18 out, 2017
por Daniel Geraldes
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Processamento Torna a Indústria de Agricultura Animal Mais Sustentável

Processamento Torna a Indústria de Agricultura Animal Mais Sustentável

Por Tina Caparella

“Não importa se você acredita no aquecimento global ou não, pois os seus clientes e consumidores acreditam, ” disse o Dr. Frank Mitloehner, professor e especialista em qualidade do ar da Universidade da Califórnia (UC)  no Simpósio Internacional da Indústria de Graxaria .

O simpósio foi realizado em conjunto com a Expo Internacional de Produção e Processamento 2017 (International Production and Processing Expo -IPPE) em Atlanta, Geórgia, no começo de fevereiro e foi patrocinado pela Associação Nacional da Indústria de Graxaria ( National Renderers Association-NRA) e Associação Americana de Aves e Ovos (U.S. Poultry and Egg Association). Mitloehner discutiu fatos e ficção sobre agricultura animal e mudança climática e contestou as alegações contidas em um relatório da Organização de Alimentos e Agricultura (Food and Agriculture Organization -FAO) que compara as emissões de gases de efeito estufa de animais com os resultantes de transporte.  Ele disse que a FAO realizou uma avaliação do ciclo de vida dos animais de criação, mas não do transporte, onde apenas a pegada de carbono de combustível foi estudada, chegando à conclusão que 18% das emissões de gases efeito estufa eram originários dos animais.  “Compararam maçãs com laranjas,”  afirmou Mitloehner. Disse ainda que há grandes diferenças no mundo em relação ao impacto da agricultura animal sobre o meio ambiente.

A agricultura animal dos países em desenvolvimento tem uma pegada maior do que a dos países desenvolvidos, onde os animais são mantidos em regimes de crescimento com melhor conversão e genética. Finalmente, após avaliar os dados dos estudos de Mitloehner realizados na Universidade da Califórnia, a FAO retratou-se e corrigiu as cifras relativas aos gases efeito estufa originários da agricultura animal para uma média global de 14%.

Nos Estados Unidos a Agência de Proteção Ambiental (EPA) atribui 32% do total de emissões de gases efeito estufa à produção e uso de energia, 27% ao transporte e 10% a toda produção agrícola com a agricultura animal contribuindo 4,2%. Mitloehner explicou que se todos os americanos parassem de consumir carne bovina um dia por semana como parte do movimento “segunda-feira sem carne” os gases efeito estufa sofreriam uma redução de 0,3%.

“Isto é muito perigoso e engana o público, ” disse ele. Mitloehner acrescentou que existem 9 milhões de vacas leiteiras nos Estados Unidos e 9,5 milhões de cavalos, mas a pegada ambiental dos cavalos não está incluída nesta discussão.

Continuou:  “A agricultura animal dos Estados Unidos é a que menos prejudica o ambiente em todo o mundo, ” afirmando que há 16 milhões menos vacas leiteiras nos Estados Unidos do que em 1950 e a produção de leite cresceu 60%.

“A pegada de carbono de um copo de leite é dois terços menor hoje do que a 70 anos, ” declarou Mitloehner. Mais ainda, os Estados Unidos tinham 140 milhões de cabeças de gado em 1970 comparadas a 90 milhões em 2010 produzindo a mesma quantidade de carne, 24 milhões de toneladas métricas.  Prosseguiu dizendo que a maior causa da produção de metano é o arroto de animais devido às fibras ingeridas pelos animais no pasto, portanto vacas que são alimentadas com ração são melhores para o meio ambiente.

Mudando totalmente de assunto, Todd Mathes, vice-presidente sênior de serviços para restaurante da Darling Ingredients Inc., que disse que cerca de 2,2 bilhões quilos de  óleo de cozinha usado  são coletados nos Estados Unidos e Canadá por ano , com um valor significativo após processamento.  Ele explicou que o óleo de cozinha usado é processado e usado basicamente por seu conteúdo energético em ração para animais, alimentos para pets e também como matéria prima de biocombustível e algum uso em produtos técnicos e comerciais.

Com a melhor pegada de carbono de todos os combustíveis produzidos nos Estados Unidos, o óleo de cozinha usado é vantajoso na produção de combustíveis renováveis como biodiesel, óleo para caldeiras, e propano e butano renováveis, pois ajuda a diminuir as emissões de gases efeito estufa.   Também tem usos químicos em indústrias dedicadas a produção de lubrificantes, têxteis, plásticos e produtos de limpeza além de usos industriais em borracha, pneus e lubrificantes.

No passado, a graxa removida de filtros de restaurantes podia ser processada e usada em rações animais, mas de acordo com Mathes , isto não é mais permitido sob a nova Lei de Modernização da Segurança de Alimentos (Food Safety Modernization Act -FMSA). Esta limitação do uso de graxa dos filtros encoraja, cada vez mais, o uso de tanques de óleo de cozinha usado para coletar este produto e manter seu valor, especialmente em biocombustíveis.

