9 jul, 2020
por Daniel Geraldes
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“Temos tecnologia, terra e gente”, diz Roberto Rodrigues

A pandemia de coronavírus afetou as atividades em muitos países mas o agronegócio brasileiro se saiu muito bem. As exportações do setor bateram recorde em 2020 e somam US$ 42 bilhões, o maior valor já registrado para os primeiros cinco meses do ano, respondendo por 23% do PIB. A previsão é de ultrapassar os US$ 100 bilhões. Nos anos 2000 somava apenas US$ 20 bilhões. Mesmo o PIB brasileiro caindo de 6 a 8 %, o agronegócio vai crescer 2,5%. Este cenário de desafios e superação durante a retração da economia mundial foi discutido em um webinar promovido nesta quarta-feira (08), pela Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham) por Roberto Rodrigues, atual coordenador de agronegócio da FGV e Lair Hanzen, Presidente para as Américas da Yara. A mediação ficou com Marcos Leandro Pereira, sócio fundador da RCA Governança & Sucessão.

Ano de Covid-19 e segurança alimentar

Com a pandemia outro tema veio a tona: a segurança alimentar. A preoupação que surgiu na Europa pós-guerra e garantiu comida para todos cidadãos europeus. O objetivo inicial era somente abastecer. Como tudo passou esse tema ficou esquecido. Agora, mais do que nunca, a discussão é como manter o abastecimento não só neste mas nos próximos anos, onde a população deve crescer substancialmente.

“As pessoas perceberam que não precisam de automóvel, sapato, roupa nova mas precisam comer. Nosso setor ganhou importância e não pode parar. O Brasil foi o único país que aumentou as exportações, superando as dificuldades logísticas. Isso mostra nossa imensa capacidade e avançar nos mercados. Outros países não conseguiram”, destaca Roberto Rodrigues.

Para ele este momento trará algumas consequências que farão repensar o setor e projetar mais crescimento. A primeira é que todo mundo percebeu que tem que apoiar a agricultura, inclusive o setor urbano. A segunda foi a baixa em alguns setores como flores e HF que ainda buscam soluções, junto com o etanol. Como o consumo despencou e o preço caiu, a safra teve que se focar mais no açúcar. A terceira e mais importante, na visão do ex-ministro.é que haverá um novo protecionismo agrícola no mundo. “Alguns países estão evitando exportar excedentes para não faltar comida internamente e outros estão buscando taxar importações para incentivar produtores locais. Isso seguramente vai mexer com comércio global”, ressalta.

Agro do Brasil precisa crescer o dobro do mundial

O cenário é complexo mas beneficia o Brasil. O país alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, 6 vezes mais do que a população brasileira, exporta para  mais de 150 países e gera 25% dos empregos. Rodrigues avalia que o Brasil é o país que tem o maior potencial para crescer na agricultura. Segundo projeções da FAO, OCDE e USDA para que não falte comida no mundo é preciso que a produção aumente 20% nos próximos 10 anos. “Pro mundo não é fácil. Estados Unidos vai crescer 10% e as outras potencias do agro menos de 9%. Isso coloca o Brasil num desafio de crescer 40% porque o mundo só será abastecido se nós ampliarmos nossa produção”, diz.

Ele lista três fatores que colocam o país como favorecido neste cenário e capaz de alcançar a meta de crescer 40%:

-Tecnologia: necessária para fazer crescer a produção. A cada ano o Brasil cultiva 65 milhões de hectares com grãos somadas todas as safras. Com eficiência produtiva é possível expandir sem desmatar.
-Terra: um estudo da Embrapa aponta que o Brasil tem 66% de seu território coberto de vegetação nativa; toda a agricultura brasileira ocupa apenas 8,5% e as pastagens 21%, portanto menos de 30% do total.
– Pessoal: país conta com muitos profissionais de diferentes áreas do setor que contribuem com pesquisa, inovação e novas formas de gestão.

“Somado a tudo isso estamos avançando em conectividade e agora temos digitalização, drones, máquinas que se comunicam no campo e isso vai possibilitar aprimorar a gestão aliado a uma ferramenta essencial que é muito forte no Brasil: o cooperativismo. As cooperativas incluem os pequenos agricultores, fundamentais na nossa atividade”, diz Rodrigues.

“Não tem como o mundo se alimentar sem o Brasil”

Lair Hanzen, que está a frente de uma das maiores empresas de fertilizantes do mundo, acredita que o desafio de aumentar a produção é grande mas totalmente possível. Para alimentar cerca de 9 bilhões de pessoas, nos próximos 50 anos o agronegócio terá que produzir tudo o que produziu nos últimos 10 mil anos somados.

“As perspectivas para nosso agro não poderiam ser melhores. Basicamente não tem como o mundo se alimentar sem o Brasil. Além de tecnologia, terra e pessoas temos 13% da reserva de água doce do mundo e clima favorável. Isso é nosso e daqui não sai e vai elevar nossa produção”, projeta.

O agro carrega não só segurança alimentar mas segurança nacional, sendo o único que cresce na crise, com empregos, metade do PIB.

O executivo traça dois outros caminhos que o setor tem a cumprir se quiser ser o número um. O primeiro é superar a imagem externa de que se produz desmatando. “A ilegalidade prejudica 99,9% dos que produzem dentro do respeito à natureza”, destaca.
O outro ponto está nas dificuldades administrativas como entraves de infraestrutura e logística e questões tributárias. “Hoje em fertilizantes importamos 75% do que usamos porque não há matéria-prima suficiente e estímulo em impostos para a produção local. O consumo do Brasil em fertilizantes cresce 3 vezes mais do que no mundo, acompanhando nossa agricultura. Que a iniciativa privada, o governo, façam sua parte para colocar o país onde precisa” diz.

Para Hanzen, além de políticas para o setor, as lideranças do agro precisam fomentar competitividade e sustentabilidade dentro da porteira, com aporte de tecnologia e conectividade e fora da porteira com diálogo. “Acho que a agricultura brasileira está melhor dentro da porteira do que fora. Não podemos forçar esse discurso de que o mundo precisa do Brasil e pronto,  porque sempre se acha solução”, defende.

Ele ainda acredita que esse é um momento de investimentos. “Investimos R$ 15 bilhões no Brasil nos últimos 10 anos e fizemos no meio da crise porque tem que se apostar em agricultura a longo prazo. Precisamos investir em fertilizantes locais para aumentar a competitividade do Brasil na produção e contar com a força empreendedora dos empresários do setor”, finaliza Hanzen.

Fonte: Agrolink Por Eliza Maliszewski

Crédito: DP

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