20 jul, 2021
por Daniel Geraldes
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Criação de peixes em alta

Associação de criadores de peixes prevê recorde de produção neste ano, com crescimento de pelo menos 10%.

VINICIUS GALERA – COLABORAÇÃO PARA O UOL, EM SÃO PAULO

A piscicultura brasileira viveu um ano de altos e baixos em 2020. Enquanto no primeiro semestre pesaram as incertezas da pandemia, no segundo a demanda reaqueceu e o setor fechou com um desempenho muito favorável, em grande parte devido à exportação.

De acordo com a Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), foram produzidas 802 mil toneladas de peixes de cultivo no ano passado, contra 758 mil em 2019. O número representa um crescimento de 5,93%. A previsão para 2021 é crescer pelo menos 10%, passando de 880 mil toneladas.

O principal responsável pelo crescimento foi a tilápia, que responde por mais de 60% da criação no Brasil. No ano passado, a produção da espécie, considerada o “frango dos peixes” pela sua versatilidade, cresceu 12,5%. A tilápia é um peixe de água doce originário da África mas distribuída em todas as partes do planeta. A espécie é caracterizada por ter escamas e um corpo alto e comprido, podendo atingir 45 centímetros de comprimento e 2,5 quilos de peso.

Agora, o setor projeta um crescimento recorde de dois dígitos, segundo projeção do presidente executivo da Peixe BR, Francisco Medeiros.

Produtores esperam ano recorde para a piscicultura

A expectativa para 2021 é de uma supersafra. Francisco Medeiros, da Peixe BR, explica que no segundo semestre do ano passado havia expectativa de aumento nas exportações, mas com o reaquecimento da demanda interna as vendas para fora diminuíram.

De acordo com o executivo, o movimento atual é o contrário. “Devemos ter neste segundo semestre exportações maiores que as registradas em 2020”, diz. No ano passado, o setor fechou o ano com 8% a mais nos embarques, passando de 6,2 toneladas para 6,8.

Como na maioria dos produtos do agro, o dólar alto favorece a exportação, mas Francisco explica que o mercado interno está pagando mais. Para consolidar as exportações, os piscicultores precisam de incentivos fiscais. “Queremos poder exportar sem pagar impostos”, diz.

Hoje, segundo o executivo, a exportação é utilizada como um controlador para a estabilização dos preços. “Quando há redução de consumo interno a tendência é vender o produto para fora. Se o mercado volta a comprar, o produto fica aqui dentro.”

Tilápia já vem pronta para consumo

O crescimento na produção de tilápia impulsionou a transformação da piscicultura brasileira nos últimos anos. Além de investimentos em genética que melhoraram a qualidade e o aproveitamento da espécie, a cultura de tilápia se industrializou – não é mais necessário levar o peixe inteiro para casa e depois limpá-lo, isso já é feito nos frigoríficos.

Francisco Medeiros, da Peixe BR, explica que a tilápia tem um modelo de negócio alinhado com os tempos atuais. “As empresas entregam o produto praticamente pronto, já processado.”

Em contraposição, ele cita o tambaqui. O peixe amazônico é a segunda espécie mais produzida, responde por cerca de 35% do mercado, mas, segundo o executivo, ainda não tem uma cadeia muito industrializada.

A capital do Amazonas, Manaus, é o principal mercado consumidor de peixe no Brasil. Culturalmente, o consumo é de peixes de escamas e o carro-chefe é o tambaqui. O produto fresco é distribuído para peixarias, mercados e em feiras livres.
Com o crescimento da cidade, surgiu a demanda pelo produto processado, mas o criador Bruno Leite, de Rondônia, diz que 90% do consumo manauense ainda é do peixe fresco. Se quiser aumentar sua participação fora da região Norte, o tambaqui precisa desenvolver uma indústria do produto processado.

Modelos na piscicultura

De um modo geral, a piscicultura trabalha com três modelos. Os sistemas integrados, que seguem o mesmo padrão das cooperativas de frangos: uma empresa ou indústria “aluga” o espaço do produtor e fornece os alevinos, rações e medicamentos para o desenvolvimento dos animais. Os produtores entregam um animal nos moldes que a indústria necessita.

Outro modelo são os sistemas verticalizados, em que a empresa produz, processa e comercializa os pescados. E, finalmente o sistema independente, pessoas que criam e vendem por conta própria para entrepostos, a maior parte. “Os independentes terão que se agrupar. Há cerca de dez anos, cada criador estabeleceu um modelo e os modelos integrados do Paraná e verticalizados de São Paulo e Mato Grosso do Sul sobressaíram”, diz Francisco.

