19 out, 2017
por Daniel Geraldes
43
1124

O descompasso entre os interesse dos fabricantes de rações e dos aquícultores

Nesta segunda parte do artigo sobre descompasso entre os interesses de fabricantes e aqüicultores no Brasil, trataremos das principais limitações operacionais das indústrias de rações aquáticas, que envolvem:

* a disponibilidade e variabilidade de matéria-prima (ingredientes).

* o processamento específico das dietas aquáticas.

* logística.

* dificuldades dos produtores de aditivos em profissionalizar a indústria.

Não se observa dentro da indústria brasileira de alimentos aquáticos uma grande competição por clientes. Novas empresas de aquicultura estão sempre surgindo, e, via de regra, não apresentam grandes demandas por qualidade de produtos. Como consequência, a prioridade vem sendo cumprir com os compromissos de produção e lidar com a complicada logística de distribuição de cargas neste país de dimensões continentais.

Comparado aos nossos países vizinhos, o Brasil apresenta custos de produção de alimentos aquáticos significativamente mais baixos. Somos os maiores produtores de grãos e maquinário pesado para o processamento dos alimentos da América Latina, e, somado a isso, termos outras cadeias produtivas muito semelhantes como suínos e aves, que apresentam  economias de escala já bem estabelecidas, e que acabam prestando enorme suporte competitivo em termos de matérias primas e aditivos de baixo custo, bem como infraestruturas de processamento e logística (inclusive com canais de distribuição comuns).

Apesar das grandes oportunidades, talvez pelas reduzidas dimensões da aquicultura brasileira quando comparada às demais áreas da zootecnia, temos uma serie de problemas a seguir levantados.

Ingredientes, disponibilidade e variabilidade

Dependendo da localização da fábrica de rações aquáticas, a lista de ingredientes pode ser muito limitada, de uma a duas dúzias de ingredientes. Como comparativo, na Ásia e Europa as fabricas de rações aquáticas trabalham com listas mínimas de 50-60 ingredientes. No Brasil, “farinha de peixes”, “farinha de carne e ossos” ou “farinha de sangue” podem conter ao longo do ano diferentes proporções de até 10 ingredientes disponíveis em separado ao longo do ano nos continentes citados. A exceção das fabricas de alimentos para camarões, a maioria das fábricas de rações para peixes trabalha com no máximo meia dúzia ingredientes regionais, onde se destaca o milho e soja.

Na configuração da maioria das fábricas de alimentos aquáticos no Brasil estão dois silos de maior porte (quase sempre destinados ao milho e a soja) e um número reduzido de 6 a 12 silos de médio porte para outras matérias-primas). O tempo de permanência dos ingredientes pode ser relativamente grande por problemas de logística. Nas fábricas europeias e asiáticas, temos normalmente 16 a 24 silos de médio a pequeno porte, pois a produção das rações se dá com mais ingredientes e praticamente em “tempo real”, ou seja, os silos são para curta permanência de muitas matérias-primas.

Os fabricantes de rações para peixes brasileiros tipicamente colocam de 30-50% de milho nas formulações de crescimento. Nossos peixes nativos e a exótica tilápia (60% das rações nacionais são dedicadas a esta espécie exótica) são cerca de dez vezes mais sensíveis que os frangos às toxinas (fígados erodidos com somente 2 ppbs). Qualquer formulação para animais aquáticos que contenha mais de 25% de um único ingrediente (especialmente o milho, que frequentemente contém diversas toxinas) é de grande risco para o desempenho zootécnico das espécies aquáticas. Na Europa e Ásia a regra da “diluição é a melhor solução” acabou fazendo com que os fabricantes daqueles continentes adotassem as enormes listas de ingredientes e, como consequência, um numero maior de silos menores.

As farinhas de peixe marinho de boa qualidade não são encontradas no mercado nacional, sendo necessário importar as mesmas do Chile ou Peru. Aqui mais uma vez se constata posições antagônicas, pois o interesse das fábricas acaba sendo diversificar o mínimo as opções de matérias primas, especialmente as de maior valor como a farinha de peixes marinhos, afinal,  muitas opções de ingredientes geram maiores custos de estocagem do material.

 

Problemas no processamento

No quesito do processamento, os principais problemas detectados são: (a) grau de moagem dos ingredientes; (b) tempo de condicionamento; (c) excesso de secagem e adição de ingredientes termo-sensíveis pós-extrusão.

