29 abr, 2021
por Daniel Geraldes
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Entrevista com Ariovaldo Zani, CEO da Sindirações – perspectivas para 2021

O Setor de Alimentação Animal
Desafios, oportunidades e muito a ser feito!

Uma análise sobre o último ano e as perspectivas para 2021, segundo >Ariovaldo Zani, CEO da Sindirações – Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal e presidente do CBNA – Colégio Brasileiro de Nutrição Animal.

Em entrevista exclusiva para a primeira edição da Revista Ingredientes & Nutrientes – Nutrição Animal, Ariovaldo Zani fala sobre o desempenho da pecuária brasileira, sobre o setor de nutrição animal, os desafios e as projeções daqui para frente. Confira!

Revista Ingredientes & Nutrientes – Como foi o desempenho do setor da pecuária brasileira em 2020?

Ariovaldo Zani – É estranho celebrarmos em virtude de tudo que aconteceu e vem acontecendo, mas houve um importante avanço e ótimos resultados na pecuária brasileira em razão da pandemia. Destacaria duas principais razões para obtermos tais resultados:  primeiro, no cenário internacional. Devido o protecionismo e fechamento de fronteiras, tanto no que diz respeito ao movimento de pessoas quanto de produtos/mercadorias, isso levou os países a reforçassem seus estoques de alimentos e foi uma excelente oportunidade para o Brasil impulsionar suas exportações de gênero agropecuário, já que muitos fornecedores internacionais por questões de protecionismo ou mesmo para atender o mercado interno, deixaram de exportar. Além disso, fomos favorecidos pelo câmbio, o que tornou os preços do portifólio pecuário brasileiro bastante competitivos.

A segunda razão para o bom desempenho está relacionada com o próprio mercado interno.  A economia brasileira vinha de um ambiente bastante crítico de desemprego, agravado com a pandemia, mas com o auxílio emergencial – benefício financeiro concedido pelo Governo Federal destinado aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados – foram injetados R$ 321 bilhões na economia brasileira, recursos estes que foram destinados ao consumo de bens essenciais, como a alimentação.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Então, contrariando as previsões, o ano de 2020 foi favorável e até mesmo melhor do que os últimos anos para a agropecuária brasileira?

Ariovaldo Zani – Exatamente. O cenário para 2020 que iniciou com muito pessimismo por conta da pandemia, após vencidos os desafios iniciais, somado à mobilização e interferências dos setores privado e público, começou a mudar para o agronegócio e tivemos o fluxo de mercadoria preservado. O setor, considerado essencial para a economia, não parou! O Brasil honrou seus contratos e compromissos com os clientes e atendeu outros que surgiram. Diferentemente, por exemplo, do que vivenciamos em 2018. Na época o setor foi prejudicado pela paralisação dos caminhoneiros e pelo tabelamento do frete, ocasião em que o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio fechou com uma queda de 1,6%, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Revista Ingredientes & Nutrientes – Tivemos uma imagem fortalecida no exterior?

Ariovaldo Zani – Sim, o Brasil reforçou a imagem de um fornecedor confiável. Se antes já éramos considerados um fornecedor de qualidade, provamos que também somos de confiança. Isso ampliou o mercado para a agropecuária brasileira, trazendo novas oportunidades que foram muito bem aproveitadas.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Qual a avaliação do setor de nutrição animal?

Ariovaldo Zani – Com todo este movimento na agropecuária, a nutrição animal foi favorecida, afinal os insumos, nutrientes e rações representam um importante elo desta cadeia produtiva.

No ano passado fizemos pelo Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal – Sindirações um levantamento e o resultado apurado na cadeia produtiva de rações, contabilizado até setembro de 2020 foi de 4,7% de crescimento comparado ao mesmo período do ano anterior, ainda que em um ritmo menor, após totalizar 5,2% ao final do primeiro semestre, o resultado ainda foi surpreendente e o ano foi encerrado com um crescimento de quase 5% e uma produção total de 81,1 milhões de toneladas de rações.

Revista Ingredientes & Nutrientes – E quais foram os desafios de 2020?

Ariovaldo Zani – Embora tenhamos muito o que comemorar, não foi um ano fácil. O setor de nutrição animal, assim como tantos outros, precisou desenvolver protocolos e adotar inúmeras práticas para prevenir a transmissão da COVID-19. Foi necessário compreender, estudar e tomar medidas visando mitigar a transmissão do vírus. Eu posso, inclusive, afirmar com muita propriedade que ficou claro que o ativo mais importante durante a pandemia para a indústria de alimentação animal e cadeia produtiva foi o elemento humano, o colaborador, foi nele que a indústria mais depositou os seus cuidados. Várias medidas foram tomadas como dispensa remunerada, trabalho remoto dos grupos de risco, a contratação de transportes individuais, revezamentos nos refeitórios, contratação de profissionais de saúde nas empresas para orientações e acompanhamento da saúde mais de perto dos colaboradores etc. Tudo isso exigiu mudanças e investimentos de uma cadeia produtiva que não parou e foi capaz de atender a demanda necessária.

