18 out, 2017
por Daniel Geraldes
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O toque feminino no universo das graxarias

Desafios, superações, ascensão… não é de hoje que as mulheres vêm se destacado no ambiente corporativo, inclusive naqueles que são predominantemente masculinos. Se por um lado, ainda há muito o que se conquistar, por outro há também muito o que se comemorar. Importantes progressos foram obtidos e histórias bem-sucedidas são relatadas a seguir.

 

Por: Lia Freire – Colaboração: Adriana Fonseca

 Não é novidade que a mulher vem gradativamente ganhando mais espaço no mercado de trabalho. Ao deixar o posto de dona de casa e conseguir estudar e trabalhar já é uma grande conquista obtida no decorrer da história. Aos poucos, galgaram cargos que antes não tinham condições de, sequer, concorrer. A presença feminina está na política, na ciência, na engenharia, em cargos que antes eram só ocupados por homens, embora ainda haja um grande abismo em relação às oportunidades e remunerações. “A participação das mulheres está cada dia maior no ambiente corporativo. Hoje em dia, temos voz e estamos mais dispostas a dar voz aos nossos desejos.  No entanto, alguns aspectos importantes precisam ser melhorados. O salário, por exemplo. As mulheres têm cargos e grau de formação igual ou superior aos homens, porém o salário geralmente é menor do que o deles. Também ainda há discriminação. Vemos vagas que podem ser ocupadas por mulheres, porém apenas se forem solteiras e não tiverem filhos”, observa a life coach, Luciane Cadan.
 

Ainda de acordo com a coach, se a mulher fizer o que ama e explorar seus pontos fortes, qualquer profissão se tornará um sucesso. “Respeitar seu tempo e seu momento também. Muitas mulheres acreditam que só podem se tornar uma excelente profissional depois de uma promoção, após um aumento e se cobram muito por isso. A verdade é que devemos fazer o melhor onde estamos e o sucesso será consequência.” No entanto, a coach Luciane, faz uma importante ressalva: “obter sucesso é um “agora”, ser feliz em qualquer status e cargo já é ter sucesso.”

Muitas executivas também são mães e esposas e não é raro se sentirem culpadas, especialmente em relação ao lado maternal por acreditarem que não estão se dedicando tanto quanto deveriam. Para estes casos, Luciane declara que é importante organização e foco. “Se estou em casa, vou me dedicar fisicamente e mentalmente na minha família. Se estou no trabalho, vou dar o meu melhor. Claro que, existem dias e dias. E não devemos levar a culpa por não conseguir fazer tudo, sempre ficará algo por fazer, mas temos que ter noção do que é prioridade e da nossa autorresponsabilidade. A minha mensagem é: viva a sua essência, vá em busca do seu autoconhecimento, do seu propósito de vida, pois através dele, chegará onde sempre sonhou. Faça acontecer!”

 

O olhar sensível dentro do agronegócio

Presidente do NFA – Núcleo Feminino do Agronegócio, Carmen Perez, declara que a mulher tem ocupado um papel fundamental e agregador no agronegócio e enxerga a presença feminina cada dia mais ativa, estando à frente de lideranças, associações e cooperativas, com um papel importante no desenvolvimento educacional de uma sociedade carente de gestão e recursos humanos. A formação, não acadêmica, da Carmen é retrato dos seus últimos 16 anos de trabalho na fazenda em Barra do Garças, Mato Grosso. Inicialmente, seu foco foi unicamente na cria e, posteriormente, mergulhou na implantação da seringueira. Sua busca mais apaixonante tem sido os projetos dos últimos 10 anos relacionados ao “Bem-Estar Animal”, em parceria com o professor Mateus Paranhos, da Unesp, em Jabotical (SP).

 

Para Carmen, uma das grandes habilidades da mulher é a capacidade em lidar com desafios e transformá-los em oportunidades, sempre com um olhar sensível, dentro do agronegócio, que é um universo muito masculino, com uma gestão bastante racional. “Sem dúvida esse olhar feminino faz diferença. Nós, mulheres, não podemos fazer, fisicamente, as mesmas funções de um homem. Alguns trabalhos são bastante específicos e não podemos exercer. Acredito que a diferença seja nesse sentido. As demais funções exercemos normalmente. Somos nós que abrimos as portas para as oportunidades, através das nossas crenças e da coragem de seguir em frente. Trata-se de enfrentar o obstáculo da insegurança. Mais do que o conhecimento ou da formação acadêmica, acredito na iniciativa e na atitude para enfrentar o desconhecido”, declara Carmen.

