16 dez, 2019
por Daniel Geraldes
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Sebo bovino – Uma commodity cada vez mais valorizada

A valorização do sebo bovino

Tendo um importante consumo interno, aplicado em diferentes mercados, com principal destino a produção de biodiesel, o sebo bovino tornou-se uma commodity supervalorizada

Por: Lia Freire

Considerado um dos principais produtores mundiais de proteína animal, o Brasil, apenas em 2018, registrou o abate de 31.901 mil cabeças bovinas, 44.201 mil cabeças suínas e 5.698.494 bilhões cabeças de frangos, segundo levantamento da Ubrabio – União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene, a partir de dados do IBGE. Mediante estes dados, constatamos que o país está entre os maiores players mundiais de gordura de origem animal, com uma produção de 1,9 milhão de toneladas, sendo 1,2 milhão de toneladas de sebo bovino.

Se antigamente este tipo de gordura animal produzida pela reciclagem animal tinha um baixo valor agregado, tendo como principal consumidor a indústria de sabões hoje a situação mudou. Trata-se de uma importante fonte de lipídios, palatável, altamente energético e composto basicamente de triglicerídeos, proporcionando um custo reduzido na formulação de rações (lembrando que o seu uso é proibido na dieta de ruminantes); também é seguro e estável, isento de fatores antinutricionais; uma fonte de gordura estável à temperatura ambiente e uma boa alternativa ao uso de fontes vegetais na produção do biodiesel.

Por essas características sua aplicação está muito mais disseminada. Segundo estimativa da ABRA – Associação Brasileira da Reciclagem Animal, atualmente a gordura de origem animal é direcionada para os seguintes mercados: biodiesel (37,1% – no ano de 2018, 28% do biodiesel brasileiro foi produzido usando as gorduras animais como matéria-prima), higiene e limpeza (27,4%), produção animal (26,5%), pet food (5,8%) e demais indústrias (3,2%). Sendo o sebo bovino a segunda matéria-prima mais utilizada na produção do biodiesel, com uma participação de 13,2%, ficando atrás do óleo de soja com 70,1% de participação.

O Diretor Comercial Corporativo da Reciclagem/ A&R Nutrição Animal, Sérgio Murillo Bittar, executivo do grupo que contabiliza 11 plantas espalhadas pelo Brasil e uma produção mensal entre 7.500 a 8 mil toneladas de sebo, voltada integralmente para atender o mercado nacional, declara que esse tipo de gordura animal não exige nenhum esforço de vendas, já que é uma matéria-prima de muita procura, o que por outro lado desperta interesse, inclusive para uma concorrência desleal, em que ‘atravessadores’ com uma política de preço predatória, compram o sebo para revendê-lo. Lembrando que o balizador de preço do sebo é a soja.

Uma outra particularidade que exige atenção de quem trabalha neste mercado é a sazonalidade que interfere nos preços ao longo do ano. “Estamos diante de um insumo que dependendo da época pode variar em uma semana até R$ 0,10, lembrando que quaisquer cinco centavos já faz uma enorme diferença, considerando o montante que trabalhamos.

É uma vigilância constante. O gráfico de preço do sebo costuma seguir a seguinte trajetória:  em dezembro temos o preço mais alto, de janeiro a julho apresenta uma queda e, em agosto sobe novamente. No entanto, esse ano de 2019 foi atípico e melhor do que os últimos anos para a nossa empresa, já que de março a julho os preços se mantiveram, não havendo uma queda como ocorre tradicionalmente”, declara Sérgio.

O executivo da Reciclagem diz que o ano 2019 apresentou bons números para a companhia, diferente do cenário registrado nos últimos anos. O Grupo vem crescendo e trabalhando com fusões e aquisições. “No último ano de 9 plantas saltamos para 11 e tem mais três operações para iniciarem em um prazo aproximado de oito meses. Daqui para frente as nossas perspectivas são boas, que incluem parcerias e importantes negócios”, contabiliza.

Com seis unidades para a produção de sebo bovino, localizadas em Palmeiras de Goiás (GO), Rolim de Moura (RO), Mirassol D´Oeste e Paranatinga (MT), Araguaína (TO), Janaúba (MG), além de uma unidade terceirizada, em São José do Rio Preto (SP) e uma capacidade média de produção de 3.000 a 3.500 toneladas/mês, a Minerva Foods vem notando uma demanda bastante aquecida no mercado interno, com oportunidades de explorar novos nichos, como o sebo branqueado e neutralizado. “Neste momento, observamos uma alta demanda do mercado interno, mas o mercado externo segue também como um negócio promissor, tendo como principais destinos a Europa, Ásia e América”, conta Marcelo de Alcântara Queiroz, Diretor de Biodiesel & Ingredients da Minerva Foods, acrescentando que a empresa segue investindo em pesquisa e desenvolvimento, bem como em tecnologia, para oferecer um sebo bovino cada vez melhor e de alta qualidade.

Com atendimento exclusivo do mercado interno, a Ossovale de Cianorte (PR) com produção mensal de mil toneladas de sebo bovino, tem nos segmentos de higiene/beleza e biodiesel seus principais consumidores. “O setor vem em um crescimento significativo e com possibilidade de ascensão nos próximos anos, mas é imprescindível que tenhamos o devido reconhecimento da nossa atividade e uma adequada política de incentivos.

Nesse sentido, a atuação da ABRA – Associação Brasileira de Reciclagem Animal vem contribuindo, não só para o fortalecimento do setor, como na redefinição da nossa atividade na busca de incentivos fiscais e financiamentos a custo baixo, além da importante consolidação da parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento”, destaca Sérgio Alves Ferreira, Sócio-Diretor da Ossovale Comércio de Farinha de Carne Ltda. Para minimizar os desafios em suas atividades, a empresa vem diminuindo o custo direto de produção e investindo na eficiência produtiva através da automação, que resulta em menor tempo dos processos, maior controle e eficácia do processo.

