14 jun, 2019
por Daniel Geraldes
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Gerardo Morantes – Segurança Alimentar

Os inúmeros desafios da Segurança Alimentar

 A conscientização de toda a cadeia produtiva é o primeiro desafio e deve ser prioridade absoluta na questão da Segurança Alimentar

Por: Lia Freire

A contaminação alimentar coloca todas as pessoas do planeta em risco. É preocupante saber que nada menos que 25% das culturas agrícolas em todo o mundo estão contaminadas com micotoxinas. Nos seres humanos, causam nanismo infantil e câncer de fígado. Nos animais, prejudicam a saúde e baixam a produtividade para os criadores, pois consumem menos ração, ganham menos peso, morrem mais e mais cedo e consequentemente se reproduzem menos. Assim, a redução do desperdício causada pela perda dos grãos contaminados é uma das principais vias para solucionar a demanda crescente por alimentos no mundo.

Ao lado das micotoxinas, as bactérias são os outros agentes infecciosos mais críticos da atualidade. Em apenas dezoito minutos uma nova geração de bactérias do gênero pode se desenvolver, por isso é o tipo de infecção bacteriana que vem crescendo rapidamente no mundo, matando centenas de milhares de pessoas todos os anos.

Uma outra grave questão que ameaça a Segurança Alimentar é a crescente resistência dos micróbios e bactérias. Há um histórico de produção de antibióticos para a promoção de crescimento que criou outro grave problema, as bactérias super-resistentes. “A Resistência Antimicrobiana e Antibacteriana (RAM) é o maior desafio global em Segurança Alimentar. China, Brasil e EUA são países onde os antibióticos são usados em enormes quantidades na produção animal, como promotores de crescimento. Em muitos países essa prática vem sendo banida, como na União Europeia (UE) e mais recentemente nos EUA”, declara Gerardo Morantes, Diretor de Segurança Alimentar na Bühler América do Norte. Nutricionista e PHD em Segurança Alimentar, Gerardo tem 25 anos de experiência na indústria alimentícia, com destaque para rações, pet food, grãos e oleaginosas e vem interagindo, no mundo inteiro, com clientes da Bühler em toda a vasta cadeia de insumos e produtos acabados sobre o desenvolvimento tecnológico em Segurança Alimentar.

Basicamente são três as principais fontes de contaminação: colheitas contaminadas por esporos de fungos e bactérias de aves e excrementos de animais no campo; alimentação dos animais; sanitariedade das instalações e manuseio ao longo do processo. Tudo isso para evitar riscos de surtos de doenças nos animais e nos seres humanos. Ou seja, a fábrica de ração é um lugar em que também deve ser priorizada a segurança nutricional. É hora de agir com uma abordagem ampla: ração segura é o ponto de partida. O processamento de rações com inativação de bactérias nocivas e alto índice higiênico é a chave para animais saudáveis. E alimento humano seguro significa ter uma base vegetal e proteica animal mais saudável. “O grande desafio da Segurança Alimentar não pode ser tratado de forma isolada em um ponto da cadeia de cultivo e processamento. Precisa de uma abordagem abrangente como resultado de um esforço conjunto. A tendência é que a humanidade possa evoluir resgatando um princípio milenar: a ração vira alimento e alimento vira remédio, inspirado na frase atribuída a Hipócrates, considerado o pai da medicina”, afirma Gerardo, que concedeu a seguinte entrevista:

Revista Pet Food Brasil – Hoje em dia, quais são os principais desafios relacionados à Segurança Alimentar industrial?

Gerardo Morantes – O primeiro desafio é educacional: a conscientização de toda a cadeia produtiva para que a Segurança Alimentar seja uma prioridade absoluta na produção de alimentos para o consumo humano e por animais de estimação. O segundo e terceiro são barreiras científicas a serem superadas: a resistência crescente das bactérias aos antibióticos e o combate às micotoxinas que são agentes contaminantes muito comuns nas colheitas em geral.
 

Revista Pet Food Brasil – Como é possível combater estes desafios?

Gerardo Morantes – Combatê-los requer um esforço de comunicação técnica e não-técnica ao nível de colaboradores e clientes, organizações governamentais (reguladores) e demais influenciadores de opinião. A Bühler tem um compromisso com a sustentabilidade da produção de alimentos e Segurança Alimentar no planeta. Um dos grandes objetivos da nossa estratégia envolve a educação, o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, além de parcerias com clientes, universidades e organizações governamentais.

Revista Pet Food Brasil – Quais são as principais fontes de contaminação?

Gerardo Morantes – As principais fontes de contaminação estão ligadas aos processos envolvidos na cadeia de produção. Começa com a produção agrícola, as colheitas e, principalmente, o manuseio de seus subprodutos. Igualmente, os subprodutos da produção animal, quando utilizados na fabricação de alimentos, contribuem para elevar os riscos de contaminação.