 

De pai para filha

Desde pequena, Juliana Gavioli Villas – muito ligada ao pai Julio Villas – que trabalhava no  setor de graxaria, o acompanhava por todos os lados, na indústria, nos fornecedores, clientes etc. Com idade suficiente, Juliana passou a ajudar o seu pai na administração e em controles das atividades da empresa, principalmente na coleta de matéria-prima e supervisão de carreteiros na entrega de produtos. Ela própria chegou a dirigir caminhão de coleta de ossos.

Com a morte do pai, em 1999 e com a crise do setor naquela época, Juliana e seu irmão Gilberto, que também participava nos negócios da família (graxaria), tiveram que assumir 100% das atividades da empresa. “Foi um momento muito difícil para nós, perdemos nosso referencial de negócio e base da família, além disso, o setor enfrentava uma crise e passava por grandes mudanças relacionadas às normas do MAPA e exigências do mercado. Naquela época pensei em desistir, porém o que contribuiu para minha permaneça, foi a união da família, o apoio dos amigos e, sobretudo, a certeza de que era capaz e que poderia vencer, afinal já contabilizava uma importante experiência. O resultado foi que os obstáculos foram superados com mais rapidez do que eu imaginava.”

 
Em 2006, a Juliana, juntamente com o seu irmão Gilberto e uma terceira pessoa, o empresário Renato, fundaram a Granvitoria Alimentos. “O preconceito contra as mulheres no mundo dos negócios é uma realidade em todos os segmentos. Muitas vezes somos vistas como possuidoras de limitações em relação aos homens e às vezes por falta de tato da nossa parte, somada à resistência dos homens, temos boas ideias, opiniões e excelentes oportunidades de negócios desperdiçados. Aprendi desde cedo com meu pai que devemos “respeitar para sermos respeitados”, partindo deste princípio, as relações tendem a serem harmoniosa. Acredito que nós mulheres temos que ser serenas, sem deixar de sermos firmes, devemos ser educadas, ter um comportamento equilibrado, ouvir e falar com educação e respeitar as potencialidades e limites de cada um. Nosso maior trunfo é a sensibilidade e devemos aproveitar o momento propício para expor e implementar nosso ponto de vista”, declara Juliana, que deixa a seguinte mensagem para as mulheres: “sejam muito bem-vindas e não se deixem intimidar em ambientes onde prevalece a presença masculina. Dificuldades sempre existirão, mas sejam confiantes e acreditem no potencial que Deus lhes deu e não se deixem barrar pelos obstáculos que lhes esperam. Sejam éticas, compreensivas, educadas e firmes.”

 

A sensibilidade feminina na ABRA

 

Responsável pela gestão e projetos da ABRA – Associação Brasileira de Reciclagem Animal, Cátia Macedo, teve o seu primeiro contato com este setor no ano de 2010, quando a associação encomendou o primeiro diagnóstico do segmento. “Eu trabalhava na consultoria contratada para este trabalho e vim coordenar o diagnóstico. Eu me encantei pelo setor e fiquei. Era uma época em que a associação tinha um funcionário, uma sala e muitos sonhos. Eu vim sonhar junto!”

Deste período para os dias atuais, Cátia fala, com orgulho, das suas contribuições para a evolução da associação e cita algumas importantes conquistas. “Foram realizadas uma série de projetos para o setor; melhoramos a comunicação deste mercado – extremamente carente de informação; levantamos a bandeira de que somos importantes, afinal cuidamos do meio ambiente e levamos a reciclagem animal brasileira para o mundo.”

Sobre as dificuldades em trabalhar em um setor predominantemente masculino, Cátia diz não se deparar com grandes problemas e recorda que quando ingressou neste setor, a única mulher era a Valdirene Aparecida Dal’Mas da R. Paes, atual assessora jurídica do SINCOBESP – Sindicato Nacional dos Coletores e Beneficiadores de Subprodutos de Origem Animal. Hoje, a Cátia afirma que tem mais mulheres em posição de liderança. “Eu vejo uma vantagem em ser mulher em um mercado predominantemente masculino: eles me protegem como se eu fosse uma filha ou uma irmã. Nunca passei, por exemplo, por situações de assédio ou discriminação. As empresas do setor são familiares, então os homens são chefes de família e extremamente respeitosos.”

 

Sobre suas pretensões profissionais, Cátia afirma que deseja continuar trabalhando na transformação do setor. “Tenho projetos ambiciosos para a associação, que ainda não posso revelar. Há muito trabalho a ser feito para mostrar à sociedade o que é a reciclagem animal e o que ela faz pela comunidade onde ela está inserida. Temos que buscar o nosso reconhecimento como empresas de utilidade pública, amigas da natureza e do desenvolvimento social, evidenciando sempre que o nosso DNA é a sustentabilidade. Às mulheres que estão pensando em entrar em áreas essencialmente masculinas digo: não tenham medo! Não é preciso se masculinizar, mostre que você está ali para somar forças”, diz Cátia.