Um outro grande desafio foi o alto custo de produção. Se por um lado a desvalorização do real favoreceu a exportação da proteína animal brasileira, por outro, houve um aumento estratosférico de produção com a elevação nos preços dos principais insumos presentes na alimentação animal como o milho e o farelo de soja, além de outros que importamos, como vitaminas, alguns aminoácidos e aditivos. O pessoal da agricultura, por sua vez, teve uma excelente oportunidade. Foram recordes de embarque de grãos de soja e milho para o exterior. Essa demanda global superaquecida levou ao inflacionamento destes ingredientes, permanecendo ainda hoje.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Dentro do segmento de nutrição animal como foi o desempenho do pet food?

Ariovaldo Zani – Em 2020 o ano terminou surpreendente para o mercado pet food. A relação entre os tutores e os pets nunca ficou tão próxima e intensa quanto no isolamento social. Os cães e os gatos já residem em mais da metade dos lares brasileiros e essa estreita interação, reforçou a percepção dos tutores que a saúde dos animais de estimação é tão importante quanto qualquer outro membro da família. Em consonância, a praticidade do alimento completo e balanceado, tem contribuído para crescente e contínuo interesse no oferecimento da alternativa industrializada. De janeiro a setembro de 2020 a demanda avançou 5,3% e foram produzidos no ano passado algo em torno de 2,9 milhões de toneladas de rações.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Em relação aos produtos alimentares oriundos da atividade pecuária quais as demandas observadas?

Ariovaldo Zani – Alguns produtos alimentares oriundos da pecuária foram alavancados por conta das mudanças de hábitos em virtude da pandemia. Houve um aumento na preparação das refeições em casa que impulsionou o consumo de ovos, do leite in natura, enquanto outros como, derivados lácteos, carne bovina e itens industrializados sofreram recuo por serem mais caros e as pessoas estarem preocupadas em poupar ou mesmo sem condições financeiras.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Sobre a aquicultura? O que pode ser dito sobre o atual momento e o futuro?

Ariovaldo Zani – Por todas as dificuldades em aumentar a produção de proteína animal tradicional (frango suína, bovina) somado o crescimento da população global e a demanda por proteína animal, a aquicultura será a atividade que irá compensar esse gap na demanda, sem contar a qualidade nutricional que tem o peixe. Essas são as razões pelas quais a aquicultura vem crescendo e em 2021 a cultura tende a continuar sendo alavancada, especialmente no Brasil.

As cooperativas e grandes companhias agroindustriais perceberam que podem explorar essa atividade promovendo um processo de produção integrado, a exemplo do que fazem com aves e suínos. A Copacol – Cooperativa do Oeste Paranaense – maior produtora de tilápia no Paraná – vem trabalhando neste formato e crescendo vertiginosamente.

O Brasil detém 13% das águas doces do planeta, tem uma série de áreas alagadas e que podem ser aproveitadas, por isso, prevemos que essa atividade crescerá e logo mais ocupar uma posição de destaque. Há, inclusive, o mercado de exportação para explorar como nos EUA e Europa.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Há um certo receio de que a reforma tributária brasileira prejudique os insumos agropecuários?

Ariovaldo Zani – No Brasil os insumos agropecuários são beneficiados, o que na minha opinião é justo, porque estamos falando de produtos que compõem a cesta básica. Em outros países há, inclusive, isenção de tributos, tem incentivos e alíquotas diferenciadas. Sabemos que o país precisa de uma reforma, mas ela pode trazer mudanças e prejudicar bastante a agropecuária nacional, dependendo do modelo que for adotado e se for tributar esses insumos. Inevitavelmente a ‘conta’ chegará ao consumidor. Temos que acompanhar de perto e com lentes de aumento. Em São Paulo, o Executivo mexeu no tributo de circulação de mercadoria inclusive dos insumos agro, voltando atrás em alguns pontos onde houve uma reação mais forte do setor.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Quais as tendências quando falamos em ingredientes para a nutrição animal?

Ariovaldo Zani – A opinião pública e o mundo contemporâneo têm demandado ingredientes que visam o bem-estar animal e que não agridam o meio ambiente. Inclusive já está programado no CBNA realizarmos workshops para tratarmos de novos ingredientes que venham para atender essas necessidades e aí estamos falando de alguns tipos de algas, insetos e outras tantas variedades.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Quais as projeções para 2021?

Ariovaldo Zani – Já no fim de 2020 começávamos a ter novamente esperança e otimismo com a chegada da vacina e a reação das economias, o que levaria a uma espiral de crescimento e desenvolvimento econômico. No entanto, novas cepas do vírus apareceram, além disso, por aqui temos ainda os problemas no programa de imunização, o auxílio emergencial findou, embora haja negociações para um novo, o desemprego mantém-se alto, a renda caiu e o custo de produção para a pecuária continua elevado, ou seja, embora tenhamos que olhar o futuro com coragem e otimismo, a cautela é bem-vinda porque o cenário macro, por enquanto, não é tão animador.

Nestes primeiros meses de 2021 ainda é difícil fazer previsões, mas somos otimistas e apostamos que ao longo do primeiro semestre haja uma guinada. Este ano, assim como 2020, pode nos surpreender positivamente e chegarmos ao final dele, celebrando resultados positivos.

ENTREVISTA EXCLUSIVA DA REVISTA INGREDIENTES & NUTRIENTES.
PROIBIDO A REPRODUÇÃO PARCIAL OU TOTAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO.

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