Apesar da disponibilidade de água, o consumo de peixes ainda é muito baixo no Brasil. Quando se olha para a tilápia, a espécie mais consumida, o índice é de 2,7 kg per capita ao ano. Para se ter uma ideia, na China, maior produtor mundial de tilápias e de peixes de cultivo, o consumo é de 40 kg.

A Peixe BR tem um trabalho para elevar o consumo brasileiro para dez quilos. Há dois anos, a associação lançou uma campanha voltada para o mercado interno. Hoje as principais empresas de tilápia passaram a incluir em suas embalagens o modo de preparo do produto. “Nós percebemos que o consumidor não sabe preparar o peixe. Precisamos comunicar que o preparo é fácil. Isso estimula o consumo.”

Tambaqui ainda não chega pronto na cozinha

Se a tilápia é o “frango dos peixes”, há o risco de o tambaqui se tornar o “frango caipira dos peixes”. Ao contrário da tilápia, a espécie nativa ainda tem um único modelo de produção predominante, que é o da entrega do peixe inteiro.

O tambaqui é um peixe de água doce e de escamas. A espécie amazônica e portanto nativa é comum na região Norte, mas também ocorre no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. O peixe pode chegar a 90 centímetros de comprimento e atingir até 30kg.
Segundo Francisco Medeiros, da Peixe BR, o produtor precisa ter opções no mercado como a costelinha ou o filé pronto para o preparo – foi dessa forma que a tilápia ganhou espaço. “Cozinheiros não têm tempo para ficar limpando peixe”, diz.

Criadores de tambaqui querem inserir o peixe na dinâmica do agro. A criação de tambaqui em Rondônia se desenvolveu de olho no mercado de Manaus, do qual se tornou o principal fornecedor. Há dois anos havia no estado somente um frigorífico. Hoje são três.
O criador Bruno Leite, da Fazenda Santa Ana, diz que o tambaqui corresponde a cerca de 95% dos peixes nativos criados no Brasil. A tilápia não é nativa: é originária da África mas há milênios está disseminada em todo o mundo. Entre os peixes nativos para criação no Brasil, está também o pirarucu.

“Em vinte anos em Rondônia, o tambaqui saiu de uma criação artesanal com alimentação muito simples até chegar a uma criação com fábricas de rações e processadoras.” Ele diz que os criadores querem inserir a espécie na dinâmica de crescimento do agronegócio brasileiro. Junto com outros dois produtores locais, ele é sócio da Zaltana Pescados, uma fábrica de ração e de processamento que oferece cortes frescos e congelados.

Tilápia vai ganhar um índice de preços

O crescimento do mercado da tilápia no Brasil motivou a criação de um indicador de preço para dar segurança aos investidores e a todos os elos da cadeia.Francisco Medeiros, da Peixe BR, explica que, com o avanço da tilapicultura, o Brasil começou a receber muitas empresas de fora. A entrada dos estrangeiros provocou a necessidade da criação de um índice para balizar os preços.

O indicador será feito pelo Cepea, da Esalq-USP, que tradicionalmente produz indicadores de preços do agro. Uma versão inicial do índice está vigente há cerca de dois meses. A expectativa é que passe a funcionar para todo o mercado a partir de agosto.
Outra mudança é na forma de cultivo. Desde 2003 existe um decreto que prevê a criação nos lagos de usinas hidrelétricas e, no ano passado, um novo decreto desburocratizou o sistema.

Francisco Medeiros, da Peixe BR, diz que, nos lagos controlados pela Agência Nacional de Águas (ANA), já foi liberada a produção de quase 4 milhões de toneladas de peixe. O processo, mais uma vez, beneficia a tilápia, espécie mais resistente que pode ser criada em tanques redes.
Peixes de criação podem ser criados em tanques escavados, em que os produtores literalmente cavam um retângulo na terra e enchem de água (tilápias e tambaquis podem ser criados dessa maneira). Também podem ser criados, em alguns casos, em tanques redes, comuns em represas – basicamente é uma rede em forma de tanque onde os peixes ficam confinados.

O decreto não prevê produção nos estados da Região Norte. Mas no Sudeste e Centro-Oeste a criação em lagos de hidrelétricas já está implantada. O estado de São Paulo responde por 90% da criação em tanque rede.

Fonte: Economia UOL

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