Revista Pet Food Brasil –  Atualmente, quais são os agentes infecciosos mais críticos?

Gerardo Morantes As bactérias como a Salmonela, Listeria monocytogenes e E. coli constituem os agentes mais comuns envolvidos com “recalls” e incidentes na cadeia alimentícia mundial. Também as viroses constituem a maior causa de problemas gastrointestinais em humanos. Referente aos animais, o vírus da diarreia suína e agora o vírus africano da febre suína tem aumentado o nível de alerta para com os ingredientes das rações, os quais são veículos ideais para a transmissão dos vírus.


Revista Pet Food Brasil – Sob quais aspectos houve importantes evoluções?

Gerardo Morantes A principal e mais importante evolução é a conscientização dos consumidores sobre os perigos da contaminação alimentar e as consequências aos produtores caso não tomem as devidas ações. A pressão das associações de consumidores resultou em avanços importantes para a padronização da avaliação da Segurança Alimentar na cadeia alimentícia. O GFSI (Global Food Safety Initiative) e os sistemas de certificação como a FSCC22000, BRC, SQF e outros são, atualmente, referências concretas na relação de fornecedores da indústria de alimentos. Além disso, a influência das agências reguladoras tem motivado a indústria alimentícia a evoluir. Um grande exemplo é a nova legislação para Segurança Alimentar dos Estados Unidos (FSMA), uma renovação de leis não vista em 70 anos.

Do ponto de vista da tecnologia, há avanços muito importantes nas áreas de: 1) descontaminação bacteriana, especialmente em produtos de baixa umidade, 2) seleção ótica de grãos e outros materiais contaminados com fungos, que podem assegurar uma diminuição significativa das micotoxinas, e 3) a revolução digital (Internet das Coisas), contribuindo para a utilização mais efetiva dos dados de operação, permitindo melhor controle de equipamentos durante os processos críticos, os quais precisam de uma operação precisa para assegurar a descontaminação dos alimentos.

 

Revista Pet Food Brasil – No Brasil a cadeia produtiva tem consciência sobre a importância da Segurança Alimentar? Como analisa essa questão?

Gerardo Morantes A cadeia produtiva do Brasil como outras do mundo, hoje tem consciência da importância da Segurança Alimentar. Igualmente o câmbio cultural requerido para a implementação efetiva das políticas e programas de Segurança Alimentar que é um processo longo, além de ser algumas vezes doloroso e custoso (Market Recalls). A mudança de mentalidade e atitude é central para o progresso da implementação da Segurança Alimentar na indústria.

 

Revista Pet Food Brasil – Em relação às inovações tecnológicas voltadas para a Segurança Alimentar o que pode ser dito?

Gerardo Morantes A utilização de processos térmicos para controlar a contaminação bacteriana dos ingredientes e produtos finais tem sido a principal fonte de inovações nos últimos anos. Entretanto há inovações em outros campos também. Por exemplo, a Bühler vem desenvolvendo uma tecnologia para reduzir a contaminação dos produtos com baixo conteúdo de umidade, aplicando ionização a partir de eletricidade. Os objetivos desse desenvolvimento são obter efetividade do processo (kill step), preservar o conteúdo nutricional do alimento e obter custos de operação viáveis economicamente.

 

Revista Pet Food Brasil – Os protocolos relacionados à Segurança Alimentar na cadeia produtiva estão mais rigorosos?

Gerardo Morantes Em todo o mundo, estima-se que 25% das culturas agrícolas estão contaminadas com micotoxinas. É um dado alarmante, não? O que esta informação nos revela? Esta informação revela que o problema da contaminação das colheitas de grãos com fungos e micotoxinas é uma ameaça não somente toxicológica, mas também uma ameaça sobre a disponibilidade global de alimentos para o consumo humano e animal. Um problema de Segurança Alimentar. Essa análise torna-se ainda mais grave quando se percebe que os dados estão defasados: a estimativa foi realizada pelo Conselho das Ciências Agrícolas e Tecnológicas dos Estados Unidos em 2004. Provavelmente os níveis de contaminação sejam maiores hoje.

 

Revista Pet Food Brasil – Como você analisa a questão do uso dos antibióticos na produção animal?

Gerardo Morantes A utilização abusiva de antibióticos na produção animal e tratamentos de saúde humana contribuíram para um maior número de bactérias patogênicas resistentes a antibióticos.

Esta “resistência antimicrobiana” é um perigo que poderá causar até 10 milhões de mortes por ano e mais de $100 trilhões de dólares em perdas para a economia global em 2050, de acordo com alguns estudos. Além dos riscos relacionados com a saúde pública, haveria implicações para a disponibilidade de alimentos e o bem-estar econômico de milhões de agricultores em todo mundo.

 

Revista Pet Food Brasil – Há novidades em relação às ações regulatórias para a Segurança Alimentar?

