16 dez, 2019
por Daniel Geraldes
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Entrevista com Juan Diego Ferrés – traz uma nova realidade para a cadeia de gorduras animais

RenovaBio traz uma nova realidade para a cadeia de gorduras animais

A Política Nacional de Biocombustíveis apresenta um novo cenário para a cadeia de gorduras animais. Para falar sobre o assunto entrevistamos o Presidente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Juan Diego Ferrés

Por: Lia Feire

Com o objetivo de expandir a produção de biocombustíveis no Brasil, em dezembro de 2016, o Ministério de Minas e Energia (MME) criou o RenovaBio, uma Política Nacional de Biocombustíveis, instituída pela Lei nº 13.576/2017 que a partir de então criou um canal de diálogo mais próximo com o setor privado, baseado em quatro eixos estratégicos: discutir o papel dos biocombustíveis na matriz energética; promover um desenvolvimento baseado nas sustentabilidades ambiental, econômica e financeira; criar regras de comercialização e estar atento aos novos biocombustíveis.

Com o RenovaBio e o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), criado em 2004, com o objetivo de implementar de forma sustentável, tanto técnica, quanto economicamente a produção e o uso do biodiesel, com enfoque na inclusão social e no desenvolvimento regional, via geração de emprego e renda, muita coisa mudou e para melhor no cenário brasileiro como a destinação sustentável de resíduos pecuários. Em 2018, por exemplo, cerca de 650 mil toneladas de sebo foram usadas para a produção de biodiesel. De acordo com as projeções da RenovaBio, estima-se que em 2030 serão 63 milhões de animais abatidos, gerando quase 1,5 milhão de toneladas de sebo, 23kg em média por cabeça, dos quais 1,1 milhão toneladas irá para a produção de biodiesel (volume resultante do abate de 48 milhões de cabeças).

Revista Graxaria Brasileira – O RenovaBio traz uma nova realidade para o cenário do sebo bovino destinado à produção do biodiesel?

Juan Diego Ferrés – O RenovaBio baseia-se na Análise de Ciclo de Vida (ACV), que é uma metodologia com base científica, padronizada por normas técnicas internacionais, que permite a avaliação dos impactos ambientais de um produto durante todo o seu ciclo de vida. Na metodologia adotada, o sebo e todas as gorduras animais são encarados como resíduos e, por isso, apresentam uma menor pegada de carbono, resultando em vantagens para a produção de biodiesel a partir deles.

Revista Graxaria Brasileira – Quais as vantagens do uso do sebo bovino perante as outras matérias-primas para a produção do biocombustível?

Juan Diego Ferrés – A principal vantagem é o menor custo comparado aos óleos vegetais. Na maioria das vezes, o biodiesel produzido a partir do sebo apresenta uma boa estabilidade oxidativa, exigindo um pouco menos de antioxidantes.

Revista Graxaria Brasileira – Em termos de qualidade que esta matéria-prima oferece ao biodiesel, o que podemos dizer?

Juan Diego Ferrés Como eu disse na questão anterior, ele oferece uma boa estabilidade oxidativa, mas, de acordo com a legislação vigente, há uma restrição a altos teores de sebo na produção do biodiesel devido o seu elevado CFPP (Ponto de Entupimento de Filtro a Frio). O que poderia solucionar essa questão seria um aditivo específico para este problema, no entanto, nada foi desenvolvido, por isso, até o momento, a única solução é restringir o percentual de sebo no blend, aumentando proporcionalmente o biodiesel de soja.

Revista Graxaria Brasileira – Em 2018 o processamento de gorduras animais para a produção do biocombustível foi de 16,28%, quais as projeções para os próximos anos? 

Juan Diego Ferrés De acordo com a legislação, até 2023 teremos no diesel 15% de biodiesel (B15). Portanto, haverá um grande crescimento da demanda, sobretudo na hipótese concomitante de crescimento econômico, alavancando a demanda por matéria-prima que pode ser suprida mais facilmente pelas oleaginosas do que pelas gorduras animais.

Assim, como ninguém planta soja para produzir biodiesel, pois 80% de um grão de soja representa farelo proteico, enquanto apenas 20% do grão resulta em óleo; as gorduras são obtidas após o abate de animais.

