17 nov, 2021
por Daniel Geraldes
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Francisco Turra e o desafio de levar o setor de biodiesel para um novo nível de excelência

Francisco Turra e o desafio de levar o setor de biodiesel para um novo nível de excelência

No mês de junho, o ex-ministro da Agricultura, Francisco Sérgio Turra, tomou posse como presidente do Conselho de Administração da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO), assumindo o lugar de Erasmo Carlos Battistella. “Com muita honra e responsabilidade recebo a missão de presidir o Conselho de Administração da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil. O biodiesel está no centro de uma cadeia produtiva que emprega mais de 1,5 milhão de pessoas no Brasil: são agricultores familiares, produtores rurais, agroindústrias de extração de óleo vegetal, indústrias de insumos químicos, entre outros”, ressalta Turra.

Em entrevista à Revista Óleos & Gorduras, Turra destaca a potência econômica do biocombustível, elo de uma importante cadeia, que começa na plantação dos grãos, envolve a oferta de farelo e impacta positivamente a produção de proteínas, contribuindo para redução dos preços de carnes, ovos e produtos lácteos, gerando emprego, investimento e divisas para o país. “Com esforços de empreendedores, pesquisadores e autoridades, o Brasil desenvolveu uma cadeia altamente qualificada, tornando-se líder global em biocombustíveis. Isso demonstra como é possível conciliar crescimento econômico com sustentabilidade, apontando os caminhos para um futuro melhor para todos. Preservar a força do biodiesel é essencial para o Brasil trilhar um caminho seguro no rumo do desenvolvimento sustentável, reforçando sua vocação essencialmente agrícola”, ressaltou.

Revista Óleos & Gorduras – Quando e como começou a relação do senhor com a APROBIO?
Francisco Turra – Meu relacionamento com a APROBIO se deu por já ter uma amizade de longos anos com Erasmo Carlos Battistella, ex-presidente do Conselho de Administração da Associação, com quem tenho sólido relacionamento. Conheço o trabalho desenvolvido pela Associação e foi uma honra ter sido convidado para fazer parte deste grupo.

Revista Óleos & Gorduras – Como recebeu a indicação para assumir a presidência do Conselho de Administração da entidade?
Francisco Turra – É uma honra receber essa responsabilidade no atual cenário. Nos últimos 10 anos, a produção de biodiesel cresceu 169% e a capacidade instalada cresceu 96%. Vou trabalhar duro para justificar tanta confiança e cumprir o desafio de levar o setor de biodiesel para um novo nível de excelência.

Revista Óleos & Gorduras – Como foi assumir este cargo em meio a uma grave crise sanitária mundial?
Francisco Turra – Sem dúvida, o ano de 2020 foi desafiador para o setor de biodiesel. O risco epidemiológico, que ainda existe, trouxe a necessidade de revisão de procedimentos e mudanças comportamentais na realização das atividades. Foi um ano duro, mas o esforço de todos garantiu a manutenção da posição do Brasil como um dos principais produtores e consumidores de biodiesel do mundo. Em 2021, continuaram os desafios sanitários e, sendo assim, vamos permanecer trabalhando duro para manter a excelência do produto brasileiro.

Revista Óleos & Gorduras – Quais são as prioridades a serem trabalhadas na gestão do senhor?
Francisco Turra – Meu trabalho será norteado pela busca de um padrão cada vez melhor do biocombustível brasileiro. Vou trabalhar duro para cumprir o desafio de levar o setor de biodiesel para um novo nível de excelência, colocando nosso produto nas vitrines internacionais, iniciando sua inserção no exterior para mostrar ao mundo que o País está na vanguarda da sustentabilidade e da tecnologia.

