3 jan, 2018
por Daniel Geraldes
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O Mundo da Reciclagem Animal e a Sustentabilidade

A reciclagem animal tem um papel centenário na redução do impacto ambiental causado pela produção de cárneos. É uma atividade que contribui de forma decisiva para a sustentabilidade da cadeia da carne e na preservação do meio ambiente ao transformar as partes de animais, não consumidas pela sociedade, em produtos seguros e com múltiplos usos, como gorduras e farinhas de origem animal, que são utilizados nos mais diversos segmentos: na alimentação de animais de produção, pet food, cosméticos, higiene e limpeza, biocombustíveis entre tantos outros.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS – (1), a reciclagem animal é uma atividade de interesse público, pois retira do meio-ambiente produtos que, se não fossem processados, poderiam poluir e contaminar o solo, a água e o ar. O setor de Reciclagem Animal, em outros países como o Canadá, Comunidade Europeia e Estados Unidos, é reconhecido como de utilidade pública, recebendo suporte e até incentivos governamentais: há uma compreensão sobre a importância do trabalho ambiental e social realizado. É necessário que haja esse reconhecimento também no Brasil, tanto pela sociedade quanto pelo Poder Público. Este trabalho de sensibilização e esclarecimento sobre o setor vem sendo desenvolvido pela ABRA – Associação Brasileira de Reciclagem Animal – através de diferentes frentes.

Há muito a ser dito sobre o setor de reciclagem animal e sua forte conexão com a sustentabilidade em suas três esferas: ambiental, social e econômica. Por isso, a partir desta edição, escreveremos uma série de artigos que vão tratar sobre: O mundo da reciclagem animal e a sustentabilidade.

Abordaremos os seguintes temas:

  1. O setor é sustentável? Afinal, a reciclagem animal é uma indústria sustentável ou não quanto a questões sociais, econômicas e ambientais?
  2. Podemos otimizar o aproveitamento de algum recurso finito com o emprego da reciclagem animal como, por exemplo, demanda por terras, aproveitamento de água, de fósforo e outros minerais finitos?;
  3. Podemos contribuir mais? Onde o setor pode aprimorar seu rendimento via flotação e lagoas de tratamento mais eficientes, na produção de biogás e na fertirrigação?;
  4. Podemos gastar menos recursos? Onde o setor pode investir para reduzir ainda mais suas emissões, como por exemplo, caldeira de biomassa, cogeração energética, biodiesel?

Esses são temas que permeiam as discussões acadêmicas e o dia a dia dos gestores das indústrias de reciclagem animal. Faremos algumas considerações prévias, importantes para entender melhor essa temática, como o crescimento da população mundial, o espaço limitado de terras cultiváveis e a demanda por alimento para as pessoas e para os animais.
 

Mudança de perspectiva

A população mundial ultrapassa 7,55 bilhões de habitantes (2) e cresce a uma velocidade vertiginosa de aproximadamente 82,6 milhões de pessoas ao ano. Isso significa um crescimento “líquido” (nascimentos – mortes) de aproximadamente 5,2 pessoas por segundo!

Em 2015, a Organização das Nações Unidas – ONU – projetou que deveremos ser 10 bilhões de pessoas próximo a 2055 (3)(vide G1).

A explosão populacional vivida à partir da década de 1950, fez com que diversas teorias colocassem em dúvida a capacidade humana em produzir alimentos em quantidade suficiente.

Com trabalho, ciência e investimento, essas previsões vêm falhando, pois a humanidade tem mais alimento à disposição. Segundo dados (4) da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO – nas últimas décadas observa-se que a ingestão diária média de energia, entre 1961 e 2014, cresceu 31%. Isso pode ser traduzido em números (vide G2) que mostra que a ingestão diária média de proteína animal e de gordura aumentou significativamente entre 1961 e 2014, em quase 46% e 75%, respectivamente.

Portanto, o crescimento da produção agropecuária foi superior ao crescimento populacional nas últimas 5 décadas, produzindo quase 200% mais nutrientes entre 1961 e 2014.