Gerardo Morantes A maior novidade na área regulatória é a nova lei de Segurança Alimentar nos Estados Unidos da América, a FSMA (Ato de Modernização da Segurança Alimentar), que já e considerada a maior reforma das leis de Segurança dos Alimentos em 70 anos.

O objetivo dela é assegurar que a cadeia produtora de alimentos dos Estados Unidos seja segura. As regulações federais mudaram de foco: antes reagiam às contaminações; agora previnem as contaminações. Também, pela a primeira vez na história norte-americana, a nutrição animal começa a ser fortemente fiscalizada. Isto significa que qualquer empresa exportadora de alimentos ou ingredientes para alimentos para os EUA terá que investir em mais controle e monitoramento para cumprir essas regras. Finalmente, a tendência é que o mundo todo siga pelo mesmo caminho de rigor regulatório.

 

Revista Pet Food Brasil – Especialmente na indústria de rações como o senhor analisa a questão da Segurança Alimentar?

Gerardo Morantes A prática demonstra que é preciso atuar em toda a cadeia produtiva desde a colheita agrícola, passando pelo manuseio e processamento das matérias-primas, controlando o processo de industrialização, garantido a higienização até o empacotamento e, finalmente, assegurando a qualidade da estocagem, transporte e distribuição até o consumidor final. Ou seja, só é possível combater os problemas de Segurança Alimentar com uma abordagem holística, focando em prevenção.

 

Revista Pet Food Brasil – Nos sistemas produtivos voltados à nutrição animal encontramos o mesmo rigor que na humana?

Gerardo Morantes De acordo com as diretrizes do FSMA, somente a indústria de pet food (animais de estimação) deve seguir o mesmo rigor que a indústria de produtos e serviços de alimentação humana. A lógica por trás dessa regulamentação é o fato de que crianças e pessoas da terceira idade podem ingerir acidentalmente esses produtos, sendo esses grupos mais suscetíveis aos perigos relacionados com a contaminação alimentar. As rações para os animais de criação, como galinhas, porcos e peixes, possuem níveis maiores de tolerância a contaminantes. Entretanto, essa tolerância não pode comprometer a qualidade dos produtos de consumo humano, como leite, carnes e ovos. Nessa área, a tendência é também de mudança, uma vez que as evoluções regulatórias estão educando os compradores destes alimentos a exigir que as rações consumidas pelos animais tenham níveis mínimos de contaminantes.

 

Revista Pet Food Brasil – Qual a mensagem para o mercado brasileiro?

Gerardo Morantes A mensagem para o mercado brasileiro é que a tecnologia e a inovação na produção de alimentos e rações têm avançado muito mundialmente. Igualmente, as regulações para responder às exigências dos consumidores têm evoluído de uma maneira significativa, as quais não podem ser ignoradas. O grande desafio da Segurança Alimentar é que ela não pode ser tratada de forma isolada, em um ponto da cadeia de cultivo e ou de processamento apenas. Precisa de uma abordagem abrangente e de um esforço conjunto. A necessidade de um comércio global não deixa espaço para ignorar essas regras. As demandas dos participantes da cadeia alimentícia podem ser muitas e variadas. Mas a tecnologia disponível e os sistemas de Segurança Alimentar, que podem ser implementados nas fábricas de alimentos e rações, permitirão alcançar uma qualidade e segurança de nível mundial!

Como manter padrões sanitários elevados para que a indústria de ração possa continuar competitiva

Tal cenário exige que o esforço de prevenção de contaminação já na origem da produção e ao longo de toda a cadeia produtiva seja a prioridade número um. A prática demonstra que é preciso atuar em toda a cadeia de valor, desde a collheita agrícola, passando pelo manuseio e processamento da matéria-prima ao longo do processo integral de industrialização, com higinienização até o empacotamento e ainda garantia de controle de qualidade no estoque, transporte e distribuição até o consumidor final. Ou seja, só é possível combater os problemas de Segurança Alimentar com uma abordagem holística e foco na prevenção.

Os principais passos para garantir a Segurança Alimentar na industrialização são: controle de micotoxinas, remoção de material estranho, validação e monitoramento de processos; redução microbiológica por meio de tecnologias termais e não termais, equipamento higienicamente projetado, controle de contaminação cruzada e sistema de advertência antecipada na logística de distribuição (envolvendo transporte e estoque entre o varejo e o consumo final).

Atualmente, já existem várias tecnologias disponíveis que devem ser combinadas ao longo da cadeia de valor. Mas acima de tudo, entre os principais direcionadores estratégicos para ampliar a Segurança Alimentar, alertamos que o primeiro passo é a boa e velha educação com a conscientização de todos os agentes envolvidos nos sistemas produtivos para que a nutrição animal passe a ter o mesmo rigor de sanitariedade que a humana.

Entrevista Exclusiva Revista Pet Food – Edição Nov/Dez 2018

 

 

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