2 nov, 2020
por Daniel Geraldes
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O atual cenário do mercado de óleos e gorduras e o futuro pós-pandemia

O atual cenário do mercado de óleos e gorduras e o futuro pós-pandemia

O reflexos causados pela crise mundial sanitária do novo Coronavírus no mercado brasileiro de óleos e gorduras vegetais, as oportunidades, desafios e as expectativas daqui em diante, segundo Smyllei Curcio, Consultor em Gerenciamento de Risco de Grãos/Óleos/Gorduras da Stonex, empresa com  12 escritórios espalhados pelo Brasil, que tem como propósito auxiliar os clientes a superarem crises e se anteciparem aos movimentos do mercado.

Revista Óleos & Gorduras – Até a chegada da pandemia, como o mercado brasileiro de óleos e gorduras vinha se comportando em termos de produção e consumo?

Smyllei Curcio – Em relação à produção, o Brasil é uma referência em óleo de soja, que é de longe o principal óleo vegetal do nosso país. Com o crescimento do biodiesel o mercado começou a se mobilizar ampliando esmagamentos e investindo cada vez mais na eficiência das plantas. Em relação ao consumo, seguia aquecido e somente no setor de biodiesel, segundo as estimativas da Stonex, o crescimento foi mais de 13.2% entre os meses de janeiro, fevereiro e março. No setor alimentício o crescimento, em geral, vinha tímido, mas não havia retração.

Revista Óleos & Gorduras – Quais os setores que estavam se destacando?

Smyllei Curcio – Novamente destaco o óleo de soja com uma safra de mais de 120 milhões de toneladas em janeiro de 2020, enquanto o segmento de sebo teve um desempenho inferior com a queda nos abates na virada de 2019 para 2020, que segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) recuou mais de 13%.

Em termos de mercado, o biodiesel, como falei anteriormente, teve um ótimo desempenho, com o aumento na demanda de matérias-primas de 13.2%, fazendo com que o consumo de óleo de soja atingisse 16.2% nos três primeiros meses de 2020 comparados com o mesmo período de 2019. Lembrando que embora no mês de março tenha iniciado a pandemia no Brasil, registrávamos o primeiro mês de consumo do B12 (12% de mistura de biodiesel no diesel).

 

Revista Óleos & Gorduras – Qual é o cenário atual com os reflexos da crise sanitária?

Smyllei Curcio – O cenário atual mudou bastante. No início da pandemia ninguém tinha a mínima ideia do que iria acontecer e a queda na demanda foi enorme. Quem trabalhava com exportação aproveitou a depreciação do nosso câmbio e exportou o máximo que conseguia. Porém, esse movimento no início da crise acabou criando o cenário de hoje, já que a demanda tem voltado aos poucos e temos visto uma oferta “apertada”, tanto de soja quanto do óleo de soja. Em relação ao sebo, o problema ainda está na redução expressiva de abates, que tem diminuído ainda mais a disponibilidade da matéria-prima.

Revista Óleos & Gorduras – E os impactos para o mercado brasileiro?

Smyllei Curcio – – O mercado tende a se ajustar, mas de imediato grande parte do volume que deveria ser consumido internamente foi para mercado externo e uma parte da demanda de biodiesel foi “destruída” com as paralisações do setor (abril e maio as vendas de diesel caíram em 11.5%). Mas, a colheita de soja, de cana-de- açúcar, a necessidade de abastecimento e o aumento do comércio on-line ajudaram o setor e minimizaram os efeitos. O mercado que mais sofreu, com certeza, foi o de food service, com lanchonetes e restaurantes fechados a demanda caiu com uma intensidade muito maior. Nas nossas estimativas, o consumo recuou 300 mil toneladas somente na categoria de óleo de soja no primeiro semestre de 2020, contra o mesmo período de 2019. Com a abertura gradual a demanda tem voltado e o setor do biodiesel tem surpreendido, com o mês de julho batendo o recorde histórico de produção no Brasil, isso graças ao consumo de diesel que também foi recorde para o mês. O aumento do câmbio (44.6% de janeiro a maio) também acabou inflacionando os preços de matérias-primas internamente (graças às exportações), prejudicando ainda mais o segmento de alimentos, que tem dificuldades em repassar os aumentos para os consumidores. O setor alimentício tem sofrido bastante com esses aumentos expressivos de preços, mas na verdade é que para o produtor o cenário é muito positivo.

Revista Óleos & Gorduras – A crise trouxe novas oportunidades de negócios para o mercado de óleos e gorduras?

Smyllei CurcioAté certo ponto os produtores se beneficiaram com a valorização dos preços em reais, mesmo com a queda na demanda. Lembrando que quase 90% do consumo de óleos e gorduras produzidos no Brasil são consumidos internamente e mesmo quem exporta, que se beneficiou com o aumento cambial, encontrou dificuldades, já que dificilmente destina 100% do volume para o exterior. Ainda assim, a movimentação no mês de junho fez atingirmos 277 mil toneladas de óleo de soja bruto e degomado para exportação, maior volume registrado desde 2014. De janeiro a agosto o volume exportado atingiu 995 mil toneladas (140 mil toneladas a mais do que no mesmo período de 2019). O setor que mais se beneficiou com certeza foi o exportador, já que a depreciação da nossa moeda foi uma grande oportunidade para quem exporta e com o mercado interno incerto no período de pandemia, alguns players (inclusive quem nunca havia exportado) iniciaram o envio de matéria-prima para o exterior.