 

O grau de moagem dos ingredientes é sem dúvida o principal limitador da performance de campo dos animais aquáticos no Brasil. Um grau de moagem razoável para rações aquáticas de qualidade mediana na fase final de engorda é de 600 micras. Na Europa as rações para organismos aquáticos apresentam no mínimo 500 micras, mas a maioria das formulações tem menos de 300 micras. No Brasil as peneiras de moagem são a partir de 1 mm (800-900 micras no produto moído), e raros são os casos onde se utilizam peneiras menores de 0.8 mm (600-700 micras no produto moído).

 

Somado a isso, a falta de uma manutenção adequada em algumas industrias pode gerar, em algumas semanas de operação dos moinhos, peneiras desgastadas com até 0.1 mm de abertura no período. Como as 600 micras citada anteriormente não é um grau de moagem suficiente para as fases iniciais, onde se recomenda menos de 300 micras, o ideal seria poder contar com um pulverizador no processo, ou quem sabe peneirar parte do moído e a parte grossa reprocessar (remoagem), com peneiras de 0.5 ou 0.6 mm (no máximo). Apesar da indústria de rações no Chile (rações de Salmão) ou Peru (rações de camarões) usarem pulverizadores e peneiras sempre menores que 0.5 mm, em nosso país esta pratica acaba não é adotada.

 

Um outro limitador do processo é o tempo de condicionamento, que deveria ser no mínimo de 3,5 minutos para uma completa gelatinização do amido das rações aquáticas. Não são todas as empresas que dedicam atenção ao monitoramento deste tempo mínimo de passagem do alimento pelo condicionador com o emprego de corantes específicos. Na Europa e na Ásia é muito comum a utilização de um condicionador triplo, que aumenta de 1,5 para 3,5-4 minutos o período de condicionamento. Tecnicamente deveríamos minimizar em alimentos aquáticos os níveis de carboidratos (ingredientes mais baratos, mas que geram o acúmulo de gordura visceral e limitações de consumo e crescimento de peixes e camarões), porém, os mesmos auxiliam numa cocção mais rápida (menor tempo de condicionamento), dependendo do equipamento. A solução mais técnica seria a indústria de alimentos aquáticos utilizar mais fibra e gordura nas dietas, e substituir parte do carboidrato por um aglutinante de baixo custo (como os alginatos) e um tempo de condicionamento mais longo.

O terceiro problema em termos de processamento é que praticamente não existem no final do processo equipamentos, como câmaras de vácuo, que permitam a adição de ingredientes termo-sensíveis. Tais equipamentos são muito comuns nos países aquícolas, pois oferecem a possibilidade de se adicionar aditivos com uma maior penetração ao final do processo (óleo de peixe, vitamina C, micro-organismos, e aditivos termo-sensíveis em geral).

 

Dificuldades na adição de aditivos e as necessidades dos aqüicultores

Os fornecedores de aditivos (empresas mais técnicas) são os que mais tem dificuldades em se estabelecer no mercado de organismos aquáticos. A indústria de rações aquícolas evita comprar ingredientes caros, pois tem muitas dificuldades em repassar esses custos, e se tornar dependente de poucos fornecedores. Portanto, o uso de aditivos aquícolas no Brasil é proporcionalmente muito pequeno aos países vizinhos. A estratégia de algumas destas empresas de aditivos é de vender diretamente ao aqüicultor de maior porte para que ele incorpore os aditivos diretamente aos alimentos.

 

Como já foi anteriormente comentado, não é comum nas linhas de processamento de rações aquáticas em nosso país a possibilidade de adicionar aditivos termo-sensíveis pós-extrusão, o que é uma norma em linhas de processamento de alimentos aquáticos em outros países. Essas dificuldades vem levando algumas das principais empresas de aditivos aquáticos a comprarem empresas que produzem rações aquáticas para que, desta forma, possam incorporar seus ingredientes e assim beneficiar o aqüicultor com um alimento tecnologicamente mais avançado.

 

Os aqüicultores brasileiros, a medida que estão crescendo, ganhando mercados e se especializando, deverão pressionar cada vez mais a indústria de alimentos aquáticos para que priorizem opções de matéria-prima de origem aquática, que, mesmo caras, podem compensar com uma inclusão mínima resultados técnicos e financeiros superiores aos atuais. A segunda prioridade deverá ser nas matérias primas de origem animal terrestre, e por  último os ingredientes de origem vegetal, evitando aqueles que tipicamente  apresentam toxinas e fatores anti-nutricionais.

