2 mar, 2021
por Daniel Geraldes
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Entrevista Especial com Paulo Telles

“A palavra do momento é sustentabilidade”

O engenheiro mecânico e atual consultor, Paulo Telles, trabalhou por 27 anos na Alfa Laval inicialmente como engenheiro de campo para separadoras centrífugas e trocadores de calor e, posteriormente na área de engenharia dedicada a processos de óleos minerais e óleos vegetais. Projetou dezenas de refinarias, desodorizadores e outros equipamentos e processos.  Foi parte do grupo de desenvolvimento do Softcolumn, gerente da área de óleos vegetais da Alfa Laval na América do Sul, viveu na Dinamarca e na China. Em 2006 foi para a Crown Iron onde implantou e dirigiu o escritório da empresa no Brasil e trabalhou na Crown EUA até meados de 2020, quando passou a exercer a função de consultor independente. Morando atualmente em Minneapolis (EUA), Telles concedeu entrevista à Revista Óleos & Gorduras em que faz uma análise sobre o mercado brasileiro de extrações e processamentos dos grãos, óleos e gorduras vegetais, os avanços, as tendências e o futuro tecnológico. “O mercado brasileiro está totalmente atualizado e na vanguarda com relação à utilização de tecnologias, mas ainda há muito espaço para melhorias”, analisa Telles.

Revista Óleos & Gorduras – Qual a sua análise sobre as tecnologias empregadas, atualmente, nas extrações e processamentos dos grãos, óleos e gorduras vegetais no Brasil e no mundo?

Paulo Telles – Os equipamentos, processos e tecnologias utilizados no Brasil estão totalmente alinhados com o que se aplica em outras partes do mundo. Em alguns casos, estas tecnologias são ajustadas para atender certas condições de operação que são únicas para o nosso país.

O mercado brasileiro é amplo e versátil, com plantas processando diferentes tipos de matérias-primas, como soja, milho, girassol, palma, amendoim, gorduras animais etc. Estamos envolvidos com os mais diversos produtos como farelos para alimentação animal, proteínas concentradas, óleos comestíveis, além das aplicações e produtos das indústrias de energias renováveis e oleoquímica.

Revista Óleos & Gorduras – Quais os avanços que o Brasil obteve nas extrações e nos processamentos?

Paulo Telles – A indústria brasileira tem avançado no aumento de capacidade das plantas, com importantes reduções no consumo de vapor, água e energia elétrica, de perdas de processo, de produção de efluentes e na melhoria da qualidade dos produtos finais.

Revista Óleos & Gorduras – O que ainda precisa ser melhorado/aprimorado em termos tecnológicos/maquinários quando olhamos para o mercado brasileiro?

Paulo Telles – Há muito espaço para melhorias de processos. Ainda existe uma certa hesitação em investir e dispor de mais recursos financeiros na modernização das plantas. Os planos de investimentos são para longo prazo e, na maioria das vezes, tomam vários anos até que sejam feitos. Por exemplo, ainda existem plantas de processamento de soja utilizando descascamento a frio e ressecagem, extratores com alta perda de solvente, prensas que exigem manutenção frequente, refinarias produzindo efluentes com a água de lavagem e desodorizadores de bandeja e sistemas de vácuo de condensação direta. Todas estas tecnologias podem ser melhoradas com investimentos de retorno financeiro, além dos benefícios para o meio ambiente.

Revista Óleos & Gorduras – Quando falamos em tendências tecnológicas, quais seriam?

Paulo Telles – A palavra do momento é “sustentabilidade”. Simplificando a sua definição, a tendência é investir em processos que produzem menos efluentes e emissões para o meio ambiente e que consumam menos recursos da natureza. Uma planta moderna atualmente conta com processos de descascamento a quente sem ressecagem, extratores de alta eficiência com mínima perda de solvente e  consumo reduzido de vapor, água e energia elétrica, refinarias utilizando somente uma separadora, ou então, o processo enzimático, sistemas de cavitação, desodorizadores de coluna com recheio ordenado e sistemas de vácuo utilizando água gelada. Todas estas tecnologias estão disponíveis no Brasil.

Revista Óleos & Gorduras – Se pudéssemos pontuar ao longo dos últimos anos os principais marcos tecnológicos nesta área, quais seriam?

Paulo Telles – Foram vários avanços, entre eles, a utilização dos sistemas de cavitação para redução no consumo de ácido e soda nos processos de neutralização e, que também permitem a eliminação da etapa de lavagem no refino. Outro avanço foi na implementação dos processos enzimáticos e os sistemas de vácuo utilizando água gelada para redução no consumo de vapor e menor produção de efluentes. Na extração, percebe-se maior aceitação dos processos de descascamento a seco sem ressecagem e, com relação às prensas, a utilização de melhor metalurgia nos materiais de construção.

Revista Óleos & Gorduras – O mercado brasileiro está equiparado ao norte-americano em termos tecnológicos? Qual a sua percepção e análise?

Paulo Telles – O mercado brasileiro está totalmente atualizado e na vanguarda com relação à utilização de tecnologias como os processos enzimáticos e sistemas de cavitação. Por outro lado, o mercado americano é muito mais ágil na tomada de decisão para investimentos e modernização do parque industrial. Além disto, as plantas americanas contam com uma infraestrutura mais eficiente, dificilmente se vê um simples grão de soja perdido no chão e há menos operadores presentes nas plantas. Eles contam com alto grau de automação e uma operação contínua.

Revista Óleos & Gorduras – Em termos de desenvolvimento tecnológico, as inovações partem do Brasil ou as tecnologias empregas no país são importadas?

Paulo Telles – Existem várias organizações e universidades brasileiras investindo em pesquisa e desenvolvimento. Em alguns casos temos boas condições de competir com outras tecnologias – o processo de produção de SPC (proteína concentrada de soja) é um exemplo de tecnologia brasileira de sucesso, porém a maioria das tecnologias dos processos de extração e refino de óleos vegetais são importadas.

Revista Óleos & Gorduras – No Brasil há condições para desenvolvermos tais tecnologias?

Paulo Telles – Sim, o Brasil conta com recursos humanos de alta qualidade e que poderiam estar dedicados a mais desenvolvimentos, porém ainda é limitado, dificultando o investimento em infraestrutura para o desenvolvimento das tecnologias. As empresas brasileiras de equipamentos e tecnologia precisariam expandir para o mercado internacional. Neste caso, ainda há de se considerar a concorrência de empresas chinesas e indianas, que são muito competitivas em custos.

Revista Óleos & Gorduras – Qual é o futuro tecnológico para a área de processamento e extração dos grãos, óleos e gorduras vegetais?

Paulo Telles – As empresas precisam avaliar as formas sustentáveis de processamento e produção, com aumento de eficiência e reduções da pegada de carbono em toda a cadeia produtiva, de perdas e consumos, e da produção de efluentes.

Existe um foco grande em saudabilidade e melhoria de qualidade de produtos com a redução de contaminantes e aumento de vida de prateleira. No refino, a tendência é o refino físico com utilização de processos enzimáticos e sistemas de cavitação.

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