18 ago, 2017
por Daniel Geraldes
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Entrevista com Daniel Consalter, diretor de tecnologia da FIT

A cultura de palma ganha uma aliada tecnológica

Nova tecnologia para a cultura da palma nasceu na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, mais precisamente na sede da empresa brasileira FIT – Fine Instrument Technology, especializada no desenvolvimento de equipamentos e soluções que utilizam Ressonância Magnética Nuclear (RMN) e promete importantes melhorias para a cultura de palma do Brasil.

 

O diretor de tecnologia da FIT, Daniel Consalter, explica que a análise feita com sensores de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) já era usada para a previsão de rendimento em indústrias de beneficiamento e até para o melhoramento genético, mas apenas em sementes com baixo teor de umidade ou previamente secas em estufas. Com o apoio financeiro da FINEP, FAPESP e CNPQ, e graças aos esforços da equipe da FIT, o Brasil entrou em um seleto grupo de países que detém a tecnologia de RMN.

O SpecFIT Oil é nome dado ao equipamento, que por meio de  uma técnica robusta analisa os hidrogênios das amostras, sendo possível obter diversas informações de maneira rápida, limpa e não destrutiva. Um destes dados é o teor de óleo da amostra. Consalter destaca ainda que a máquina pode beneficiar todos os estágios do cultivo de óleo de dendê – desde a produção até o beneficiamento.

O óleo de palma, o mais consumido no mundo, também conhecido no Brasil como dendê, tem atualmente como referência para a sua comercialização a massa do fruto e não a massa do óleo. Como não é possível garantir que a colheita seja sempre feita no momento ideal, o comprador pode receber frutos em diferentes graus de maturação, o que significa diferentes teores de óleo. Dependendo do ponto de colheita, o teor de óleo no fruto pode variar de 9% a 22%. O mesmo pode ocorrer com o girassol, a canola e outras oleaginosas. Especialistas neste mercado afirmam que se houvesse uma mudança na forma de comercialização, isso representaria um mercado mais competitivo e justo, tanto para quem vende a matéria-prima quanto para quem compra.

“A utilização do SpecFIT vem para revolucionar o mercado de óleos e trazer mais competitividade ao setor, pois a tecnologia pode ajudar a definir o melhor ponto de colheita e conhecer o potencial rendimento da carga antes mesmo da extração, identificar possíveis falhas no processo de forma rápida e em tempo de calibar os equipamentos como prensa, tridecanter e outros, avaliando  as perdas nos subprodutos como o cacho vazio, fibra, borra e efluente. Uma outra aplicação do equipamento, seria no melhoramento genético das plantas, principalmente para facilitar a seleção em relação ao teor de óleo. A medida poderá ser feita também no produto já embalado evitando adulterações”, enumera Consalter, lembrando ainda que o maior problema para que a palma de óleo e outras oleaginosas fossem precificadas pelo teor  de óleo  é que os métodos disponíveis até o momento eram demorados como é o caso das extrações com solventes ou de difícil calibração e baixa precisão, como o NIR. “Estamos trabalhando para desenvolver cada vez mais aplicações não só para óleos e gorduras, mas também alimentos e outros produtos. Nosso objetivo é ser referência em alta tecnologia”, declara.

 

Revista Óleos & Gorduras – O que levou a FIT a desenvolver uma nova tecnologia para detectar o teor de óleo de palma em sementes?

Daniel Consalter – Nós desenvolvemos o SpecFIT Oil, um equipamento que usa a Ressonância Magnética Nuclear (RMN), para realizar análises físicas e químicas em geral. Trata-se de uma técnica robusta capaz de analisar os hidrogênios da amostra. No entanto, o senhor Roberto Yokoyama, diretor da Denpasa – Dendê do Pará S/A, nos questionou se seria possível utilizá-lo para realizar medições do teor de óleo de palma e nos mostrou como o mercado de palma poderia se beneficiar desta aplicação. Vimos essa oportunidade como um desafio e revolução, dos quais queríamos fazer parte.

 

Revista Óleos & Gorduras – Este equipamento pode ser utilizado por outras culturas, inclusive para outras oleaginosas?

Daniel Consalter – Nós trabalhamos com outras culturas, assim como outras amostras, como por exemplo, laranjas, carne e até mesmo o biodiesel. No entanto, na cultura do dendê o que chamou muito a atenção foi pelo valor que o RMN agregaria a este mercado. Para amostras secas é garantido o funcionamento em qualquer oleaginosa. Para outros casos é necessário fazer adaptações de método, como fizemos com o dendê, mas além de já termos um grande portfólio de testes, temos estrutura e especialistas para fazer estas adaptações. 

 

Revista Óleos & Gorduras – Quais são as restrições ou limitações ds tecnologia que utiliza a Ressonância Magnética Nuclear?

Daniel Consalter – Depende muito do objetivo da análise e da amostra para dizer a limitação. No caso do teor de óleo, posso dizer que para cada nova matriz que ainda não testamos deve ser analisado como o método deverá ser adaptado. Para medida de ácidos graxos no óleo, por exemplo, só conseguimos medir os majoritários.