Ele descreveu a produção de biodiesel como um processo muito eficiente pelo qual 100 quilos de matéria prima são transformados em 100 quilos de biodiesel. Um quilo de cada dez da gordura animal e óleo de cozinha usado gerados no Estados Unidos é processado na Diamond Green Diesel, uma planta de diesel renovável operada em parceria pela Darling Ingredients e Valero Energy Corporation. Atualmente as instalações produzem 160 milhões de galões de diesel renovável por ano e planejam expandir sua capacidade para 275 milhões de galões por ano em meados de 2018, à medida que a demanda por biodiesel cresse firmemente.

Mathes explicou que a produção de biodiesel não interfere no debate “comida X combustível”, pois  à medida que mais proteína é cultivada ou criada para alimentar o mundo, mais gordura é produzida que pode ser digerida e criar um subproduto.  “Vacas não são criadas para combustível e óleo de cozinha usado é processado e reusado como combustível”, disse Mathes, acrescentando a curiosidade que um galão de biodiesel não pode ser produzido sem coproduzir 15 quilos de proteína e 11 quilos de carboidratos e fibras dietéticas.

Dr. David Meeker, vice-presidente sênior de serviços científicos na NRA, afirmou que a agricultura animal é, em geral, mais sustentável com processos de graxaria. E é  também seguro e sustentável usar os subprodutos processados em rações e alimentos para pets, pois melhoram a sustentabilidade das indústrias das quais se originam e daquelas às quais fornecem.

“O consumo de carne aumenta à medida que renda média cresce, ” comentou Meeker. “Subprodutos da produção de carne são inevitáveis e o uso responsável é obrigatório. ” Se os subprodutos não fossem usados o preço de muitos produtos para pets e alimentos para humanos aumentaria, forçando o uso menos sustentável ou descarte menos ecologicamente correto dos subprodutos, criando desperdício de alimentos.

Observou que o maior obstáculo à sustentabilidade em alimentos para pets é a atitude que subprodutos são ruins quando na realidade fornecem muitos benefícios, inclusive atendendo as necessidades nutricionais de pets.

Stephen Sothmann, president of the U.S. Hide, Skin, and Leather Association, explicou aos participantes as complexidades do mercado de couro que entrou em declínio nos últimos anos devido a diminuição do uso de couro em todo o mundo. A China é o maior importador de couro e peles produzidos nos Estados Unidos, mas o desaquecimento da economia chinesa e queda do uso de couro em calçados levou a queda de preços e exportação de couros.  Sothmann disse que o crescimento da indústria automotiva e o uso de couro em carros médios levará a uma mudança nas exportações, especialmente para o México que produz couro para automóveis.

A presidente do NRA, Nancy Foster reconheceu que o crescente interesse do governo em desperdício de alimentos deveria incluir o papel do processamento e que a “ordem para um mundo novo” em Washington, DC, está originando oportunidades e incertezas, incluindo a inclusão de incentivos fiscais para biocombustíveis.

Foster ainda acrescentou que “A indústria de biodiesel está muito nervosa no momento e uma vez que processadores são fornecedores de matéria prima, estes temas são muito importantes para nós também”.

Entre outros palestrantes do simpósio estava o Dr. Charles Starkey, da Universidade Auburn, que revelou que agora entre 15 a 25% das rações para aves são vegetarianas e este número poderia chegar a quase 50%. O maior desafio da indústria de rações é a opinião do consumidor, especialmente em termos de alimentos para pets, enfatizando que os processadores devem combater a falta de informação e criar um diálogo melhor com os fabricantes de alimentos para pets sobre os benefícios nutricionais e a sustentabilidade do uso de proteínas e gorduras animais.

James Emerson, da Pilgrim’s Pride, mostrou um tour virtual tour de uma planta de processamento de aves, incluindo processamento de penas e sangue e o Dr. Ansen Pond, da Darling Ingredients, discutiu as complexidades da altamente regulamentada indústria de graxaria americana, que recicla 75 milhões de quilos de tecidos não comestíveis por dia. Pond mencionou que a grande maioria de produtos processados prontos são usados em rações , principalmente de aves, assim o aumento de dietas vegetarianas para aves é um motivo de preocupação.

Kent Swisher, vice-presidente dos programas internacionais da NRA, falou sobre acordos comerciais multilaterais, organizações internacionais que fiscalizam produtos animais e a miríade de padrões de sustentabilidade e sobre as companhias de certificação que surgiram. Destacou que a NRA tem um compromisso de envolvimento ativo com estes vários grupos para garantir a inclusão favorável de proteínas e gorduras animais em regulamentos e programas globais de sustentabilidade.

