19 jul, 2018
por Daniel Geraldes
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PAPs – Um Ingrediente de Ração do Passado?

Por Marin Alm, Primeiro Vice-Presidente, Organização Mundial da Indústria de Graxaria.

O desafio é que em 17 anos desde o veto da ração da UE, três a quatro gerações de nutricionistas animais se graduaram sem conhecimento sobre PAPs.

“Em 2050, haverá nove bilhões de pessoas no mundo com um apetite crescente por carne, leite e ovos”. Como podemos atender as necessidades dessa futura população?

Parece que cada segunda ou terceira apresentação no setor de alimentos e de rações começa com essa frase. Este também foi o caso na Feed Protein Vision 2018, em Amsterdam, Holanda, no início de março organizada por feednavigator.com.

Como indica o título da conferência, o debate centrou-se na oferta de proteína no futuro. Aquicultura supera a produção de carne bovina enquanto avicultura supera a produção suína. Tanto peixes como aves necessitam uma maior inclusão de proteínas nas dietas para que esta mudança potencialize a situação. Grãos de soja foram otimizados para ter um maior teor de óleo, o que leva à redução da produtividade proteica independentemente do local da produção, América do Sul, América do Norte ou mesmo China. Além disso, a assim chamada primeira geração de biocombustíveis está sob pressão devido à discussão combustível  X  alimento. Se os países da União Europeia (UE) reduzissem o esquema de promoção de biocombustível, alguns produtores agrícolas europeus poderiam parar de cultivar colza. Contrariamente a isto, cálculos indicam que a Europa tem uma autossuficiência de proteína de até 60% se todas as fontes proteicas escondidas em grãos, incluindo os subprodutos tais como grãos destilados secos ou forragem, são incluídas. Se a Ucrânia é incluída como parte da Europa uma  autossuficiência de 100% pode ser atingida em apenas alguns anos.

Algumas novas fontes proteicas e técnicas emergentes foram apresentadas na conferência sobre rações.

Insetos: Esta fonte proteica está na moda faz anos e atualmente todos já ouviram falar dela. A UE mudou recentemente a legislação para permitir novos alimentos e rações a partir de insetos. Um supermercado alemão acabou de lançar um macarrão com 10% de larva do bicho da farinha  por 24 euros o quilo ($13 por libra). A Europa permite o uso de seis espécies de insetos nas rações e como eles são considerados animais de criação, toda a legislação relevante deve ser aplicada (i.e., não podem ser alimentados com restos de alimentos, esterco, etc.). Uma vantagem é a taxa de produção deles, que atualmente é 10 vezes mais biomassa de insetos por metro quadrado do que do gado. Se a produção é estratificada isto pode ser ainda maior. O problema atual é que não existe uma planta capaz de produzir 10.000 a 15.000 toneladas. Outra questão é que insetos são o que eles comem, o que significa que podem representar um risco devido a acúmulo de contaminantes na ração. Algumas espécies acumulam metais pesados, outras não. Alguns são capazes de decompor completa ou parcialmente componentes tóxicos como micotoxinas, tais como Deoxynivalenol ou Ochratoxina A. Estão sendo feitas pesquisas sobre inseticidas, pesticidas e patógenos como Salmonella, E. coli e campylobacter. A inocuidade comprovada dos insetos será um pré-requisito para todos os esquemas de segurança de alimentos na Europa.

Aminoácidos: O uso suplementar de aminoácidos para atingir uma dieta equilibrada pode reduzir o conteúdo proteico na ração. Isso exige um bom conhecimento da composição da ração. Uma redução geral de 2% da proteína na dieta de suínos e de aves é possível. 1% menos de proteínas reduz aproximadamente 9% da excreção de nitrogênio através das fezes.

Algas: Diferentes algas vermelhas, marrons e verdes já estão disponíveis, mas dependendo da espécie e local da criação, o conteúdo nutricional como proteínas mostra uma grande variação. A digestibilidade é de 25% comparada à soja, mas os efeitos probióticos , como antibacterianos ou anti-inflamatórios podem ser demonstrados. Uma inclusão em baixos volumes pode estimular uma resposta imunológica.

Microalgas: Ao contrário das algas marítimas (macroalgas), microalgas são uma proteína unicelular. A digestibilidade é comparável a da soja, mas não é melhor. A inclusão é limitada devido ao teor de cinzas (sal, espécies marítimas). O potencial de substituição é previsto para ser 15% nas dietas. Microalgas fornecem micronutrientes, aumentam a taxa de omega 6:3 (depois do desengorduramento ), e colorem a gema de ovo.

Proteína Unicelular (SCP): A taxa de produção de SCP é variada. Na Noruega, testes bem sucedidos foram feitos com bactérias metanotróficas  usando gás natural como ração. Os primeiros resultados mostraram um consumo e eficiência de ração melhorados em leitões e um baixo risco em farinha de alta qualidade. Os baixos preços atuais do gás tornam a produção rentável. Fábricas estão sendo construídas em Teeside, Reino Unido, e no Tennesse,nos Estados Unidos. Também na Noruega, levedura cresceu em lignocelulose tratada enzimaticamente. A produção só é viável quando os resíduos de um modelo total de bio-refinaria são usados como substrato da levedura. Estudos de alimentação animal com ambos SCPs mostraram bons resultados.

Uma apresentação do Rabobank, um banco holandês especializado em agricultura, mostrou o potencial de investimento de cada produção de proteína alternativa. Mostrou um grande interesse em todas as oportunidades de produção de novas proteínas, nas suas implementações industriais e em suas futuras expansões. Enquanto muitos investimentos eram start-ups, companhias bem conhecidas maiores foram citadas. Um painel de discussão na conferência sobre proteínas animais processadas (PAPs) nas dietas de peixes na Europa mostrou o alto potencial que essa fonte proteica já tem. Este autor explicou os volumes disponíveis, o conteúdo médio de proteínas e a digestibilidade do nitrogênio e do fósforo. Trygve Berg Lea, Skreƫting, examinou uma longa experiência com PAPs e destacou a sua digestibilidade e sustentabilidade. Produtores de peixes no sul da Europa já estão usando PAP enquanto produtores de salmão noruegueses ainda necessitam de algum tempo, mas estão interessados. Brett Glencross, Universidade de Stirling,  que trabalhou por longo tempo na Ásia e na Austrália, ainda está surpreso com a resistência para usar PAPs, não apenas dos produtores europeus de peixes, mas também dos moinhos de farinha e dos varejistas.

Farinha de peixe de aparas de peixe é muito bem vinda na UE ainda que PAPs não sejam, uma ignorância que deve ser mudada. O desafio é que em 17 anos desde o veto de ração da UE, três a quatro gerações de nutricionistas animais terminaram sua graduação sem qualquer conhecimento sobre PAPs. Para eles, é agora uma velha ração nova. A indústria de subprodutos animais deve reconhecer isso e proporcionar conhecimentos.

A conferência mostrou soluções interessantes e promissoras para o futuro desafio proteico. Muitas novas tecnologias devem trazer consistências em oferta e segurança e depois em disponibilidade de volumes. Uma vez estabelecido, têm o potencial de crescer como protagonistas globais. Por outro lado, PAPs estão imediatamente disponíveis em volumes relevantes e sua qualidade é bem conhecida. Fora da Europa, o seu uso na ração é aceito, mas a Europa está agora se movendo para reaprender velhos conhecimentos sobre PAPs.

Portanto, a resposta ao título deste artigo é sim, PAPs são proteínas do passado e do futuro também. Qualidade confiável é atemporal!

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – RECICLAGEM ANIMAL.

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