Revista Óleos & Gorduras – Em uma década de trabalhos da APROBIO, quais são as principais contribuições da entidade para o setor que podemos citar?
Francisco Turra – A APROBIO celebra sua primeira década com grandes conquistas. Neste período, a Associação e o setor de biodiesel trabalham para que as metas de descarbonização brasileiras sejam atingidas. Para isso, participa ativamente das discussões de formulação e implementação de políticas públicas e marcos regulatórios do setor. E esse compromisso é a marca de 10 anos de história.
Um dos principais resultados deste trabalho se refletiu no crescimento do mercado que, há dez anos, respondia por 5% (B5) de mistura mínima ao diesel e, hoje, triplicamos esse mercado com um marco regulatório aprovado que estabelece 15% de mistura em 2023.
Esses números se traduzem em um ar melhor para as cidades e em mais emprego e desenvolvimento no campo. Somado ao ganho ambiental, o trabalho da Associação ajudou a transformar o biocombustível em uma potência econômica, elo de uma importante cadeia produtiva.

Revista Óleos & Gorduras – Quais são as “urgências” do setor e os principais desafios enfrentados pelo mercado brasileiro de biocombustível?
Francisco Turra – Neste momento, acompanhamos a aprovação de legislações em debate no Congresso sobre a ampliação da mistura de biodiesel até 20% (B20) em 2028 e a que estabelece o Programa Nacional dos Biocombustíveis Avançados. Com mais investimentos e políticas públicas, o Brasil se tornará o líder mundial do setor. Cada 1% de biodiesel que se adiciona à mistura do diesel significa milhões em investimentos e bilhões a mais para o PIB do País. Cada 1% significa empregos para milhões de brasileiros e renda para milhares de famílias. Emprego e renda que se espalham pelo interior do Brasil, beneficiando não apenas as cidades onde as usinas estão instaladas, mas todo um conjunto de municípios ao seu redor. Significa investir nos nossos pequenos e grandes produtores agrícolas, que dispõem de mais alternativas de comercialização de sua produção agrícola, multiplicando a riqueza gerada no campo, onde ela foi produzida.
Ao permitir o avanço na produção e utilização do biodiesel, investimos também no agronegócio, agregando valor às matérias-primas nacionais e incentivando o desenvolvimento de novos insumos. O setor também tem um papel importante no sustento da agricultura familiar. As usinas que têm o Selo Biocombustível Social adquirem um grande percentual de matéria-prima desses agricultores para produção de biodiesel e o setor assegura ainda capacitação e assistência técnica aos pequenos produtores brasileiros.

Revista Óleos & Gorduras – Como está a questão da agenda para a retomada do percentual de mistura de 13% do biocombustível ao diesel fóssil e 14% a partir de março de 2022?
Francisco Turra – A recente decisão de definir o percentual de biodiesel em 12% no 81º Leilão de Biodiesel (L81), já que nos leilões anteriores (79º e 80º) o percentual havia sido reduzido ao patamar de 10%, demonstra que prevaleceu no Governo Federal a visão de que o biodiesel é fundamental para uma transição energética para uma matriz mais limpa. Assim temos a reafirmação da qualidade do nosso produto e a sua importância para o desenvolvimento de uma ampla cadeia da economia que gera investimento, emprego, imposto e riqueza na indústria e no agronegócio do Brasil. Vamos continuar a trabalhar para que seja cumprido o previsto na legislação de 13% de mistura ainda este ano e 14% a partir de março de 2022.

Revista Óleos & Gorduras – Qual é hoje a realidade do mercado brasileiro de biocombustível? Quais os avanços e os entraves?
Francisco Turra – O setor de biodiesel do Brasil se consolidou como uma potência econômica e se transformou em um dos alicerces do nosso agronegócio mobilizando uma extensa cadeia produtiva, que envolve a produção de grãos e de proteína animal. A cadeia produtiva do biodiesel emprega mais de 1,5 milhão de pessoas e já investiu mais de R$ 9 bilhões no País. O compromisso do Brasil em atingir a redução das emissões de gases de efeito estufa em até 43% até 2030 coloca o biodiesel como uma das melhores estratégias para atingir esse objetivo.