Produção de grãos

Essa maior oferta de alimentos se deu, entre outros fatores, por grandes avanços na qualidade das sementes, em cultivares mais produtivos, resistentes e adaptados ao clima local, associado a um maior conhecimento das características do solo e das demandas de correções de cada cultura (Vide G3). O resultado foi um importante aumento na produtividade por hectare: em media, para se alimentar 1 habitante do planeta em 1961 se ocupava 0,37 hectares de terra. Em 2014 se ocupou 0,2 hectares pessoa em 2014 (5), apesar da maior disponibilidade de alimentos.

Mesmo com esse ganho, o aumento populacional gerou maior demanda por terras cultivadas, passando de 1,38 bilhões de hectares em 1961 para 1,58 bilhões em 2014, um aumento de área equivalente à soma dos estados do Centro-Oeste e Tocantins (MS, MT, GO, DF e TO).

A disponibilidade de novas terras cultiváveis é baixa, espera-se que a produtividade por hectare continue subindo em ritmo semelhante ao observado atualmente pelas próximas duas décadas. Sabe-se que ainda há muito a ser melhorado no mundo, basta observarmos a diferença de produtividade de milho entre a média mundial e a produtividade dos Estados Unidos. Em 2014, os EUA produziram 10,73 toneladas de milho por hectare, quase o dobro da média mundial, que foi de 5,62 ton/hectare.

Produção Animal

Na produção animal foram observados avanços mais expressivos que os reportados pela cadeia produtiva de grãos. A enorme evolução genética dos animais, o maior conhecimento das necessidades nutricionais e ambientais de cada espécie, em cada fase de sua vida produtiva, permitiu um avanço nos índices e produção.

Um experimento (6) mostrou o enorme avanço genético de frangos de corte. A comparar o desempenho de uma linhagem de frangos de 2001 contra outra de 1957, com a dieta que se fornecia em 1957 e a de 2001 (vide G4): as aves com a genética mais moderna ganharam mais peso. O efeito da dieta no desempenho das aves foi importante para a genética de 2001, e quase não teve efeito na genética de 1957 quanto ao peso vivo, mostrando que a genética do animal era fator limitante quanto a esse parâmetro. Porém, em todas as genéticas, a dieta de 2001 mostrou-se mais eficiente ao apresentar melhor conversão alimentar (entre 10 e 15% melhor).

Esses avanços genéticos são observados em diversos outros parâmetros produtivos:

– redução na conversão alimentar (quilo de alimento consumido para se produzir 1 quilo de animal vivo);

– redução da taxa de mortalidade (diferença entre número de animais alojados e abatidos);

– aumento de peso ao abate (peso vivo do animal ao ser enviado para abate).

 

Em 1925 (vide G5), aos 112 dias de idade (7), um lote de frango tinha em média 1,13kg de peso vivo, conversão alimentar de 4,7 e mortalidade de 18% (a cada 100 aves alojadas, produzia-se 82 aves).

 

Em 2015, aos 48 dias de idade, um lote de frangos tinha em média 2,83kg de peso vivo, conversão alimentar de 1,89 e mortalidade de 4,8% (a cada 100 aves alojadas, produziu-se 95,2 aves).

O mesmo avanço foi observado em outras espécies. Em suínos (8), por exemplo, o número de leitões abatidos por porcas ao ano dobrou nos últimos 45 anos, passando de uma média de 10,25 para 20,95 cabeças abatidas por porca alojada nos EUA (vide G6). Vacas leiterias que produziam de 10 a 12kg de leite por dia, hoje produzem de 30 a 35kg por dia em média.

Fica claro que a humanidade busca de forma constante uma maior produtividade, a custos menores, com maior segurança do alimento. Somos cada vez mais e mais eficientes.

