17 nov, 2021
por Daniel Geraldes
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Entrevista com Ricardo Santin, Presidente da ABPA e Luis Rua, Diretor de Mercados da Associação

A força e a potência do mercado brasileiro de proteína animal

Aquele velho ditado popular de que ‘mares calmos não fazem um bom marinheiro’ pode muito bem ser trazido para a realidade do mercado brasileiro de proteína animal. O setor, nos últimos anos, enfrentou e superou crises como de insumos, em 2016, no ano seguinte foi a Operação Carne Fraca e em 2018 a Greve dos Caminhoneiros. Mas, nenhuma teve a proporção da crise sanitária mundial ocasionada pela Covid-19 e iniciada no final de 2019. Assim como tantos outros setores produtivos, o de proteína animal sofreu impactos, teve que se adaptar, adotar novos protocolos e não parou, em um grande esforço para alimentar a população brasileira e manter as exportações. Foi como trocar a roda do caminhão com ele em movimento.

A partir de um esforço conjunto entre a ABPA – Associação Brasileira de Proteína Animal, empresas, entidades filiadas, os governos Federal, Estadual e Municipal, além dos colaboradores e produtores integrados, atingiu-se o que parecia impossível: aumento da produção e das exportações. Foram obtidos novos recordes na produção de carne de frango, suína, ovos e, também, nas exportações de suínos e no consumo de ovos. Somado a isso havia um grande desafio em não descuidar da biosseguridade dos rebanhos.

Em entrevista para a Revista Ingredientes & Nutrientes, Ricardo Santin, Presidente da ABPA e Luis Rua, Diretor de Mercados da Associação falam sobre o desempenho do mercado antes e pós-pandemia, os desafios e as superações. Confira!

Revista Ingredientes & Nutrientes_Como foi o desempenho do mercado brasileiro de proteína animal em 2020?

Ricardo Santin: O ano de 2020 foi altamente desafiador, mas o setor trabalhou para não deixar faltar proteína nos pratos dos brasileiros. A produção brasileira de carne suína chegou próximo a 4,3 milhões de toneladas, representando um aumento de 8% em relação a 2019. Enquanto a produção de carne de frango atingiu 13,8 milhões de toneladas, alta de 4,2% em relação as 13,24 milhões de toneladas produzidas em 2019. Neste caso esperava-se um crescimento maior na produção, mas, por conta do aumento dos insumos, principalmente do milho, a produção perdeu um pouco a força, especialmente em peso das carcaças. Havia capacidade, mas o impacto do aumento dos custos foi sentido pelas empresas, principalmente, pelas menores e que atuam no mercado interno. A produção de ovos atingiu 53,5 bilhões de unidades em 2020, número 9,1% superior ao registrado em 2019.

As vendas internacionais de carne suína (incluindo todos os produtos, entre in natura e processados) totalizaram 1,021 milhão de toneladas nos 12 meses de 2020, número 36,1% superior ao registrado em 2019, quando foram exportadas 750,3 mil toneladas. Em carne de frango, as vendas de 2020 alcançaram 4,230 milhões de toneladas, superando em 0,4% o total embarcado em 2019, com 4,214 milhões de toneladas. Ou seja, mesmo diante de um cenário de pandemia, o setor atingiu o que parecia impossível: aumento da produção e das exportações.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Assim que teve início a pandemia quais foram as providências tomadas pela ABPA em prol do setor? Quais as principais dificuldades enfrentadas e os impactos para o mercado de proteína animal?

Ricardo Santin: A Covid-19 obviamente foi, e tem sido ainda, um desafio. Duas empresas, por exemplo, do setor informaram investimentos superiores a R$ 400 milhões para a proteção dos colaboradores e preservação do abastecimento.

A economia foi severamente impactada e houve perdas de postos de trabalho em diversos setores, com perdas também na renda média do trabalhador e em sua capacidade de compra.

Em nosso setor produtivo, entretanto, vimos um quadro mais estável.   Geramos empregos (cerca de 20 mil postos de trabalho apenas no segundo semestre) e renda, divisas e contribuímos para a diminuição dos impactos econômicos da pandemia no Brasil.

Neste contexto, foram determinantes as ações de governo para a manutenção da renda por meio de programas de auxílio à população mais afetada, assim como o apoio à manutenção das atividades essenciais, como a indústria de alimentos.

Como resultados do enfrentamento deste grave quadro de crise, avançamos no amadurecimento de estratégias ainda mais sólidas de garantia de qualidade e de abastecimento, de preservação da saúde dos trabalhadores e de fomento ao crescimento da produção de proteína animal no país.

Vimos também algumas migrações e substituições por conta de dificuldades financeiras que podem se tornar hábitos alimentares, consolidando mais ainda o consumo de proteínas como aves, suínos e ovos.