Revista Óleos & Gorduras – Qual é a representatividade do biodiesel para a matriz energética brasileira? E qual é a importância para a economia?
Francisco Turra – Nossa matriz energética e de transporte é uma das mais limpas do mundo. Cerca de 25% do combustível que utilizamos é proveniente de fontes renováveis, sendo que o biodiesel representa 5% da matriz. A meta do Governo Federal é chegar a 2030 com uma participação de 30%.
O biodiesel é a verdadeira solução para a transição energética de baixo carbono. O Brasil possui um potencial gigantesco para evoluir ainda mais na utilização de biocombustíveis e garantir a transição energética de forma segura. Neste cenário, temos condição de explorar o nosso potencial em gerar energia a partir da biomassa e a capacidade única de aumentar a produção de biocombustíveis em conjunto com a produção de alimentos em bases ambientalmente sustentáveis. O horizonte está repleto de possibilidades de crescimento com biocombustíveis de primeira e segunda gerações, movendo toda essa força da economia nacional e do agronegócio.

Revista Óleos & Gorduras – Nas questões socioambientais, o que podemos dizer sobre a representatividade do biodiesel?
Francisco Turra – Cada vez mais as empresas buscam inovação e avanços tecnológicos com viés das melhores práticas ambientais, sociais e de governança, com o modelo de governança e sustentabilidade. Com essa agenda e frequentes anúncios de compromissos de grandes corporações com carbono neutro ou emissão zero, as estratégias estão se refletindo diretamente na prática organizacional.
Nada mais lógico de ter o biodiesel como um dos protagonistas já que o produto é uma fonte de energia limpa e renovável, que contribui na minimização do efeito estufa. Observando o ciclo de vida, ou seja, as emissões associadas ao processo de produção e queima do biodiesel, estima-se que o biocombustível reduz as emissões líquidas de dióxido de carbono em cerca de 80%.
Em cerca de 15 anos, foram evitadas a emissão de cerca de 95 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, o que equivaleria ao plantio de mais de 681 milhões de árvores em uma área de 408 mil campos de futebol.
Do ponto de vista social, no ano passado, 98,4% do volume comercializado de biodiesel veio de usinas com Selo Biocombustível Social, que adquiriram da agricultura familiar quase R$ 6 bilhões em matéria-prima, um aumento de 29% frente aos números de 2019. Para atingir essa marca foram contratadas mais de 74 mil famílias, um crescimento de 25% frente a 2019.

Revista Óleos & Gorduras – Em relação à capacidade produtiva e negócios gerados pelo mercado brasileiro, qual o cenário atual?
Francisco Turra – A capacidade de produção autorizada já chega a 11,2 milhões de metros cúbicos, o que representa 18% do consumo de diesel do País. E vamos continuar investindo para ampliar nossa contribuição na descarbonização do Brasil.

Revista Óleos & Gorduras – Como foi o ano de 2020 para o segmento de biodiesel? E como estão sendo estes sete primeiros meses de 2021 para o setor?
Francisco Turra – De 2019 para 2020, a produção de biodiesel cresceu 8,7%, para 6,4 milhões de metros cúbicos, e a capacidade de produção, 9,4% (9,4 milhões de metros cúbicos). O faturamento do setor em 2020 foi de R$ 26,2 bilhões, crescimento de 67,56%. Importante destacar que 98,4% do volume comercializado de biodiesel veio de usinas com Selo Biocombustível Social.
Este ano continua a ser desafiador, mas o mercado vem demonstrando, de forma consistente, que possui plenas condições de suprir a demanda para a mistura planejada, ou seja, B13. Voltamos a ter novos projetos em execução, ampliações e reativações de unidades, já atingindo uma capacidade autorizada de 11,2 milhões de metros cúbicos, pavimentando a preparação plena do setor para o B14 em março de 2022, e sua continuidade.

Revista Óleos & Gorduras – Temos políticas públicas de estímulo à produção? Qual é a análise do senhor?
Francisco Turra – Temos uma história rica com biocombustíveis, que estão presentes no País desde a década de 70. O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel permitiu o avanço na descarbonização do transporte de cargas. É uma história de sucesso, construída em parceria entre o setor privado e o governo. Hoje o Brasil é uma referência mundial em produção de energia sustentável e a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), um exemplo para muitos países, que avança sobre uma agenda empresarial positiva, que incentiva a eficiência e valoriza os investimentos em tecnologias limpas.