 

Reciclagem animal evita perda alimentar

De acordo com a FAO, um terço de todo o alimento produzido no mundo é perdido ou desperdiçado a cada ano, somando inacreditáveis 1 trilhão de quilos de alimentos (9). Uma das principais ferramentas de redução de desperdício é destinar os alimentos que não sejam destinados para o consumo humano à alimentação animal. Isso reduziria a demanda por grãos, reduzindo a necessidade de terras agriculturáveis e a competição entre a alimentação de humanos e de animais (10).
A reciclagem animal faz exatamente isso há mais de 100 anos (11): reutiliza produtos de origem animal, que não foram destinados ao consumo humano, de maneira econômica e segura na alimentação dos animais, reduzindo a demanda por terras aráveis, reutilizando nutrientes como fósforo, cálcio, nitrogênio (proteína) e carbono (gorduras e proteínas).
A cada 100kg de peso vivo de um animal abatido, entre 30kg e 40kg não seguem para consumo humano, sendo que a maior parte desse volume é utilizado como matéria-prima na fabricação de farinhas e gorduras de origem animal. Os principais países recicladores de produtos de origem animal – Estados Unidos, Comunidade Europeia, Brasil, Austrália e Canadá – reciclam 55 bilhões de quilos ao ano, produzindo de forma eficiente e segura mais de 25 bilhões de quilos de farinhas e gorduras.
Se todo esse volume não fosse reaproveitado, a cadeia de produção de cárneos não poderia existir nos moldes atuais. A maior disponibilidade de alimentos à população da Terra simplesmente não iria evoluir da forma que se deu, pois não haveria onde destinar todo o volume residual do processo de abate. A reciclagem animal é, portanto, um importante ator na sustentabilidade da produção de alimentos global, contribuindo como fonte de gorduras para alimentação, animal, na produção de biodiesel e de sabões, além de fornecer proteína e energia em rações de animais não-ruminantes.

 

Conclusões

O Setor de Reciclagem Animal é uma atividade de interesse público, importante para a manutenção da cadeia da carne, a qual é um dos principais atores na melhoria da alimentação da população da Terra observada nos últimos 55 anos.

Na próxima edição abordaremos mais especificamente sobre a sustentabilidade da atividade de reciclagem de produtos de origem animal, abordando questões sociais, econômicas e ambientais.

Bibliografia

(1). World Health Organization. Understandinf the BSE threat. CDS Information Resource Centre, WHO. Genebra : WHO, 2002. p. 28.

(2). M. Roser, E. Ortiz-Ospina. World Population Growth. OurWorldInData.org. [Online] 2017. [Cited: Set 20, 2017.] https://ourworldindata.org/world-population-growth/.

(3). UN Population Division 2017. Population Division calculations. UN medium fertility variant population projection. [Online] Agosto 24, 2017. [Cited: Setembro 20, 2017.] https://esa.un.org/unpd/wpp/Download/Standard/Population/. https://ourworldindata.org/world-population-growth/.

(4). M. Roser, H. Ritchie. Food per Person. OurWorldInData.org. [Online] 2017. [Cited: Set 20, 2017.] https://ourworldindata.org/food-per-person/.

(5). —. Yields and Land Use in Agriculture. OurWorldInData.org. [Online] 2017. [Cited: Set 20, 2017.] https://ourworldindata.org/yields-and-land-use-in-agriculture/.

(6). G. B. Havenstein, P. R. Ferket, M. A. Qureshi. Growth, Livability, and Feed Conversion of 1957 Versus 2001 Broilers When Fed Representative 1957 and 2001 Broiler Diets. Poultry Science. 2003, Vol. 82, pp. 1500 – 1508.

(7). National Chicken Council. U.S. Broiler Performance. National Chicken Council. [Online] Setembro 21, 2016. [Cited: Setembro 20, 2017.] http://www.nationalchickencouncil.org/about-the-industry/statistics/u-s-broiler-performance/.

(8). M. Haley, K. Jones. Livestock, dairy and poultry outlook. Economic Research Service, United State Department of Agriculture. 2017. p. 21.

(9). FAO. Global food losses and food waste – Extent, causes and prevention. FAO. Roma : s.n., 2011. p. 30.

(10). —. Food wastage footprint – Impacts on natural resources. FAO. Roma : s.n., 2013. p. 62.

(11). Meeker, D. L. Essential Rendering – All About The Animal By-Products Industry. National Renderers Association. Alexandria : s.n., 2006. p. 303.

 

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA REVISTA GRAXARIA – EDIÇÃO SET/OUT 2017.

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