 

Um grande exemplo

Contrariando o desejo do seu pai, que queria que fizesse magistério, Valdirene foi estudar Direito e passou a ser assessora jurídica de um sindicato de lojistas. O seu avô foi o fundador da primeira graxaria do Brasil, a Dal’Mas. “Eu cresci no chão de fábrica. A empresa familiar passou para o meu pai e meu tio. Como eles só tinham filhas mulheres, a sucessão foi difícil e tardia. O que eu mais ouvia é que aquele não era um ramo de negócios para mulheres. Por volta de 1990, meu tio Aparecida Dal’Mas da R. Paes e meu pai cederam e me chamaram para participar das reuniões da empresa. Eu era a única mulher que integrava o grupo de gestão. Quando meu pai se desentendeu com uma graxaria concorrente e não quis mais ir às reuniões do setor eu passei a representar a Dal’Mas. Pela minha experiência sindical e na área jurídica, eu sugeri a criação de uma associação. Inicialmente de abrangência estadual, que mais tarde tornou-se o Sindicato Nacional dos Coletores e Beneficiadores de Subprodutos de Origem Animal – Sincobesp, do qual sou hoje assessoria jurídica”, lembra, destacando ainda que precisou lutar muito para chegar onde está.

 

 

Não há dúvidas de que Valdirene foi a precursora da presença feminina no setor de graxarias. “Precisei batalhar para estudar, batalhar para ter um espaço, para ser recebida, para ser reconhecida, driblar assédio… Como estou há mais tempo que muitos no mercado e pela minha experiência de vida, hoje já interajo de uma forma diferente com os homens do setor. Tive períodos difíceis de não concordância, mas eu aprendi muito. Sempre existiu muito preconceito, mas eu fui vencendo por meio de argumentação. Era um ramo de famílias italianas, culturalmente patriarcal. Para convencer o meu pai a me deixar estudar, por exemplo, tive que argumentar dizendo que acreditava que poderia contribuir mais para a sociedade como uma profissional liberal. E assim, na base da argumentação, fui derrubando os preconceitos.”

Aos 71 anos, Valdirene nem pensa em se aposentar. “Eu adoro o que eu faço. Quero continuar fazendo o meu trabalho. Tenho orgulho de todos os meninos que eu ajudei e desejo continuar contribuindo para essa importante cadeia produtiva”, finaliza a incansável Valdirene.

 

DICAS PARA O AMBIENTE DE TRABALHO

 

  • Não mascare as qualidades essencialmente femininas

Há qualidades femininas que são essenciais nas rotinas das empresas, portanto, para se destacar, ao invés de agir como homem, reforce as suas qualidades como um diferencial dentro de um ambiente predominantemente masculino. A mulher é de fato mais emocional, se envolve mais com as situações e pessoas. Imitar o comportamento masculino para ter respeito na empresa não a levará a atingir os seus objetivos. Aprenda o que houve de positivo no sexo oposto e mescle com as próprias competências.

 

  • Traje adequado

Vestimentas curtas, decotadas ou justas devem ser evitadas, pois certamente transmitirá mensagens equivocadas e poderá gerar desconforto no ambiente de trabalho.

 

  • Happy Hour com eles

Vez ou outra participar de um happy hour com os colegas (homens) do trabalho é encarado como positivo. É uma maneira de ser aceita na turma e trocar informações que possam ser importantes.

 

  • Lidando com a gravidez

Os planos de ter um filho não devem ser escondidos. É fato que existem empresas que evitam contratar mulheres que estejam grávidas ou pretendam ter filhos em um futuro próximo. Mas, lembre-se: gravidez é uma ordem natural na vida das mulheres.

 

  • Se o ambiente não a agrada, saia

 Um ambiente ruim não se dá apenas pelo machismo há muitos outros aspectos que podem contribuir negativamente. E se as mulheres levam alguma vantagem é neste aspecto: ao deixar um cargo, uma empresa, a mulher sofre menos pressão por ficar desempregada.

 

  • Sobre ser competitiva

 Aí está uma característica presente nas pessoas que alcançaram o sucesso. Às mulheres que querem se destacar é importante competir de igual para igual com os homens da empresa. A mulher deve usar de todas as suas qualidades, ter confiança e mostrar que pode tanto quanto o homem exercer a função na empresa.

 

  • Defina prioridades

Mulheres e homens têm prioridades de vida diferentes. Embora não seja mais tão comum, ainda há mulheres, por exemplo, que abrem mão da vida profissional para cuidar e formar uma família. Definir as prioridades é imprescindível para se atingir os objetivos pretendidos. Caso não sejam estabelecidas prioridades, as circunstâncias, pessoas e a própria vida determinam pela pessoa; e as prioridades acabam ficando de lado.

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – ED. JUL/AGO 2017

 

 

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