A visão da Ubrabio sobre matérias-primas para o biodiesel nos próximos 10 anos é baseada em três focos: reciclagem das cadeias de proteínas animais, reciclagem de óleo de fritura e dos óleos oriundos das palmáceas perenes, como palma (dendê).

Estimamos que, em 2030, além do óleo de soja, as gorduras animais, em especial o sebo bovino, permanecerão na segunda posição de matérias-primas.

Estimativas de matérias-primas para o biodiesel (2030) com o uso do B20:

 

Matéria-Prima Total Produzido (milhões t) Biodiesel (milhões t) Participação

(%)

Óleo de Soja 18,7 11,0 73,0
Gorduras Animais 1,5 1,15 7,5
Óleo de Palma 1,4 1,10 7,3
Óleo de Fritura 0,4 0,4 2,7
Outros Materiais Graxos 0,9 0,9 6,0
Outros Óleos 0,225 0,225 1,5

 

Com políticas adequadas de incentivo, além da conscientização e educação ambiental da população, os óleos de fritura recuperados (que hoje são descartados quase que totalmente, gerando ônus para empresas de saneamento e poluindo as águas) podem ser direcionados para a produção do biodiesel, assim como os de algodão, canola, girassol, amendoim; de palmáceas como babaçu e macaúba; das gorduras de porco, de frango e de peixe; de oleaginosas potenciais como camelina, pinhão-manso e crambe; e ainda os óleos de microalgas.

Com o provável efeito do RenovaBio, a disponibilidade total de gorduras animais pode ser ainda potencializada em relação ao quadro acima e alcançar, em 2030, dois milhões de toneladas, sendo empregado desse total na produção de biodiesel algo como 1,7 milhão de toneladas.

Revista Graxaria Brasileira – Com a mistura mínima obrigatória B11 também será impulsionado o uso do sebo?

Juan Diego Ferrés Em termos absolutos sim, sem dúvida. Em termos percentuais não deverá haver muita diferença na matriz de matérias-primas.

Revista Graxaria Brasileira – Embora o sebo bovino ocupe a segunda posição de matéria-prima utilizada na produção do biocombustível, há um considerável distanciamento do primeiro colocado (óleo de soja que representa quase 70%) a que se deve este cenário?

Juan Diego Ferrés A produção de biodiesel em 2019 deverá ficar bem perto de 6 bilhões de litros ou quase 6 milhões de toneladas de matéria-prima. Para suprir esse mercado, no Brasil, a produção de mais de 120 milhões de toneladas de soja/ano é a matéria-prima natural.

Revista Graxaria Brasileira – Sobre a questão da “nota de eficiência energético ambiental” na certificação do biocombustível, qual o desempenho do sebo bovino?

Juan Diego Ferrés Primeiro, vamos esclarecer o que é essa nota de eficiência energético-ambiental presente na Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Trata-se do valor atribuído no Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, individualmente, por emissor primário, que representa a diferença entre a intensidade de carbono de seu combustível fóssil substituto e sua intensidade de carbono estabelecida no processo de certificação. A nota do diesel mineral é de 86,5 g CO2eq/MJ, enquanto o biodiesel de sebo fica em torno de 7-10 gCO2eq MJ, ou seja, 90% mais eficiente.

Revista Graxaria Brasileira – Quais as perspectivas e projeções da Ubrabio para o futuro do mercado de biodiesel?

Juan Diego Ferrés Além da perspectiva de B15 como mistura obrigatória em nível nacional em 2023, a visão da Ubrabio é que devemos continuar com a evolução gradual da mistura em 1% a.a, por intermédio de Novo Marco Regulatório a ser criado permitindo que se atinja o B20, em 2028. Assim, estimamos que em 2030 com o B20 a produção de biodiesel será da ordem de 17 bilhões de litros, ou seja, quase triplicar o volume estimado para 2019 de 6 bilhões de litros.

Fonte: PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – ED. SET/OUT 2019. PROIBIDO PUBLICAÇÃO TOTAL OU PARCIAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO.

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