9 ago, 2018
por Daniel Geraldes
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Ômega 3 – Fazendo a diferença na alimentação de cães e gatos

Mestrada e Doutorada em nutrição de cães e gatos, a zootecnista e professora adjunta do departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ananda Portella Félix, fala sobre o crescente uso dos ácidos graxos ômega 3 na alimentação dos pets, a sua importância e os benefícios em usá-los.

Por: Lia Freire

Revista Pet Food Brasil – Como está a questão da aplicação dos ácidos graxos ômega 3 na alimentação dos cães e gatos?

Ananda Portella Félix – Felizmente as empresas estão se preocupando mais com a inclusão de fontes de ômega 3 na alimentação de cães e gatos, principalmente em relação aos níveis e fontes funcionais, como por exemplo, o óleo de peixe e algumas algas que contêm alta concentração de EPA (ácido eicosapentaenóico) e/ou DHA (ácido docosahexaenóico).

Os ácidos EPA e o DHA são encontrados apenas em certos óleos e farinhas de peixes, especialmente marinhos e em algumas algas marinhas, não estando presentes em alimentos de origem vegetal. Esses ácidos graxos ômega 3 são precursores de moléculas biologicamente ativas (eicosanoides), responsáveis por controlar reações importantes no organismo, como: inflamação, imunidade, pressão arterial e circulação sanguínea, além de serem importantes componentes da retina e cérebro.

A conversão do EPA e DHA a partir de outros ácidos graxos ômega 3, como o alfa-linolênico é muito baixa nos organismos de cães e gatos. Com isso, os efeitos benéficos do ômega 3 na saúde serão mais expressivos quando esses animais consomem as fontes de ômega 3 que já contenham EPA e DHA.

Também observamos que as empresas estão muito mais atentas às fontes de ômega 3 e comunicam este fato ao consumidor. Enquanto que antigamente a comunicação se restringia a informar se havia ou não o ômega 3, sem mencionar qual era o tipo.

Revista Pet Food Brasil –  Quais foram os avanços obtidos? Por outro lado, o que ainda precisa ser melhorado?

Ananda Portella Félix – Os principais avanços estão relacionados ao conhecimento sobre os níveis funcionais do ômega 3 e que nem todos são iguais, sendo os que trazem mais benefícios são o EPA e DHA. Outro avanço importante foi o surgimento de algas marinhas como fonte alternativa de DHA, apresentando mais estabilidade, ou seja, oxida menos que o óleo de peixe e são mais fáceis de ser incluídas no alimento. Por outro lado, ainda precisamos de estudos sobre qual a melhor relação entre os ácidos graxos ômega 6: ômega3 (EPA+DHA) e entender melhor as possíveis perdas e alterações do ômega 3 durante o processo de extrusão.
 

Revista Pet Food Brasil –  Quando a introdução do ômega 3 começou a ganhar relevância na nutrição animal?

Ananda Portella Félix – Não saberia citar uma data específica, mas é nítido que nos últimos anos, com o aumento das pesquisas sobre a alimentação dos cães e gatos e as comprovações sobre os benefícios do ômega 3, a inclusão desses ácidos graxos nos alimentos ganhou relevância.

Revista Pet Food Brasil –  Quais são os benefícios em inserir o ômega 3 na alimentação?

Ananda Portella Félix – Os principais efeitos benéficos para cães e gatos são:

– Controle das reações de inflamação e do sistema imune, sendo importante principalmente para animais senis, com alergia, problemas articulares e inflamatórios crônicos.

– Importante para o desenvolvimento dos filhotes, especialmente para a função da retina e cérebro

– Prevenção e auxílio ao tratamento do câncer

– Melhora da função cardíaca e renal

– Melhora da função cognitiva em idosos

– Redução de doenças inflamatórias intestinais, como síndrome do intestino irritável

– Para gatos ainda há relatos de contribuir para a redução da incidência de urolitíases

E não são apenas suposições, estudos comprovam a eficiência do ômega 3. Por exemplo, houve uma redução de 85% de crises epiléticas em cães com suplementação de 2 g/dia óleo de peixe associado ao fenobarbitol – Scorza et al. (2009); enquanto que 0,07% de DHA na dieta melhorou a resposta cognitiva de cães idosos (Hadley et al., 2017); e  0,3% – 0,6% EPA+DHA reduziu feridas, prurido e eritrema em cães com dermatite – Logas et al. (1994), Mueller et al. (2004), Abba et al. (2005).
 

Revista Pet Food Brasil –  Na nutrição dos animais de companhia, quais são as fontes usadas para obter o ômega 3?