 

Revista Óleos & Gorduras – Como funciona o SpecFIT Oil para analisar o teor de óleo de dendê em sementes?

Daniel Consalter – Depois de calibrado o equipamento, basta pesar a amostra, colocá-la na máquina, digitar o peso e apertar um único botão. Em apenas 30 segundos o resultado aparece na tela. Não é preciso fazer nenhum tipo de preparo na amostra, que após a mediação, está intacta.

De modo bastante simplificado, o SpecFIT tem um ímã extremamente forte e bobinas de radiofrequência que trabalham juntos para gerar o sinal de Ressonância Magnética Nuclear. Deste sinal, conseguimos isolar o que corresponde ao óleo da amostra. A intensidade deste sinal é proporcional à quantidade de óleo. As etapas mais complexas são em como gerar o sinal e isolar o que corresponde ao óleo.

 

Revista Óleos & Gorduras – Comenta-se que essa tecnologia pode ajudar a definir o melhor ponto de colheita e contribui no melhoramento genético das sementes. Como a RMN funciona nestes casos?

Daniel Consalter – Tudo vem do teor de óleo. Se o fruto é colhido antes do ponto, ele contém menos óleo do que deveria e gera prejuízo para a usina, que pagou por água. Seé realizado um acompanhamento do teor de óleo do fruto, o produtor sabe quando está com o teor de óleo ideal para colher. No mesmo caso do melhoramento genético, é possível analisar se uma espécie está gerando mais óleo que outra e quais os ácidos graxos majoritários dos óleos produzidos.

 

Revista Óleos & Gorduras – Quais os principais diferenciais e benefícios proporcionados pelo uso do SpecFIT Oil na análise do teor de óleo de dendê? Poderia fazer algum comparativo com outras tecnologias usadas para esta mesma finalidade?

Daniel Consalter – O SpecFIT não exige preparação de amostra, não usa solvente, não destrói a amostra e qualquer pessoa pode operá-lo sem a necessidade de ser um expert em análises. Ao compararmos com outros métodos como o Soxhlet, este faz a extração utilizando hexano, um solvente tóxico que destrói a amostra e requer preparo desta, podendo demora horas e até mesmo dias para dar o resultado. Já o método NIR exige mais de 150 amostras para calibrar e esta calibração deve ser repetida de seis em seis meses, ainda assim a precisão mostrou-se ser menor que o SpecFIT.

 

Revista Óleos & Gorduras – E em termos de investimentos, o SpecFIT é mais caro em relação aos outros métodos existentes?

Daniel Consalter – Se compararmos somente o valor de aquisição de cada equipamento, ele é da ordem de valor do NIR e mais caro que o Soxhlet, mas esta não é a comparação correta. O benefício de se medir o teor de óleo com precisão e de forma rápida faz com que o SpecFIT seja um investimento. Pelo lado da usina, é possível monitorar o desempenho da extração de óleo, regulando automaticamente o equipamento que necessita ser ajustado. Elucidando, a usina faz aquisição através de um investimento de R$ 200.000,00 e graças a este monitoramento, aumenta sua performance em 5% (pode ser até mais). No caso de uma usina que produz 50 mil toneladas anualmente, isto significa um aumento de 2,5 mil toneladas, mais do que R$ 5.000.000,00 de aumento no faturamento. É possível ainda precificar a matéria-prima recebida pelo teor de óleo desta, incentivando o recebimento de produtos de melhor qualidade. O mercado de cana-de-açúcar foi revolucionado depois que a cana passou a ser precificada pelo Brix e isto pode acontecer com as culturas de oleaginosas ao utilizar o SpecFIT Oil.

 

Revista Óleos & Gorduras – Qual é a capacidade do SpecFIT Oil?

Daniel Consalter – Já medimos o teor de óleo, os ácidos graxos majoritários, o teor de gordura sólida e temos uma parceria com a Embrapa para desenvolver cada vez mais aplicações que podem ser acopladas ao equipamento. A cada momento podemos lançar uma nova funcionalidade.

 

Revista Óleos & Gorduras – Sobre a manutenção deste equipamento, o que tem a dizer?

Daniel Consalter – É baixíssima. O equipamento é extremamente robusto, mas temos reposição de tudo em nossa fábrica, que aliás está sempre de portas abertas para visitas.

 

Revista Óleos & Gorduras – É preciso mão de obra especializada para lidar com essa tecnologia? A FIT oferece algum suporte neste sentido?

Daniel Consalter – A medição de teor de óleo e dos ácidos graxos majoritários é automática, bastando apertar um botão. Mas, junto com a aquisição está incluso um curso de treinamento em toda instalação, garantindo que o operador use o equipamento de forma otimizada e adequada. Ao final, passamos todos os contatos para suporte. Também oferecemos cursos de reciclagem e para novas aplicações lançadas.

Caso o cliente tenha um especialista, temos um software no qual o usuário opera o equipamento como um analista, extraindo os dados e analisando como quiser. Neste caso, é como operar um cromatógrafo ou espectrômetro de massa. Também damos suporte e treinamento para os clientes neste sentido. É o caso, por exemplo, das universidades e laboratórios de análise.