Preservar a saúde dos trabalhadores e manter o fornecimento de alimentos sempre foram o foco das ações do setor produtivo. Deste modo, uma sequência de medidas foi empregada logo no início do ano de 2020, antes mesmo do primeiro registro de Covid-19 no Brasil e de se cogitar o isolamento social.

Naquele momento, quando o conhecimento mundial sobre o vírus ainda era uma incógnita, núcleos de inteligência técnica setorial se instalaram nas entidades para aplicações de soluções imediatas, como o afastamento de trabalhadores considerados grupo de risco.

Conforme mais informações sobre a doença eram obtidas, novas medidas foram inseridas. Foi o caso das barreiras físicas entre os trabalhadores na linha de produção para evitar contato. O distanciamento também foi implantado nos refeitórios das indústrias e no transporte dos colaboradores. Para isso, foram contratadas mais frotas de ônibus, além da implantação de controles na chegada de todos os trabalhadores, treinamentos e orientações, bem como vacinação contra gripes comuns.

Nas unidades produtoras, a higienização que já era rigorosa e realizada várias vezes ao dia, foi intensificada. Álcool em gel para desinfecção das mãos foram disponibilizados por todas as áreas comuns. Medidas de busca ativa de possíveis casos positivos foram implantadas em todo o sistema produtivo. Casos suspeitos são impedidos, inclusive, de acessar o transporte, e todos os colaboradores próximos ao caso são afastados em quarentena e monitorados.

A proteção dos trabalhadores sempre foi um dos principais pontos de atenção no sistema produtivo. Com a pandemia, os cuidados foram redobrados. Além da uniformização especial para os frigoríficos, luvas, máscaras e face shields foram adotadas.

Estas são algumas das estratégias contempladas nos protocolos setoriais que o setor desenvolveu, com a validação do Hospital Albert Einstein. São medidas ainda mais restritivas que as recomendadas pelos órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e que devem permanecer enquanto for necessário, neste momento em que buscamos a superação da pandemia.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Foi declarado que no início da pandemia o setor produziu e exportou mais. Teríamos números para apresentar? Quais os tipos de proteínas que tiveram mais demandas?  Quais as razões desta alta?

Ricardo Santin: A crise sanitária de Peste Suína Africana que impactou o rebanho suíno da Ásia, de parte da Europa e da África seguiu impulsionando as exportações brasileiras, consolidando as nações asiáticas como principais importadoras das carnes de aves e de suínos do Brasil, e foram os principais vetores do resultado do ano nos dois setores.

Neste sentido, as vendas internacionais de carne de frango de 2020 alcançaram 4,231 milhões de toneladas, superando em 0,4% o total embarcado em 2019, com 4,214 milhões de toneladas. A receita em dólar das exportações do ano chegou a US$ 6,123 bilhões, desempenho 12,5% menor em relação aos 12 meses de 2019, com 6,994 bilhões.

Em carne suína, as exportações totalizaram 1,024 milhão de toneladas nos 12 meses, número 36,1% superior ao registrado em 2019, quando foram exportadas 750,3 mil toneladas. A receita cambial das vendas chegou a US$ 2,270 bilhões, resultado 42,2% maior que o alcançado em 2019, com US$ 1,597 bilhão.

Na avicultura, em 2021 o comportamento será ditado pelas altas nos custos, que podem influenciar no volume total produzido ao longo do ano; pelas oscilações cambiais, que podem ter efeito sobre os preços do setor; a manutenção da demanda chinesa por proteína animal, um quadro esperado pelos próximos três a quatro anos; e pela retomada econômica do Brasil, que deve influenciar não apenas os níveis de consumo, como também o perfil de consumo, com retomada das vendas para food service.

Tivemos neste início de ano o retorno das vendas para as Filipinas e, mais recentemente, o México sinalizou com uma nova cota para exportarmos carne de aves. Países da América do Sul também têm aumentado as compras das proteínas brasileiras e tudo isto se soma a uma redução da oferta internacional de países como os EUA, o nosso maior concorrente.

De acordo com as projeções, a produção brasileira de carne de frango poderá alcançar até 14,5 milhões de toneladas em 2021, número que superaria em 5,5% os números totais previstos para 2020. Já as exportações deverão chegar a 4,35 milhões de toneladas, superando em até 3,6% o total que deverá ser exportado pelo Brasil em 2020. No mercado interno, a disponibilidade do produto pode chegar a 10,1 milhões de toneladas (+6,5%), com consumo per capita de até 47 quilos (+4,4%).

Já na suinocultura, o resultado consolidado das exportações brasileiras de carne suína confirmam as projeções setoriais estabelecidas pela ABPA e mostram recorde de exportações, superando 1 milhão de toneladas pela primeira vez na história, reforçando o bom momento para o Brasil no mercado internacional, a despeito de um ano desafiador em todos os sentidos.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Como foi trabalhada, durante a pandemia, a questão da biossegurança em relação os rebanhos? Houve mudanças nos protocolos?