Revista Óleos & Gorduras – Sobre a qualidade do biocombustível produzido no Brasil, o que pode ser dito? Como era este cenário antes da criação do Selo APROBIO de Qualidade – Biodiesel Super A?
Francisco Turra – Desde a criação do Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel foram realizados amplos planos de estudos, testes e ensaios conduzidos pelos Ministérios de Ciência e Tecnologia e de Minas e Energia. O objetivo sempre foi garantir que o biodiesel chegasse ao mercado com um alto padrão de qualidade. Nosso controle de qualidade é rigoroso e permanente. A consequência desse trabalho é um biodiesel brasileiro com uma das especificações mais exigentes do mundo.
Lançamos recentemente o “Selo APROBIO de Qualidade – Biodiesel Super A”. Nosso objetivo é ampliar a transparência ao mercado com auditoria de produto realizada por empresa certificadora externa de reconhecimento internacional e, assim, confirmar a adoção pelas usinas associadas das especificações mais rígidas, definidas pelo Comitê Técnico e aprovadas no Conselho da APROBIO, e as boas práticas definidas pela APROBIO e sugeridas à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Revista Óleos & Gorduras – O uso da soja ainda é predominante na produção do biodiesel? Quais são as outras opções que despontam como boas alternativas de fontes para a produção? Em termos de pesquisas científicas relacionadas ao biocombustível como o Brasil está posicionado?
Francisco Turra – Atualmente, a principal matéria-prima do biodiesel é a soja, cujo óleo responde por quase 70% da produção no país, seguido pelas gorduras animais, que respondem por cerca de 14%. Dendê, óleo do caroço de algodão, óleo de fritura usado, macaúba, canola, girassol, milho, resíduos agrícolas e até lixo também são matérias-primas de diferentes tipos de biocombustíveis produzidos no Brasil.
A pesquisa científica, feita por instituições públicas ou privadas, é fundamental para identificar novas matérias-primas e desenvolver tecnologias para cultivo, extração, aproveitamento de coprodutos, reaproveitamento de resíduos e para melhorar a produtividade e a qualidade nos processos já em uso.
Estes desenvolvimentos são projetos de longo prazo e a APROBIO entende que o fomento para o desenvolvimento de novas cadeias produtivas deva ser uma iniciativa governamental, pois necessita de uma coordenação multiministerial e de investimentos que não podem ser absorvidos pela iniciativa privada.

Revista Óleos & Gorduras – Qual é o futuro do mercado brasileiro de biodiesel? Quais as projeções ainda para este ano e para o próximo?
Francisco Turra – É importante mencionar que quando tratamos de biocombustíveis, estamos vivendo o auge da primeira onda, com o etanol e o biodiesel como protagonistas, e temos a expectativa de avançar a mistura do biodiesel até pelo menos os 20%. O processo de descarbonização do transporte deve avançar ainda mais e os produtos chamados de segunda onda ou biocombustíveis avançados envolvem o que há de mais avançado em biotecnologia. O diesel renovável – HVO (sigla em inglês para Hydrotreated Vegetable Oil) e o querosene de aviação alternativo – SPK (Synthetic Paraffinic Kerosine – pode ser utilizado misturado ao querosene de aviação) são biocombustíveis avançados produzidos a partir de resíduos de gordura animal, óleos de cozinha usados, bem como óleos vegetais.
Com esforços de empreendedores, pesquisadores e autoridades, o Brasil desenvolveu uma cadeia altamente qualificada, tornando-se líder global em biocombustíveis. Isso demonstra como é possível conciliar crescimento econômico com sustentabilidade, apontando os caminhos para um futuro melhor para todos. Preservar a força do biodiesel é essencial para o Brasil trilhar um caminho seguro no rumo do desenvolvimento sustentável, reforçando sua vocação essencialmente agrícola.

Revista Óleos & Gorduras – Que mensagem a APROBIO deixa para o mercado?
Francisco Turra – Seguimos de forma firme. Os biocombustíveis viabilizam uma oferta de energia cada vez mais sustentável, competitiva e segura. Uma longa e poderosa jornada foi percorrida por todos nós da APROBIO para levar o biodiesel a um patamar de patrimônio nacional. Mas estamos de olho cada vez mais no legado que vamos deixar para o futuro.

Por: Lia Freire
PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA ÓLEOS & GORDURAS
PROIBIDO A REPRODUÇÃO PARCIAL OU EXCLUSIVA SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO

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