Mais de 5 mil toneladas exportadas

Embora atender o mercado interno seja prioridade para o Grupo FASA – até porque a demanda local é grande e tende a ser ainda mais relevante com a entrada em vigor desde o dia primeiro de setembro da mistura obrigatória B11 no diesel vendido no Brasil, ou seja, o combustível deve ter 11% de biodiesel –, a empresa realizou recentemente uma importante exportação de sebo bovino para a Holanda.

Foram 5 mil e 300 toneladas da gordura animal destinada à produção do biodiesel naquele país. “Nestes momentos de sazonalidade procuramos escoar a produção, atendendo o mercado externo, o que inclusive ajuda a regular os preços no Brasil. Essa queda na demanda se dá especialmente no uso do sebo na produção biodiesel durante o inverno e isso ocorre porque em temperatura ambiente o sebo se torna sólido e na produção do biodiesel se formam cristais, por isso, o óleo de soja, que é mais líquido, é priorizado nessa época do ano”, explica o executivo do Grupo FASA, Robinson Huyer.

Sobre as exportações, Robinson disse que a falta de acordos comerciais dificulta que os negócios sejam alavancados para o mercado brasileiro de sebo bovino. Já em relação à qualidade, lembra que a gordura animal produzida aqui é equiparada aos sebos produzidos em qualquer parte do mundo. “As barreiras comerciais e sanitárias é que impedem a evolução das exportações. Aqui no Grupo FASA das 11 fábricas, só uma planta está habilitada para exportar para a Europa e não é porque não queremos, realmente não conseguimos devido às barreiras”, lamenta. Por isso, o recente negócio com a Holanda é ainda mais comemorado.

E os desafios da exportação continuam…

Caio Torres, broker especialista em gorduras e proteínas animais da Aboissa Commodity Brokers, também comemora os resultados das exportações. O preço do mercado interno em baixa durante o primeiro semestre e o aumento do câmbio do dólar foram fatores que ajudaram posicionar a exportação brasileira do sebo bovino como uma alternativa interessante, somado aos preços atrativos praticados por compradores europeus. “Em julho – período em que os preços do mercado interno estavam chegando em seu nível mais baixo – realizamos para a Europa a exportação de mais de 5.000 toneladas à granel do sebo bruto. Entre os principais países compradores do sebo bovino brasileiro nos últimos quatro anos, temos a Holanda (23%) e a Itália (17%) para o mercado de biodiesel; e Nigéria (19%) para o mercado de sabão.”

O especialista da Aboissa afirma que os desafios em exportar sebo começam com o alto custo interno de logística e as despesas portuárias. “Por se tratar de um produto com valor agregado baixo, qualquer custo extra com questões operacionais pode inviabilizar o negócio.” Caio acrescenta que é importante conhecer a legislação do país do destino e estar habilitado para realizar a operação. Além disso, é imprescindível conhecer o método de análise da especificação do comprador para garantir a qualidade.”

O consumo interno é também bastante representativo para os negócios da Aboissa. “Houve um aumento da participação do sebo em relação as demais gorduras animais e isso se deve à demanda do setor de biodiesel. Até julho deste ano, a participação do mercado interno de sebo estava em 42%, enquanto no ano passado ficou em 31%”, exemplifica Caio.

Embora o mercado de biodiesel represente cerca 65% dos negócios totais gerados pelo sebo bovino, na Aboissa o primeiro semestre apresentou condições favoráveis aos compradores de sebo no Brasil para a produção de oleoquímicos. Apesar de promissor, a representatividade das vendas para este setor ficou em torno de 8%. Ainda que seja uma parcela pequena, significou um aumento de 15% em relação ao volume do ano passado. “Existe também um esforço por parte de alguns fornecedores em buscar uma mudança da legislação para a utilização do sebo bovino no mercado alimentício”, lembra Caio.

Mesmo comemorando os resultados, o corretor Caio não deixa de citar duas grandes dificuldades ao se trabalhar com os produtos de origem animal: o armazenamento e transporte. “Apesar do sebo ser um ativo com especificidades técnicas e físicas, está longe de ser um dos principais produtos dos frigoríficos. Como os subprodutos apresentam um valor agregado relativamente baixo, não há interesse em conduzir um processo rigoroso na armazenagem do despojo para garantir um produto com qualidade estável. A precária condição de estradas também contribui para uma logística cara e, muitas vezes, inviável para o transporte eficiente nas coletas das graxarias”, analisa.

Sobre as projeções para o mercado de sebo bovino, segundo o especialista da Aboissa, são boas. “A produção da gordura animal está relacionada com a produção de carne e, para este último, a projeção é de crescimento, ao mesmo tempo em que se prevê uma elevação na demanda do setor de biodiesel. Apenas com esses dois aspectos já teríamos condições favoráveis, mas acrescenta-se a isso, a volatilidade da soja, que exerce influência no preço do sebo bovino. Como a perspectiva da próxima safra de soja é de escassez, consequentemente uma baixa produção do seu óleo, temos a expectativa de um preço do sebo bastante fortalecido”, analisa Caio.

Fonte: PUBLICAÇÃO EXCLUSIVA DA REVISTA GRAXARIA – ED. SET/OUT 2019. PROIBIDO PUBLICAÇÃO TOTAL OU PARCIAL SEM AUTORIZAÇÃO DA EDITORA STILO.

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