 

A adição de aditivos comerciais normalmente impacta positivamente o resultado econômico das rações aquáticas brasileiras. Os aditivos normalmente não contém fármacos, são naturais e são compostos de anti-oxidantes, anti-fúngicos naturais, sequestrastes de mico-toxinas (para compensar o elevado % de milho na formulação), fermentos, ácidos fracos, enzimas, pré e pro-bióticos, a alguns aglutinantes a base de algas (alguns tem preços interessantes e que compensam ausência de aglutinantes caros como a farinha de trigo), promotores de crescimento naturais (aumentam o metabolismo/desempenho dos peixes) flavorizantes/aromatizantes, extratos de leveduras, repartidores de nutrientes ou beta-adrenérgicos, saponinas, imunomoduladores, mananoproteinas, adsorventes de amônia, etc.

 

Os aditivos são ingredientes de pequena inclusão específicos para espécies/fases/sistemas de cultivo, em geral muito onerosos (sem economia de escala, custam de R$ 25-500/kg), normalmente oferecidos individualmente por vários fornecedores. Os aditivos normalmente não vem em formulações mistas, e os poucos disponíveis para grandes produtores de proteína e fábricas de alimento custam R$ 30,00-350,00/kg, normalmente  adicionados em proporções que variam de 0,2-6,0% (dependendo da qualidade da ração e da fase dos animais). Por exemplo, rações de qualidade inferior nas fases iniciais demandam 4–6% de aditivo por tonelada, enquanto que rações de elevada qualidade demandam menos aditivos, entre 0,2-0,6%.

 

As fabricas de rações aquáticas que investem em um aditivo completo com um nível de inclusão mais elevado para compensar ingredientes mais baratos vai ter seu custo de formulação praticamente duplicado, e acabam não conseguindo repassar este aumento ao aqüicultor. Por esse motivo, as empresas de rações aquáticas evitam usar aditivos (e investir em equipamentos para incorporar ingredientes termo-sensíveis pós-extrusão). Tais empresas sugerem aos seus clientes aqüicultores que realizem a mistura quando do arraçoamento dos animais. As poucas fabricas de rações que incorporam aditivos compram os mesmos separadamente e os adicionam em quantidades ínfimas (na opinião do primeiro autor, mais por marketing do que que resultados técnicos).

* Sergio Zimmermann

(sergio@sergiozimmermann.com e sergio@plugin.com.br) é Engenheiro Agrônomo e Mestre em Zootecnia e Aquicultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Foi professor em diversas universidades no Brasil e na Noruega (UMB) e há 30 anos é consultor em nutrição e cultivos de peixes e camarões em mais de 20 países nas Américas, Escandinávia, África e Ásia. Tem mais de 150 trabalhos/palestras publicados/apresentados em periódicos/eventos científicos. Atualmente é sócio das empresas VegaFish (Suécia), Florida Aquaculture Investment Group (EUA), Biofloc Storvik (Noruega e México) e presta suporte técnico através de sua empresa Zimmermann Aqua Solutions localizada em Sunndalsøra, Noruega. https://www.linkedin.com/in/sergiozimmermann

 

** Marcia Rosangela Possebon

(possebonmarciarosangela@gmail.com) é Engenheira Química (PUC/RS), com especialização na área Qualidade e Alimentos (PUC/RS e UFRGS) e 30 anos de experiência em análises de matérias primas e produtos acabados, gestão de produção e custos, liderança e “chão de fábrica “, com trabalhos de projeto, aquisição de equipamentos e montagem de fábricas, acompanhamento e melhoria de processos e manutenção. Consultora em produção de Rações Fareladas (Premix, alimentos completos e concentrados), Peletizadas (alimentos completos e concentrados), Laminadas e Extrusados. Participação de equipe de implementação de BBF (Boas Práticas de fabricação) e APPCC (Análise de Perigos em pontos Críticos de Controle), análise de custos e melhoria. Diversos cursos no Brasil e Exterior nas áreas de Qualidade, Gestão, BPF e APPCC na Indústria de Alimentos, Operações e Produção.  http://br.linkedin.com/pt/marcia.possebon

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA REVISTA AQUA FEED – ED. JAN/FEV 2017 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • Graxaria
  • Óleos e Gorduras
  • Pet Food
  • Aqua Feed
  • Animal Feed
  • Espuma
Aguarde...

Cadastre-se

Aguarde...

Esqueci minha senha

Aguarde...
Translate »