 

Foco em Alimentos para Pets
Houve uma ampla gama de programas educacionais durante a semana na IPPE, incluindo a 10a Conferência Anual sobre Alimentos para Pets patrocinada pela Associação Americana da Indústria de Rações (American Feed Industry Association-AFIA) que teve uma audiência recorde com mais de 350 participantes. Jared Koerten, analista líder da Euromonitor International, deu o pontapé inicial mostrando que a venda global de produtos para pets apresentou crescimento consistente ano após ano, chegando a $104 bilhões em 2016. A média de despesas de uma família com pets no mundo é cerca de $50 por ano em comparação com famílias americanas que gastam $355 por ano. A ração seca domina o mercado e ainda está em crescimento a despeito do tamanho do mercado.

Koerten descreveu a mudança para cães menores (até 10 quilos) e para o fato que os pets são considerados membros da família, originando o crescimento de alimentos premium e daqueles que copiam as tendências de alimentos humanos, como cuidados com o peso, intolerância a alimentos e “natural. ”

Gina Tumbarello, diretor de política e comércio internacional da AFIA, anunciou que as exportações americanas de alimentos para pets estão diminuindo, de pouco acima de 760.000 de toneladas métricas em 2011 para 716.000 toneladas métricas em 2016. A França é a maior exportadora global de alimentos para pets, seguida pela Alemanha e Estados Unidos, mas a Holanda está se aproximando do terceiro lugar.  Com mais de 276.000 toneladas métricas o Canadá é o principal importador de alimentos para pets produzidos nos Estados Unidos, seguido pelo México e Japão com cerca de 58.000 toneladas métricas cada, ainda que a importação japonesa tenha decrescido significativamente das mais de 130.000 de toneladas métricas em 2011 devido a diminuição do número de famílias com pets e ao aumento de produção doméstica.

A política comercial sob o novo presidente americano Donald Trump está sendo observada cuidadosamente, especialmente se o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (North American Free Trade Agreement -NAFTA) for renegociado.

“NAFTA tem 23 anos, assim sua reabertura e modernização poderiam ser uma oportunidade, especialmente no concernente a problemas fitossanitários, ” comentou Tumbarello. “O desafio chave com a nova administração é garantir que os interesses e preocupações da indústria sejam ouvidos. ”

Um tópico dinâmico foi como desenvolver a próxima geração de funcionários na área de alimentos para pets. Um estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e Universidade Purdue reportou que há necessidade de quase 60.000 empregados altamente qualificados nas indústrias de agricultura e alimentos entre 2015 e 2020. Dra. Jessica Starkey, professor assistente na Universidade Auburn, disse que educação na área de carreiras na agricultura começa com os professores e descreveu as várias ferramentas educacionais da NRA – uma apresentação em PowerPoint, vídeo, e infográfica sobre os pontos específicos da indústria de graxaria- como um bom exemplo.

“Educar o educador sobre a indústria de alimentos para pets nos ajudará a compartilhar informações com alunos que procuram carreiras na área de agricultura, ” afirmou Starkey. “Os alunos estão lá, só precisamos conecta-los com a indústria. ” Outra área de concentração deve ser a descrição mais precisa das funções para que os alunos não tenham dúvidas sobre os requisitos da posição, qualificações que aprenderão e oportunidades disponíveis.  Starkey disse que treinamento na indústria é valioso para alunos e as empresas.

Dra. Melissa Brookshire, da North River Enterprises, discutiu sobre a necessidade de maior transparência das indústrias de alimentos para pets com as 80 milhões de famílias americanas que possuem pets.

“Um fabricante de ração para pets precisa equilibrar os requisitos nutricionais do animal e as necessidades e desejos do consumidor, ” enquanto mantem operações sustentáveis, disse Brookshire. “Isto pode ser feito, mas exige foco e atenção. ” Com a mídia social e Internet, os consumidores podem compartilhar suas experiências ruins com milhões de outros, a despeito de não fornecer evidência científica para comprovar suas alegações.  As empresas de alimentos para pets precisam mostrar cuidado e compaixão para os consumidores preocupados, mas o desafio é encontrar uma ponte entre a ciência, que os consumidores veem como inimiga, e a informação que o público realmente deseja.

FSMA foi também um tópico de alta prioridade na conferência sobre alimentos para pets.  De acordo com Jenny Murphy da FDA, no momento, a agência pretende educar antes de regular. Ela afirmou que FSMA coloca o controle nas mãos das indústrias. “Responsabilizem-se e vão além dos requisitos básicos em seus programas de controle de qualidade e segurança dos alimentos. ” FDA não inspecionará todos as grandes empresas no primeiro ano e as instalações que são inspecionadas sob outros programas (por ex., encefalopatia espongiforme bovina ou rações com medicamentos) devem esperar perguntas da FSMA tipo sobre prontidão/conscientização, ainda que as respostas sejam voluntárias mas ajudam o pessoal da FDA.

“Tudo isto é sobre alimentos seguros, ” comentou Murphy. “Construam uma base sólida em suas empresas e instilem esta cultura em seu pessoal. ”

PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – ED. MAI/JUN 2017

 

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