29 jul, 2018
por Daniel Geraldes
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Mamona para alimentar animais?

Pesquisa genética “desliga” genes específicos e torna produto utilizável.

Cientistas conseguiram resolver um dos maiores desafios para o uso da mamona (Ricinus communisL.) na alimentação animal: o desenvolvimento de uma mamona sem ricina, uma das substâncias mais tóxicas conhecidas, que chega a ser citada na Convenção Internacional para Proibição de Armas Químicas.

Os pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) desenvolveram a variedade e preveem que o novo material deve demorar, no mínimo, quatro anos para estar disponível no mercado.

A ricina, proteína presente na semente da planta, inviabiliza o uso da torta de mamona, subproduto do processamento do óleo de mamona, na alimentação animal. A substância também apresenta riscos de intoxicação durante o processo de obtenção do óleo, produto valorizado na indústria por sua alta qualidade e empregado em cosméticos, tintas, lubrificantes e vários outros produtos.

Por isso, mesmo sendo potencialmente interessante para a alimentação animal, a torta de mamona passou a ser descartada pelos produtores rurais por causa da substância tóxica que é encontrada exclusivamente no endosperma (tecido de armazenamento de nutrientes) das sementes da planta.

plantacao mamona-reproducao

Silenciamento gênico
Na pesquisa conduzida pela equipe do pesquisador Francisco Aragão foram geradas mamoneiras sem a presença de ricina por meio de silenciamento gênico, técnica que permite “desligar” genes específicos.

As proteínas das sementes foram usadas em experimentos com ratos em uma quantidade de 15 a 230 vezes os valores da dose letal mediana (DL50), suficiente para matar metade da população dos animais pesquisados.

Como resultado, todo o grupo sobreviveu sem sequelas. “Uma vez incorporado, esse resultado promoverá grandes impactos econômicos na cadeia produtiva da mamona e da produção animal, com inserção estratégica e competitiva na bioeconomia”, acredita Aragão.

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O teor de óleo na semente de mamona varia de 40% a 43%. Após a extração do óleo, a torta resultante é utilizada como fertilizante orgânico, com baixo valor no mercado. A torta de mamona sem ricina poderá ser utilizada na formulação de rações animais, elevando, assim, seu valor de mercado (Foto: divulgação/Saulo Coelho)

Mercado promissor
Considerando a produção nacional estimada para a safra de 2017/2018 de 16,2 mil toneladas de bagas de mamona e que a torta representa cerca de 60% desse montante, a produção de torta da oleaginosa poderá ser de 9.720 toneladas para o aproveitamento na alimentação animal. Além do Brasil, a tecnologia tem potencial para ser empregada em outros países produtores de mamona, com destaque para Estados Unidos, Índia e China.

Próximos passos
Para que a mamona sem ricina chegue ao mercado, há diversas etapas a serem percorridas. O próximo passo deverá ser a associação da Embrapa com empresa privada para incorporar a característica genética em cultivares de interesse comercial. Após essa fase, a ser desenvolvida em laboratórios e casas-de-vegetação, será iniciada a etapa de experimentos em campo, para determinação dos parâmetros necessários para o registro dessas novas cultivares no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Em seguida, será necessário preparar o processo para aprovação pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). “Para percorrer todo esse caminho, o lançamento comercial da mamona sem ricina deverá demorar entre quatro a cinco anos, prazo necessário para cumprir todas as exigências da legislação brasileira”, prevê o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José Manuel Cabral.

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), os principais países produtores de mamona são a Índia (74%), China (13%), o Brasil (6,1%) e Moçambique (2,5%). Os maiores consumidores são China, Estados Unidos, França, Alemanha e Japão.

Fonte: Embrapa

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