Ananda Portella Félix – As principais fontes são os óleos de peixe de águas marinhas profundas ou peixes de cativeiro que receberam em sua alimentação fonte de ômega 3 e algumas algas, como do gênero Schizochytrium spp. Existem óleos vegetais ricos em ômega 3, como o óleo de linhaça. Porém, estes apresentam principalmente o ácido alfalinolênico, precursor da série ômega 3, que tem baixa conversão em EPA e DHA, para cães e gatos.
 

Revista Pet Food Brasil – Quais as diferenças existentes entre os ômegas 3 e o que cada um deles proporciona de benefícios?

Ananda Portella Félix – As principais diferenças estruturais são em relação ao número de carbonos e duplas ligações. O ácido alfalinolênico é o precursor da série ômega 3. Apresenta 18 carbonos e 3 duplas ligações. A partir dele, existem várias reações enzimáticas de elongação e insaturação da cadeia, o transformando em outros ácidos graxos ômega 3, como o EPA e DHA.

O EPA apresenta 20 carbonos e 5 insaturações. Na membrana celular o EPA pode ser convertido em eicosanoides funcionais ao organismo (moléculas que regulam várias funções importantes) como os leucotrienos 5, tromboxanos A3 e as prostaglandinas 3 que auxiliam no controle dos processos de inflamação e melhoram a circulação sanguínea no organismo.

Já o DHA apresenta 22 carbonos e 6 insaturações. A conversão do ácido alfalinolênico em DHA é menor do que a conversão em EPA. A partir do DHA são produzidas moléculas funcionais, como as resolvinas e protectinas, que são anti-inflamatórias e reduzem os compostos tóxicos gerados durante as reações de inflamação.

Revista Pet Food Brasil – Quais são as principais dúvidas que surgem na aplicação destes ácidos graxos?

Ananda Portella Félix – Acredito que, hoje em dia, essas dúvidas estejam relacionadas aos níveis realmente funcionais para casos específicos, como alergias, e qual é a melhor relação ômega 6: ômega3. Outra questão é que esses ácidos graxos oxidam facilmente – já que apresentam duplas ligações – e, por isso, para garantir a sua durabilidade e eficiência exigem certo cuidado na aplicação em dietas.

Revista Pet Food Brasil –  Quais as recomendações em relação à quantidade de consumo e em qual concentração devem ser administrados?

Ananda Portella Félix – A FEDIAF – European Pet Food Industry Federation – recomenda para cães e gatos em crescimento o consumo mínimo de 0,08% e 0,02% de ácido alfa-linolênico, respectivamente. Ainda se recomenda, para cães e gatos em crescimento, o mínimo de 0,05% e 0,02% de EPA + DHA, respectivamente. Para cães e gatos adultos, esses ácidos graxos não são considerados essenciais. No entanto, já temos diferentes estudos comprovando que podem trazer vários benefícios se adicionados à dieta. As recomendações variam, mas ficam em torno de 0,2% a 1% de EPA+DHA na dieta de cães e gatos adultos. É provável que os níveis mais próximos de 0,6%-1% de EPA+DHA sejam indicados, especialmente, para os animais com problemas inflamatórios crônicos, como insuficiência renal, artrose e alergias.
 

Revista Pet Food Brasil –  Há restrições de uso para portes e raças de animais?

Ananda Portella Félix – De modo geral, independente do porte ou raça, a principal restrição que se aplica é o consumo excessivo do ômega 3, que pode prejudicar a imunidade, a coagulação sanguínea, reduz a vitamina E e os processos inflamatórios do organismo. Sabe-se que este importante ácido graxo auxilia na regulação e controle dos processos citados acima, mas temos que lembrar que a inflamação é uma resposta muito importante do organismo frente à algum agente prejudicial e ela precisa ocorrer.

Revista Pet Food Brasil –  Quais as projeções e expectativas em relação à aplicação do ômega 3 na alimentação de cães e gatos?

Ananda Portella Félix – Espera-se que haja um aumento no uso dos ácidos graxos ômega 3 funcionais nos alimentos completos, petiscos e nos suplementos para cães e gatos, pois a cada dia novas pesquisas relatam e confirmam seus benefícios. Realmente são os ácidos graxos que fazem a diferença na saúde, principalmente em situações específicas, como no desenvolvimento de filhotes, em animais senis e animais com problemas inflamatórios crônicos. Há perspectivas que aumente o uso de fontes alternativas de ômega 3, como as algas marinhas, por serem mais estáveis e sustentáveis que os peixes.

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