Revista Óleos & Gorduras – Quais as tendências que observamos para as áreas de óleos e gorduras vegetais?

Smyllei Curcio – A tendência do mercado é se consolidar cada vez mais, principalmente em virtude do setor de biodiesel. Hoje, com uma expectativa de demanda crescendo 10% ao ano (B13/B14 e B15 nos próximos 3 anos) o mercado produtor já tem investido e trabalhado para crescer junto com a demanda. Para se ter uma ideia, nas nossas estimativas hoje 21 milhões de toneladas de soja precisam ser esmagadas para suprir a demanda somente do setor de biodiesel, isso é quase 50% do volume total esmagado. No mercado de sebo já estamos falando de praticamente metade do volume produzido (610 mil toneladas nas nossas estimativas) vai para o consumo do biocombustível. Enfim, é uma demanda crescente e já esperada. Graças a essas mudanças, o mercado tem se antecipado nos movimentos e estratégias e cada vez mais utilizado hedge (as operações de hedge são realizadas por investidores e empresas em geral para se proteger contra os riscos de variações negativas nos preços de seus ativos) para se proteger. Lá fora o momento não é diferente, o setor de biodiesel e diesel renovável HVO (sigla em inglês para óleo vegetal hidrogenado) cresce a passos largos, puxado principalmente pela Europa, mas também EUA e Indonésia, todos esses com planos ambiciosos de crescimento de consumo do biocombustível para os próximos anos.

Revista Óleos & Gorduras – Especialmente sobre o consumo e produção de biodiesel, o que podemos dizer sobre o desempenho antes e pós-pandemia?

Smyllei CurcioDe janeiro a agosto deste ano o volume total produzido cresceu mais de 11%. Nas nossas estimativas no período de setembro a dezembro o Brasil deveria consumir algo em torno de 2.1 a 2.3 milhões de metros cúbicos, muito próximo ao consumido no mesmo período de 2019 ainda em B11 (2.1 milhões de m³ entregues pelos produtores), mas graças a escassez de matéria-prima no Brasil esse número vai ser revisado, nos meses de setembro e outubro o leilão 75 já trouxe novamente o B10 e para novembro e dezembro dificilmente conseguiremos atingir a mistura de B12. Outro ponto é que a recuperação no consumo de diesel está muito forte e isso tem deixado as distribuidoras mais ativas nos leilões, consequentemente apertando ainda mais a demanda.

Revista Óleos & Gorduras – Qual a projeção para a recuperação do mercado?

Smyllei CurcioO mercado já está se recuperando, principalmente o setor de biodiesel. O último leilão foi o maior da história em volume e preço. Já o mercado alimentício nós só enxergamos uma recuperação em 2021, se a retomada do consumo se restabelecer por aqui.

Revista Óleos & Gorduras – Quais serão os principais desafios do mercado brasileiro daqui para frente?

Smyllei CurcioO desafio é se manter competitivo nesse mercado de margens cada vez mais apertadas que é o de comodities. Antigamente, sem muita informação, o setor de óleos e gorduras era bastante informal. À medida que os players foram crescendo a concorrência aumentando, e o mais importante na minha opinião: com a democratização das informações, isso tem mudado o mercado. É preciso acompanhar o que está acontecendo mundialmente. Por exemplo, uma falta de óleo de palma lá na Malásia impacta diretamente na precificação de todos os óleos vegetais e diretamente na margem do consumidor aqui do Brasil. O dinamismo é imenso. Outro exemplo é o câmbio. Como estamos falando de comodities exportáveis, ele afeta diretamente a precificação das matérias-primas, e como vimos esse ano, uma coisa que não podemos prever é o câmbio. Como se proteger? O hedge novamente é uma excelente ferramenta. Se antecipar aos movimentos do mercado financeiros e planejar cada vez antes é o futuro do setor.

Revista Óleos & Gorduras – Qual a lição tirada desse novo momento?

Smyllei CurcioDe que nunca sabemos o que pode acontecer. Quem diria que iriamos ver os preços de petróleo negativos? Quem diria que o nosso câmbio iria a R$5.90? Acho que estar preparado para as crises faz parte do crescimento de todos os mercados, não será a última que isso acontece, disso temos certeza! Quem conseguiu sair ileso dessa crise é quem tinha caixa, quem tinha um estoque saudável e quem se planejou melhor. O desafio é estar preparado para novas crises que o futuro nos trará.


PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA ÓLEOS & GORDURAS.
PROIBIDO A REPORDUÇÃO PARCIAL OU TOTAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO

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