Luis Rua: Os protocolos seguiram elevados, como antes da pandemia, dentro de diretrizes altamente restritivas para a preservação do status sanitário do Brasil, tanto na avicultura, quanto na suinocultura.  Vale ressaltar que o Brasil nunca registrou Influenza Aviária em seu território, assim como não há registros de Peste Suína Africana há mais de quatro décadas.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Houve alterações nos custos de produção?

Luis Rua: Entre recordes e conquistas ao longo de 2020 e agora em 2021, o setor produtivo se deparou com outro fato inédito, muito além do anormal. Especulação e um quadro de nervosismo no mercado fizeram os custos de produção alcançarem patamares nunca vistos.

De acordo com o Índice de Custos de Produção da Embrapa Suínos e Aves, produzir frango está 43,4% mais caro em relação a abril de 2020 – que já foi um momento de forte alta de custos. O mesmo ocorre com o setor de suínos, com alta de 45,7%. Para se ter uma ideia, em alguns casos, o impacto é ainda maior.

O Paraná – maior produtor de carne de frango e terceiro principal produtor de carne suína do Brasil – registrou uma alta de cerca de 115% no preço do milho em abril; na soja, superou 50%. O milho e o farelo de soja, que são os principais componentes da ração animal, representam 70% dos custos de produção. Mas não são apenas estes os pontos de preocupação.

Outros insumos registram altas históricas, com forte pressão na indústria de alimentos – e impacto direto em nosso setor. É o caso do diesel, com alta de 30% nos preços; do papelão, com quase 70% de alta; além de embalagens rígidas e flexíveis, com elevações de preços que superam 80%.

Convocada a garantir o abastecimento de alimentos em meio à pandemia, a agroindústria de aves, de suínos e de ovos se vê frente a um quadro delicado para a sustentabilidade setorial. Os bons níveis de exportações que temos registrado ajudam a reduzir danos gerados pelo quadro crítico de custos nas empresas exportadoras. Já quem depende exclusivamente do mercado interno não pode contar com esta salvaguarda.

Do campo, as altas dos insumos já chegaram à mesa dos consumidores. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE já aponta incremento nos produtos na casa das dezenas percentuais. Estes índices, entretanto, sequer alcançam metade da alta acumulada nos custos produtivos. Os inevitáveis repasses ficarão mais notáveis nas gôndolas nos próximos meses.

Revista Ingredientes & Nutrientes – Uma mensagem para o mercado.

Ricardo Santin: Alimentar o mundo de forma sustentável é uma das nossas tarefas mais desafiadoras nas próximas décadas. A pandemia causada pela Covid-19 que enfrentamos reforça a necessidade de trabalhar pelo equilíbrio de um mundo de grandes contrastes. Trabalhamos cada vez mais as questões de sustentabilidade e inovações no nosso setor. Temos que olhar cada vez mais para o futuro, sem esquecer das nossas raízes e dos desafios presentes.

Além disso, é importante destacar que a avicultura e a suinocultura seguem firmes no propósito de colaborar com  a segurança alimentar dos brasileiros e dos mais de 150 países para os quais exportamos.

Perfil de Consumo e Panorama do Setor de Proteínas no Brasil

A ABPA encomendou e desenvolveu uma pesquisa para estudar e analisar o comportamento dos consumidores no mercado brasileiro em relação às proteínas de origem animal. Diante dos resultados verificados, é possível destacar alguns pontos importantes:

* 98,5% dos lares brasileiros consomem algum tipo de proteína animal de maneira regular.

* 96% dos lares brasileiros consomem ovos e, metade da população, quase todos os dias.

* 75% dos entrevistados identificam o ovo como um alimento rico em nutrientes e um dos mais completos na natureza, depois do leite materno.
*A carne de frango é consumida igualmente em todas as classes sociais!

* Mais de 50% da população brasileira declara ter conhecimento de que o Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo!

* 80% da população brasileira consome carne de frango no mínimo de 2 a 3 vezes por semana.

* Dentre os cortes suínos, a bisteca e a costela são os preferidos pelos brasileiros!

* A maioria da população brasileira já reconhece a carne suína como proteína saudável, devido ao rigoroso controle sanitário existente atualmente.

* Cerca de 50% dos entrevistados reconhecem a praticidade de preparo da carne suína.

* 30% da população brasileira declara ter alterado a frequência de compra de proteínas animais em decorrência da pandemia.

*Pesquisa desenvolvida pelo Centro de Assessoria e Pesquisa de Mercado (CEAP) com amostragem de 2.500 entrevistas em todas as regiões do Brasil, todas as classes sociais e diferentes faixas etárias.

Por: Lia Freire
PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA INGREDIENTES & NUTRIENTES – NUTRIÇÃO ANIMAL.
PROIBIDO A REPORDUÇÃO PARCIAL OU EXCLUSIVA SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO – GMG

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