 

Revista Óleos & Gorduras – Quais as próximas metas e objetivos da empresa em relação a essa tecnologia?

Daniel Consalter – Continuar apoiando os produtores de óleo de palma e outras culturas no que for necessário para levar alta tecnologia ao mercado. O objetivo é atingir também mercados internacionais como Colômbia e Ásia Central. Em parceria com a Embrapa estamos trabalhando para desenvolver cada vez mais aplicações não só para óleos e gorduras, mas também para alimentos e outros produtos. Nosso objetivo é ser referência em alta tecnologia.

 

Há um ano fazendo uso do SpecFIT Oil, Roberto Yokoyama, diretor da Denpasa Dendê do Pará S/A e diretor técnico da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (ABRAPALMA) compartilha a sua experiência

Com uma usina que tem capacidade instalada de 30 toneladas por hora de processamento de CFF (Cachos de Frutos Frescos), o que representa no ano um processamento de aproximadamente 180.000 toneladas de fruto, correspondendo um volume de 35 a 40.000 toneladas de óleo, a Denpasa há um ano adquiriu o SpecFIT Oil e viu a eficiência de extração da usina saltar de 85% a 87% para 90% a 91%, além disso, registrou rapidez na determinação dos óleos e redução de pessoal no laboratório.

 

Revista Óleos & Gorduras – A precificação do dendê trabalha com a massa do fruto e não do óleo. O que ainda falta para ocorrer essa mudança, assim como já aconteceu com a cana-de-açúcar?

Roberto Yokoyama – A Denpasa foi a empresa que aceitou o desafio de mudar essa tradição.

Mesmo utilizando o extrator Soxhlet criamos uma metodologia particular de classificação de frutos e de medição de teor de óleo de cada estágio de maturação e de cada fornecedor. Um histórico de dois anos.

O maior desafio para implementar a compra de fruto por teor de óleo foi que o método de medição via Soxhlet era demorado e de baixa precisão, principalmente pela pequena quantidade da amostra representativa e pela dificuldade de compreensão da metodologia por parte do produtor. Entendemos que a única forma de premiar os melhores produtores e promover a melhoria da cadeia produtiva era o pagamento dos frutos por teor de óleo contido no fruto, da mesma maneira que ocorre com a cana-de-açúcar. Desde 2015, a Denpasa começou a praticar o pagamento por teor de óleo.

Faltava encontrar um equipamento que fizesse a medição do teor de óleo de forma rápida, precisa e de fácil compreensão pelo produtor. Foi então, que após muita busca inclusive no exterior, que chegamos à Embrapa de São Carlos e por meio do pesquisador Colnagro conhecemos o Daniel Consalter, da SpecFit.

 

Revista Óleos & Gorduras – Conte-nos sobre a metodologia que criou para avaliar o estágio de maturação dos frutos. Como funciona e quais os benefícios que obteve?

Roberto Yokoyama – A necessidade sempre nos leva a buscar uma solução. Quando percebi que a usina extratora não dava lucro, comecei a estudar mais profundamente todo o processo de extração e o ponto crucial estava no rendimento da extração de óleo dos frutos.

O sistema funciona de maneira muito simples: de uma carga de 15 toneladas de frutos, separa-se uma amostra de uma tonelada e então é feita a seguinte classificação dos frutos: verdes, maduros, quase maduros, passados e não polinizados (para variedade híbrida). Desta maneira consegui criar, após dois anos, um histórico de teor de óleo de cada categoria. Com isso, calculava a média de cada categoria, multiplicando pela eficiência da usina, chegando ao potencial de extração da carga. Este valor foi a referência para fazermos uma justa remuneração ao produtor, premiando assim os mais eficientes. Outro benefício foi que passamos a ter o controle dos custos de extração de óleo da usina.

 

Revista Óleos & Gorduras – Como está sendo a sua experiência com o SpecFit Oil? Quais aspectos destacaria como positivos e o que ainda deve ser melhorado?

Roberto Yokoyama – Inicialmente, a finalidade era obter com rapidez a determinação do teor de óleo na amostra. O segundo objetivo era que o equipamento pudesse ler uma amostra em maior quantidade, já que no sistema tradicional a amostra representava somente 0,67% e com o SpecFIT Oil passou para 10%, ou seja, uma precisão maior pela diminuição no desvio padrão.

Com a rapidez na determinação do teor de óleo foi possível uma leitura constante do processo de extração feito pela usina. De hora em hora passou a ser feita as coletas dos pontos de geração de resíduos do processo como a fibra da prensa, cachos vazios, efluentes, borra e torta de palmiste. Esta contínua aferição possibilitou a correção imediata na regulagem dos equipamentos, melhorando dessa forma a eficiência da nossa usina.

O que estamos buscando agora é a possibilidade de leitura direta do fruto para determinar o teor de óleo. Como no fruto tem dois tipos de óleo, ou seja, o óleo de polpa e o óleo da amêndoa o desafio é maior ainda, porém estamos na expectativa dessa possibilidade.

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA ÓLEOS & GORDURAS

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